DEGREDO
Esmeraldo Lopes
A tarde fria, chuvisquenta. A cidade se desanimando na fisionomia desanimada de seus habitantes. O cinza do céu fazendo cobertura ao tédio. Musgos brotando nos pés de parede, se encaminhando por rachaduras, cobrindo o chão nos lugares de pouco pisado. Vou em andar de andante sem curiosidade. Sem atenção de destino, dou-me sentado à mesa de uma barraca de flandres, situada na lateral de uma praça morta. Ali, o nada se preenchendo com música de banda-chama-merda. Cerveja, cigarro, a memória trabalhando sem direção. Uma frase insiste convocando atenção: “Uma alvorada triste”, título de escrito de Euclides da Cunha. Mas só vem o título, título sem texto. A voz, a face de Brizola pousando: “Povo brasileiro”..., “Vamos acabar com os privilégios dos que massacram o povo brasileiro”. E as vaias: “Izola! Izola!”, em coro de latido pela demência petista. A cena do enterro de Brizola, do enterro do último político que temperava política com emoção, com paixão. “Uma alvorada triste”. E vem o frio da voz espinhenta do analfabeto sem dedo, assoprando frases no tom dos cantados pelas bandas-chama-merda, prometendo solução das coisas do aquém, das coisas do além, querendo devoção, reprimindo crítica. “Uma alvorada triste”: o som do dizer: “A voz do povo é a voz de Deus”. O ver do analfabeto sem dedo se apoiando na elevação da auto-estima dos miseráveis, na obra de miserabilização dos pobres, na gratificação aos oportunistas, na ingenuidade dos incautos, na cobiça dos burgueses, para ganhar eco na voz do povo e se fazer Deus. E estrala em meus ouvidos a voz da militante petista dizendo: “No meio dos inteligentes ele não tem prestígio, mas no meio da pobreza!”...
“Uma alvorada triste”. O chegado da lembrança dos candidatos a presidente da República se desviando de política, se bandeando para assistência social, se fincando no compromisso de remendos acode-acode: mais escolas, mais creche, mais estrada, mais emprego, mais cirurgia, mais bolsa-renda, mais assentamentos, sorriso para casamento gay, atenção aos sem-terra, aos sem-teto, atendimento à ecologia... Brasileiros inexistentes, Brasil ausente... O barco Brasil à deriva, já no despenhadeiro, eles entretidos em tapar os furos do casco, prometendo salvação.
“Uma alvorada triste”. O ecoar da recomendação-cobrança de um colega: “Se você não vota em Dilma, então se alie logo a Collor, para ficar na direita assumida”. Eu, embalançando entre voto em Plínio e voto nulo, direita. Ele, fazendo campanha para Dilma, que apóia Collor, Roseana Sarney e cambada, esquerda.
“Uma alvorada triste”. Os chuviscos, o frio, o anoitecer, a elevação do som da música chama-merda. Acalanto: chega-me o cochicho há muito assoprado em meus ouvidos por João Pescocinho, um doido: “Meu fio, boca calada que os inimigos estão em todo lugar”. |
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“O silêncio dos intelectuais”
Esmeraldo Lopes
Há, agora, um reclamo circulando em jornais, em revistas, em programas de televisão, motivando a promoção de conferências e a organização de seminários: “O silêncio dos intelectuais”. Mas esse reclamo não vem da voz do povo, que este sempre habitou em si mesmo, se providenciando com os farrapos do que aprendeu nas igrejas, com os mal-amanhados ditos pelos professores no ensino fundamental, com o ouvido e avistado através dos meios de comunicação, mas se arranjando principalmente pela orientação da memória herdada, pelos remendos costurados nas circunstâncias da vida. Para o povo, intelectuais são pessoas especiais, mas especiais pela importância que se dão, pela sofisticação de si mesmos, pela distância que se põem. No dizer franco e direto, o povo admira o intelectual na mesma proporção que uma madame admira sua prataria. Não é uma comparação estúpida, pela postura daqueles que, no Brasil, se apresentam como intelectuais.
Voltando ao caso, o reclamo é chão apenas para a elite da elite do conjunto de pessoas que voltearam os corredores de faculdades. Elite da elite, que tirando esta, os componentes do resto do conjunto são “analfabetos letrados”, copiando o dizer de Milton Santos. E não importa que parte dos que formam o conjunto seja de “mestres”, “doutores”, “pós-doutores”. Aliás, é no meio destes que o problema se manifesta de forma mais grave, pois que o título se faz acompanhar pela arrogância. Como os personagens da caverna de Platão, cegam, agarrando-se ao suposto domínio de alguma miudeza a que chamam de “objeto de estudo”. Mas, como toda importância precisa da ratificação de outros, criam mecanismos para reciprocidade de reconhecimento e elogios entre iguais. Não, não são intelectuais, e tanto não são que não compreendem, indignam-se com a expressão “silêncio dos intelectuais”, e agitados por esta indignação latem: “Um absurdo! Como silêncio dos intelectuais se existem milhares de publicações científicas, milhares de dissertações, de teses de doutorado!?” Na boca deles, o remoer: artigo científico, pesquisa. Pensam-se intelectuais, mas não passam de meros trabalhadores intelectuais; pensam-se fazendo ciência, pois não sabem que o que fazem, no máximo, é tecnociência. Coitadinhos, podemos chamá-los de otários científicizados. Coitadinhos! Coitadinhos nada, estão bem abancados nas universidades, nos institutos de pesquisa, dando ordens, castrando cérebros de jovens, fabricando otários.
Na elite da elite, os eruditos, tecnicamente aptos à atividade intelectual, mas amiudados na arte de burilar conceitos, de alinhavar pensamento pensado, de trilhar por caminhos abertos. Sabem fazer pesquisa, sabem escrever, mas, embotados, refugam diante da possibilidade do pensar próprio. Refugiados no porto seguro das academias, dos institutos de pesquisa, se preservam pelo domínio vaidoso do saber alheio. Falta-lhes talento. Enquadrados, exigem enquadramento. Diante de situações adversas, resmungam em silêncio. Falta-lhes coragem. Não se aventuram aos riscos dos açoites das ondas do mar. Nisso se despem da condição de intelectuais. Como disse Darcy Ribeiro, “intelectual com medo não presta”.
Os eruditos, enredados nas malhas do pensamento iluminista, só conseguem o enxergar míope. Sabem que os conceitos que burilam se esfarraparam. E se agarram ao pensamento pensado pela força forçada de fé, nua de convicção. Precisam de “um verso novo”, reclamam do “silêncio dos intelectuais”, mas se juntam com os otários cientificizados e banem a todos os que se aventuram pelos caminhos da curiosidade intelectual, condenando-os por não obedecerem aos cânones da ciência. Cientistas, tecnocientistas, assassinos de almas, destituídos de liberdade filosófica.
O intelectual é livre e precisa de liberdade para permanecer na condição de intelectual. Afirma-se no si mesmo de seu próprio pensar. Na angústia de e seu labutar se angustia, desvenda, revela, abre caminhos seguindo pelo revolto do mar turvo. Nesse ir, é jogado na vala dos marginais, dos banidos, dos ridículos. Conhece a fogueira, a tortura, o desemprego, a humilhação. Treme no abandono das terras da solidão. E habita o abandono das terras da solidão porque não pode ter amigos, por não poder se esquivar do dever da crítica ferina, da revelação inclemente.
Não. Não há silêncio dos intelectuais. As vozes deles é que não são ouvidas. Não são ouvidas porque não se cumpliciam com o discurso estabelecido, porque não aceitam o conforto dos assentos laureados pela conivência, pela omissão. Sobram-lhes as frestas dos muros fechados, os subterrâneos. |
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TRANSLÚCIDO INVISÍVEL
P/ Esmeraldo Lopes
O mar. O revolto das águas na luta eterna contra o arrecife, sem repetição de movimento. No inalcançável da visão, o infinito. Perto, perto, a areia em bilhões e bilhões incontáveis de grãos fazendo piso para a multidão: a praia.
Todos os dias sempre a mesma multidão, formada na variação das pessoas. A multidão eternamente conservando a mesma cara, vestindo as mesmas cores, se movendo no mesmo passo. Passo de passos diferentes, que o movimento feliz das crianças, que a arrogância dos turistas, que o deslumbramento dos farofeiros, que o andar ligeiro dos garçons, que o ir e vir frenético dos ambulantes, que os barraqueiros botando cuidado atento no trabalho de enchimento do caixa. E, perdidos neste emaranhado, o olhar distante da bela moça de feição triste, a solidão de um homem portado em um corpo maltratado, dando pouso ao cansaço, mergulhando a alma em um copo de cerveja, talvez, fugindo das lembranças. E, no atiçado sobre o seu ser, ele:
- Tive dois filhos (filhos), minha esposa morreu, agora estou só. Meus filhos estão por aí, têm a vida deles. A vida é assim, é a lei. Sou aposentado, mas o salário mínimo não dá, por isso vendo bilhete de loteria correndo as praias. Saiu oferecendo os bilhetes. Algumas pessoas compram, outras não dão atenção e há as que soltam piadas.
Até aí, o comum, mas veio que, futucado, ele começou a soltar:
- A vida é instinto. O mais sofredor dos seres, ainda que desenganado, quer viver, sonha se alimentando com esperança.
- A poesia é o sentimento da alma do momento. Presta para o sentimento da vida. Deus criou o mundo em um ato de poesia, por isso ele criou a vida.
- A Caatinga é uma das praias de minha imaginação.
E, no aproximado da conversa:
- Sou poeta.
De sua lavra, entre inúmeras:
Quantas vezes passamos pela vida,
Sonhando coisas que jamais teremos,
Tão-somente aos outros parecendo
Uma imagem que nunca foi sentida.
Quantas vezes em nós há só poente,
Mas fingimos divina madrugada
Ou sorrindo, ou em plena gargalhada,
Ocultamos a dor inutilmente.
Quantas vezes fazemos carnaval,
Festejamos a Noite de Natal
E falamos dos mundos encantados.
Mas... por dentro de nós choram degredos,
Decepções e traumas em segredo
E as tristezas do Dia de Finados
***
Finalmente cheguei ao fim desta jornada.
Tão cheia de agonias, de decepções.
E cada passo percorrido,
As frustrações deixaram para sempre a marca registrada.
E tão cedo perdi meus entes queridos.
Só ficou no meu peito a saudade fincada.
Saudade... A saudade é a dor perfumada.
Vegeto desde então no Vale dos vencidos.
Nunca! Jamais passou por mim a deusa sorte.
Então sejas bem-vinda, oh desejada morte.
Dancemos uma valsa,
Depois serei teu.
Se alguém conhecido perguntar por mim,
Certamente ouvirá uma resposta assim:
- “Não sei, ouvi dizer que Mirabeu morreu.”
***
SONHANDO
Havia no sorriso algo de rainha.
Se pegava na flor,
Esta se comovia.
Se a noite era escura,
Se tornava em dia.
Do ventre as estrelas,
Uma prece vinha.
Quando entrava na igreja,
Os sinos badalavam.
E pairava no mundo,
Suave alegria.
Tudo em volta de tudo,
Era só poesia.
No embalo da brisa,
Os bambus dançavam.
Os seios tão durinhos,
Boca sensual...
Que mistura de santa
E de mulher fatal!
Beleza igual,
Jamais existirá, suponho.
Oh efêmera noite de felicidade!
Dela, só me ficou o rastro de saudade.
Por que despertei de tão bonito sonho!?
***
Fugiu desse meu ser,
Um pavoroso grito
Que vivia escondido,
Tenso e acorrentado.
Ainda escuto o seu eco
Rumo ao infinito,
Pairando em cada estrela,
E jamais consolado.
Bem sei que a maldição da múmia me persegue,
Junto às pragas de mãe, que ao filho mal rogou.
Ou quem sabe? Macumba,
Embora sempre a negue
A minha crença em Deus,
Que sempre vacilou.
Passam por mim zombando,
Mais de cem mendigos.
Prostitutas banguelas me fazem caretas.
E os fetos abortados
Me culpam por tudo.
E o meu grito regressa
Sem resposta, amigo.
Um relincho terrível
Num curral de bestas,
Me transforma num monge
Surdo, cego e mudo.
Abrahão Mirabeu Cavalcanti, 1931, nasceu em Quebrangulo, na casa e no quarto onde nasceu Graciliano Ramos. Estudou até 1950, quando foi forçado a abandonar a escola no 3º ano ginasial, por falta de condição do pai (Artur de Lima Cavalcanti), que era professor autodidata.
- “Tenho o nome Mirabeau porque meu pai admirava muito da Revolução Francesa e havia um herói com esse nome”.
- Meu futuro sempre foi... Nunca me preocupei com 24 horas. Se eu estou de dia, me preocupo com o dia; se estou de noite, me preocupo com a noite, nunca com o amanhecer. Aconteça o que acontecer o futuro, o passado e o presente estão dentro das 24 horas. Nunca me preocupei em ganhar dinheiro, toda a minha preocupação foi sempre ler, ler, ler... Ler é compulsão.
Mirabeu, foi jornaleiro, morou em Brasília, onde participou da Diretoria do Sindicato dos Jornaleiros e, nesta cidade, discursou no último comício havido, antes do Golpe de 1964, antecedendo a participação de Leonel Brizola. Com relação aos percalços da vida, invoca uma expressão árabe, que, traduzida, diz: “Estava escrito”. |
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DIVINDADE SEM PARAÍSO
Esmeraldo Lopes
O paraíso é o túmulo dos fracos e dos idiotas. Em qualquer que seja o paraíso, sempre haverá um deus, não importa se do bem, ou se do mal. Sim, do mal, pois que o inferno é o lugar da felicidade dos diabos. Por quantos tormentos passaria um diabo no céu? Por tantos quantos passaria um anjo no inferno. Em qualquer que seja o paraíso, sempre haverá um deus a guiar os passos, a ordenar o pastejar do rebanho. E o rebanho em seu seguir, temeroso, amedrontado pelo som das dobradas da chibata cortando o vento, se queda diante da ordenação do deus entronado, entoando o canto morto: “Eu aceito o meu destino. Eu mereço o castigo, meu bom deus”. Triste céu, triste inferno! Tristes todos os paraísos, túmulos da demência, túmulos da covardia.
Esqueçam-se os paraísos, que quero falar da vida.
Todos os homens sem paraíso são deuses, porque obreiros de si e se lançam na tormenta das agonias do mundo, rindo, chorando, suportando, se indignando, tropeçando, levantando, se julgando, proferindo as próprias sentenças. Silêncio, ação, solidão, angústia, silêncio.... Divindades sem paraíso, habitantes do vácuo universal. |
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APARIÇÃO
Esmeraldo Lopes
A noite. Os mesmos acontecimentos de sempre de toda noite: a chegança de um, a chegança de outro... Cada quem se ajeitando no improviso de agasalho de algum encosto para o corpo. As conversas anunciando os ocorridos do dia, mas os ocorridos sem variação para atenção curiosa. E no logo, logo dos ditos dos acontecidos no de ontem para o hoje, os contados sabidos, sabidos, sabidos, repetidos, repetidos... mas sem atração de cansaço, prendendo a atenção, puxando imaginação. Desejo: que sempre fosse assim que notícia nova, notícia de morte por morte, de morte por assassinato. Notícia de morte por morte, choro, tristeza; notícia de morte por assassinato, o correr no daqui a pouco de poucos dias, de outros assassinatos por vingança. Melhor o ali. Naquele ali, a variação das noites pelo truvo clareado pelo pouco alumiar da fogueira, pelo clareado despejado pela brancura da luz da lua. Esse assim, esse assim... Mas em uma noite... Nessa noite o avistar ia até o longe do alcance das vistas. O céu estava nu, as estrelas se mostravam serenas no firmamento, a lua esparramava branquidão. E foi que um chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..., abafado, assoprou no mundo. Era um chiiiiiiiiiiii... sem subir e sem descer de tom, sem ir e sem vir, manso, assoprando sem sinal de rumo. E uma cabeça voltou os olhos em outra direção: “O que é aquilo?” A gente foi com as vistas na posição da cabeça dos olhos que viam. Vimos a aquilo que vinha. Vinha do lado do Sul. E aquilo vinha carregado com cores de todas as cores, derramando claridade colorida sobre as árvores, sobre o chão, desfazendo o clarear da lua. E lá vem, e lá vem, serenando no rumo, mantendo a altura que estava do chão, sem subir e sem descer, navegando na linha de prumo reto. O Chiiiiiiiiiii... manso, contínuo. Nós: o silêncio, a contemplação, o enfeitiçamento sem piscado de vistas, e não nos víamos. Todo o nosso olhar era para o que víamos. A coisa se mostrando. Era grande-grande, em vôo baixo, rasante. Ainda no longe de nosso avistar, o que se via era um misturado de cores piscando, um misturado de cores em linha reta, que logo se embaraçavam, formando cauda, correndo atrás. No aproximado da passagem dela, fileiras de luzes coloridas piscando do lado, em baixo, em ritmo de cadência, no correr de todo o seu tamanho. No aproximado bem próximo, a claridade da mistura das luzes se batendo sobre nós, o chiiiiiiiiiii... sem pausa, continuado. Na cauda não havia piscar de luzes. Havia misturado de cores alinhadas, e que depois se enleavam. Eram muitas cores luminosas. Ficamos vendo o seu ir escorregando suave para o Norte. E a coisa foi, foi... até o desaparecimento do alcance de nosso enxergar. E não sabíamos o que a coisa era, mas não houve medo. Contemplávamos serenando, no sereno, calados. No quebra do silêncio, uma voz: “É sinal do fim dos tempos”. Depois soubemos: outros viram o mesmo ver, e todos ficaram no mesmo sem saber.
Aparição na Caatinga de Curaçá – BA, em meados da década de 1960 |
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Funeral
Esmeraldo Lopes
O único sujeito que não faz cara de sem graça em um velório é o morto. A face dele é sempre plácida, porque ultrapassou o mistério da vida e da morte, mas não sabe disso. Mergulhado na profundidade do espaço vazio e eterno da inexistência, ele é pura paz. E a placidez do rosto do morto faz contraste com a angústia e a cara sem graça dos presentes ali. Entre os presentes, os que sofrem, os que imitam sentir, os apenas por consideração. Mas não importa a diferença. O que importa é que o morto deverá estar lá, palpável, exibindo seu rosto de paz, para a certificação da morte. E na certificação da morte deita toda dor, todo disfarce e a impotência conformada. Conformada no selo do sepulto. “Ainda deu para eu pegar nele assim... antes de fecharem o caixão”. Fim. Saudade. A borracha do tempo.
Ausência de certificação da morte: o desaparecido. A espera desesperada, sem fim. As horas, os dias, os anos. Esperança que se enche, esperança que se esvazia. A procura, o olhar de busca, a imensidão do mundo, o que pode ter sido, o que não poderá ter sido. A dúvida naufragada na dúvida, sem trégua, sem terreno para pouso de conformação.
Todos os dias, uma mãe no mesmo proceder. Tomar banho às três horas. Às quatro, dirigir-se à esquina de passagem concorrida de transeuntes. Os transeuntes passando no ir de uns e vir de outros. Ela lá, plantada no recoste de um poste, olhos atentos, esticados ao longe, ao perto, à direita, à esquerda, e, de repente, o espaço vazio do sem gente na rua. Um vulto solitário em movimento. Ela espera. Ele se aproxima. Uma voz abandonada salta de dentro dela sem motivo de razão: “Não, não é ele. Ele não voltará mais...” Leva as mãos à cabeça de cabelos desbotados, circula os olhos por todo o espaço e volta para casa, sem força, sem esperança, e fala alto para si: “Um dia ele vai voltar”. |
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ESTRANGULAÇÃO
Esmeraldo Lopes
Escrevo durante o dia. Se dou essa informação é para que se distancie a idéia de que estou embalado pelos tormentos e fantasmas da noite. Todo mundo sabe que as imagens noturnas deixam a gente mais sensível, e os monstros da memória ganham terreno. Ganham terreno no agasalho do latido longínquo de um cachorro, no vento redobrando nas folhas, na sonoridade rouca do assoprar de um ventilador, no abrigo do som do silêncio total. Na noite, os sentidos desprezam as formas, penetram os íntimos, mergulham com lucidez no profundo dos esconderijos e atingem as essências. Fiquem, portanto, sabendo que escrevo durante o dia, o horário mais pobre para o correr da imaginação, pois nesse horário o espírito se encontra envolvido pelos chamamentos imediatos, oprimido pela chibata das regras de tolerância, atarantado por invariáveis estímulos que cobram atenção. Durante o dia, a luz espanta as visagens para longe, encandeia a visão e dá resistência às formas. Formas que se harmonizam e encontram proporção em arrumados de disfarces. Mas vem que vem a noite, e as imagens do dia são filtradas. Os fantasmas se apóiam no encosto da memória, fazem revelações. E a nitidez translúcida. A disputa entre razão e vontade, a aliança entre vontade e desejo. “O desejo é triste”, a vontade é bruta, a razão é navalha. E volta o dia. Ao oprimido, a decisão: liberdade ou atrofia da alma, do corpo, da vida.
A vontade não pode ser suprimida por decreto, mas pode ser estrangulada por ação. Quando não se dispõe de tempo suficiente para esperar que uma folha caia naturalmente, urge que ela seja arrancada a golpe de instrumento qualquer, ou mesmo da mão. Assim ela seca e se perde espatifada nos bagaços do mundo. Seus vestígios também acabam por se decompor, pelo pisado dos bichos na terra seca, ou na podridão das lagoas, dos brejos, dos pântanos, no intestino dos insetos. É a natureza. |
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A vingança
Esmeraldo Lopes
Amores profundos sempre terminam em tragédia; amores superficiais em desastre. Que cada um encontre a medida de avaliação da intensidade de um amor. Em verdade, amor profundo só tem vigência de nascimento no tremor de grandes desgraças. Aliás, não é só o amor, tudo o que é sólido, só é sólido porque teve a capacidade de se fazer na desgraça. Não é nela que surgem os grandes amores, nascem e morrem os heróis? Fora das situações penosas, a imitação, o disfarce. E todo mundo procura ser o que idealiza, sem a necessidade de se pôr à prova.
Margarita... Margarita sentava-se à minha mesa à espera do noivo. O seu comportamento era a verdadeira coroação de santificação da virtude feminina. Diante dela, a impressão que eu tinha, é que todos nos transformávamos em paisagem morta, como as cadeiras, a mesa e as garrafas. E assim, até que chegava a chave do seu sonho de amor: o noivo. Ele fazia aquele aceno de benção para todos, e se devotava em atenção plena e exclusiva a ela. Éramos pura paisagem. Quando eles se davam a licença de alguma atenção aos circunstantes, era com tanta solenidade nas palavras e gestos, que ficávamos com um certo ar de sem-graça. Muito antes de anunciarem a data do casamento, ficava clara a sua preparação. Escapava aos nossos ouvidos nomes de padres, referência a igrejas, preparativo da festa... A gente ia juntando as coisas e fazendo a conclusão no sair deles. Entretanto, algo chamou à minha atenção, acho que só à minha: Margarita passara a conduzir junto com os cadernos, livros de iniciação à relação conjugal. Não sei se Felipe fazia atenção naquele tipo de preparação, mas observava-se que a cada dia ele se apresentava em enquadramento maior. A todo convite da gente ele vinha com um “Não posso”, “Minha noiva marcou”... Vou encurtar a história. O casamento aconteceu logo após a formatura de Margarita. Festa supimpa, em uma chácara, com padre e juiz na certificação do ato, e o prefeito como padrinho.... Nós, os do bar, lá no afastado da elegância dos demais convidados. Recebemos a graça da presença deles por uns dois minutos. Não sei se foi presença ou despedida, que depois dali só ausência.
Outro dia eu estava no bar onde Margarita costumava esperar Felipe. Das pessoas do tempo da presença deles, só eu, que a turma de encontro se desfez. Senti um puxado no pescoço acompanhado pela expressão de uma voz feminina: “Olá, meu brother”. Levantei a cabeça desconhecendo a imagem de cabelo vermelho-paixão, trajando calça santropê e expondo um decote sensualizante. Levantei-me desentendido. Margarita com um par de dedos esticados nos braços levantados para meu abraço: “Tô no reggae, meu brother”. Perguntei por Felipe. “Aquele filho de uma puta me traiu. Agora sou livre! Ele tá pagando, apaixonado. Tô nem aí”. Eu nunca tinha visto uma situação assim: virar periguete para se vingar do marido, ou do ex. Depois pensei: de qualquer modo há uma coerência nisso: a continuidade da representação.
Emendo aqui a história de Margarita com a de um sujeito que veio em minha direção dizendo: “Não me conhece mais? Eu fui o esposo de... Ela virou sapatão”. Pensei: “Será que ele virou veado para se vingar de...” Mas, logo em seguida o festejo: “Pra mim foi melhor. Ela tinha 35 e eu casei com outra de 19”. |
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Glória triste
Esmeraldo Lopes
Não se trata de história de alguma mulher de nome Glória que se entristeceu. Quero me referir ao um povo que escolheu se fazer na vanglória de vaidade apodrecida. É verdade que a história agiu fazendo-o, mas, quem faz a história? Parta-se do princípio que a vida é feita de escolhas e de suas conseqüências, que se não se age sobre as conseqüências é porque elas expressam o efeito desejado.
O escrito acima é preâmbulo, que o assunto aqui é Bahia. Bahia, não, baiano. Faça-se a distinção: Bahia é um estado, baiano é postura, estado de espírito. Estado de espírito plantado e cultivado em Salvador - Bahia.
Lá nos longe da história, Gregório de Mattos berrava no vazio, o clima de bestialidade do corpo e da alma da gente vivente em Salvador:
“A nossa Sé da Bahia, com ser um mapa de festas, é um presépio de bestas, se não for estrebaria:” (...)
Duzentos anos depois, Luiz dos Santos Vilhena grita nas letras, proclamando a desgraça do assentamento Salvador: fétido, promíscuo, degenerado. Gregório imortalizou-se, envolto na irreverência da alcunha “Boca do Inferno”; Vilhena mofou na escuridão das estantes esquecidas. Nas algazarras das ruas, nos fungados das alcovas, nas esculhambações nos palácios, continuava desfilando a Bahia. Salvador era toda a Bahia. E nesse desfilar, um político, em uma mistura de ira, frustração e gozação, soltou: “Imagine um absurdo... E na Bahia já aconteceu!”. Aconteceu na Bahia da Bahia.
No ir de jeito assim, as coisas nascendo e se afogando no suceder do dia-a-dia. Foi que veio o brado da exaltação da degeneração Bahia. A preguiça, o rebolado das baianas, o gingado dos malandros, descuido, relaxidão e pobreza subindo ao trono nos escritos de Jorge Amado, nos cantos de Caymmi... O mundo entrou a se bestificar na adoração do paraíso da escrotidão. Bahia cartão postal, a população exagerando para se enquadrar nas louvações anunciadas. Novos anunciadores: Caetano, Gil... O desbunde, a turma do arraso fazendo glória, se ampliando. Hotéis, restaurantes... E a Bahia virou arapuca pega-turista. Baiano produto: gentil, subserviente, desafeito a trabalho, “anfitrião”... um ser despersonificado para corresponder à imagem do tipo anunciado. E, de repente, tudo se consagrou no requebrado mirabolante de bundas embaladas nos batuques de timbaus. Timbaus no chão, timbaus nos trio-elétricos. E as músicas... na medida certa para bandas chama-merda. Lavagem, lavagem... Lavagem e merda.
Baiano, “povo que sabe viver”. “Povo feliz”, “irreverente, que mostra a rebeldia mijando e defecando no chão das ruas”; não paga, não cumpre, festeja. Bahia: liberdade, paz, alegria e felicidade. No esquecimento disso, um professor da Bahia, questionado pelo insucesso dos alunos do curso que coordenava, revelou uma constatação: “Baiano só toca berimbau porque o instrumento só tem uma corda”. Os inteleca mamãe áfrica se enfezaram, aturdidos pela queda da máscara. Não resta dúvida, foi um dizer de certeza de ciência, pena que falhou na argumentação. Evocou neurônios como causa. Não, caro professor. O problema não é de neurônio, é de subnutrição cultural, causada pela abundância de ingredientes da baianidade.
“Ó Paí, ó”, homenagem a uma glória triste.
Baiano, eu? Não! Sou da Bahia. |
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ALUNOS
Esmeraldo Lopes
Uma árvore de beira de rio fica no seu lugar, assistindo a corrente das águas, o batuque dos peixes, o descer das moitas, dos galhos soltos, das folhas, o movimento dos barcos. Ora a água se abarrenta, ora fica translúcida. Os peixes, as piabas se entrecruzando, as pedras comandando os remansos. O tempo vai e vai, e ela lá, vendo o rio se aproximar quebrando o barranco, provocando o afloramento de suas raízes. Mas o rio é o mesmo, com os mesmos batuques de peixes, com as mesmas aves voando e moitas descendo.
Na escola, eu ali, os alunos chegando, os alunos saindo. As mesmas vozes, os mesmos gritos, os mesmos passos, gestos e inquietações, os mesmos aborrecimentos, aquele monte de corpos adolescentes carregados de energia. Os alunos como as águas do rio: a permanência do que passa. A multiplicidade de seus rostos formando uma cara eterna: a cara de alunos. Os nomes? Minha memória não os guarda. Sempre conheci meus alunos pela cara. Um ou outro é mais saído, tem nome, que logo a ferrugem do tempo corrói, e ele volta ao anonimato, diluído na composição da face geral.
Os alunos sempre passantes em multidão, ano a ano, pelo mesmo lugar. Eu ficando, ficando. Acabei me assumindo como se assumiria uma árvore de beira de rio. Mas de um rio tormentoso, devastador das árvores das margens, em degeneração. |
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