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Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 1/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 2/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 3/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 4/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 5/6

Sobre Caatinga e Caatingueiros Parte 6/6
IMAGENS E PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA.Esmeraldo Lopes
ENTREVISTA SOBRE PROBLEMÁTICAS DA CAATINGA E DOS CAATINGUEIROS


José Hugo




Entrevista com o agrônomo José Hugo Félix Borges.
Por motivo de incompatibilidade de espaço, a entrevista foi colocada na página abaixo.


http://www.esmeraldolopes.com/?pagina=opiniao&opiniao=37

Bode comendo rama de juazeiro

Juazeiro no mês de novembro - F.: ELopes

JUAZEIRO

Juazeiro na seca - F.: Marcelino Ribeiro


Esmeraldo Lopes

No verde, pelo avistada de distante, o verde dos juazeiros no indistinto do tapete verde da Caatinga. Pelo avistado de perto, o distinto da árvore de copa fechada, frondosa, de galhas espinhentas. No fechado da copa, na proteção dos espinhos, os passarinhos se agasalhando em seus ninhos, se agasalhando para pouso de dormida segura. Dormida embalada pelo xuaaaaá-xuaaaaaá do vento tangendo as galhas, sacudindo as folhas. As folhas no agarrado de umas com as outras, escurecendo o escuro da noite, escurecendo o claro do dia, dificultando exergado de olho de gente, de olho de bicho, o bote de cobras, o ataque de gaviões. Ainda no verde, durante o escorregar dos meses de fevereiro, março, abril, o verde da copa se pintando com pontos amarelos. Pontos amarelos: juás maduros, em tempo de queda. E, no cair dos juás, o sombreado dos juazeiros se fazendo ambiente para festival dos bichos de criação, dos bichos do mato: cabras, ovelhas, vacas, veados, seriemas, raposas, emas, jacus... Os bichos ali, no dia, na noite, fazendo pisado, se amalhando para dormida, na espera do tummm da caída do juá. E, quando o tummm, a correria doida dos bichos disputando o bocado.
Juazeiros, vida e morte dos bichos com andados no chão. Vida pelo dito, morte pelo a dizer. Os juazeiros esticando raízes fundo nas fundezas do chão, procurando sustento de água. Mas no que o muito poder afundar as raízes para pega de água longe, marcando presença com mais abundância, em mais vigor nas baixadas, nas várzeas deitadas no seguir do caminho dos riachos. Aí a morte. A morte que os bichos amoitados na espera do juá, e lá que a ocorrência de chuva pesada. As águas do riacho subindo, subindo, varzeando, alcançando os pés de juazeiro. No chegado das águas, os bichos levantando, e as águas subindo; os bichos parados, as águas subindo; a correnteza batendo, os bichos sendo arrastados, levados, descambando batendo nos paus, se enganchando, berrando socorro, e o silêncio da morte mergulhado no barulho furioso das águas. Aos caatingueiros, a tristeza das perdas, a esperança de encontrar os chocalhos. “É assim mesmo”.
Junho. O verde dos juazeiros amarelecendo. E, lá de novo, a romaria dos bichos na procura deles. Na procura deles que a Caatinga entrando em pobreza de pasto, e as folhas do juazeiro em queda, se oferecendo para bocado. Agora, só os bichos de criação fazendo visita, enchendo de pisado o arrodeado marcado pelo alcance das galhas. As folhas cindo, os juazeiro apontando seus espinhos, se mostrando na aparência pelada de quase todos os paus da Caatinga.
Novembro. Os juazeiros se revestindo pelo revigorar em verde de folhas miúdas, em crescimento, formando rama nova Logo, logo, o despontar das flores. E as flores soltando cheiro, chamando abelhas, chamando enxus. O amontoado de abelhas, de enxus, na copa dos juazeiros fazendo zummmmm. Por baixo, as cabras, as ovelhas brigando pelas flores caídas.
Novembro, dezembro. A caatinga acinzentada. No seu avistar de longe, o ver de pontos verdes, alguns espalhados sem alinho, outros em trajeto alinhados. Pontos verdes: copa de juazeiros, copa de baraúnas. Mas a seca. Os bichos de criação com fome, os caatingueiros em aperreio. Os caatingueiros saltando no machado, saltando no facão, se encaminhando na direção dos juazeiros, tocando o rebanho. E a trepação no pau, vencendo os espinhos. A batida do facão, a batida do machado estalando seca. As falhas descendo, caindo em rebolo por cima das ovelhas, por cima das cabras. E elas avançando na procura de folha verde, se atropelando, se espinhando. Agora, o juazeiro em tocos de galha.
De novembro a junho os juazeiros com copas fechadas, com as galhas na altura do pegar da boca dos bichos sem folhas. As copas amparando repouso para passarinho, sombreando o chão. Sombra de juazeiro, ponto de descanso dos bichos e da gente. E, no refrescado da sombra, o ouvido do barulho do vento nas galhas: xuaaaaá. Cochilo: as formigas incomodando, os pássaros cantando, a batida dos chocalhos, o aparecimento dos mortos em imagem, em palavras.
Juazeiro, encosto de alma. O juazeiro do mato longe, lá. O juazeiro de beira de estrada, arrepio. No correr do dia, as almas escondidas, encantadas no fechado das galhas. No correr da noite, aí... O caminho atravessando por debaixo do juazeiro. Noite escura: a montaria acendendo as orelhas, assoprando as ventas, refugando seguir, avisando sinal de visagem: frio viajando no corpo. Noite de lua: a claridade leve se espalhando, oferecendo alcance para algum avistar; no pouco avistar, o despontar forte do escuro da sombra do juazeiro da estrada, e um vulto branco, e mexido dentro dela. Travar as esperas na montaria e a deixar como governo de direção.
Juazeiro de estrada, assombro, morada de assombração.
Juazeiro, qualquer que seja, planta para feitio de remédio. Remédio para gripe, para sinusite, para estômago, para limpeza de dente.


Juazeiro com rama nova - F.:ELopes


Detalhe rama nova de juazeiro - F.: ELopes


Juazeiro no engrossar da rama - F.: ELopes



Juazeiro acanhado em tamanho, mas bastante visitado - F.: ELopes



Juazeiro no mês de janeiro - F.: Esmeraldo Lopes

Liberdade sem pátria

JUMENTOS

Jumentos arrodeando cerca - F.: ELopes


No rasgado das estradas, na invasão das caminhonetes, das motos, Caatinga adentro, a felicidade dos jumentos, que eles urrando na liberdade do abandono de seus donos, sem medo de cabresto, providenciando, por conta própria, o suprimento de vida no destroçamento das coroas-de-frade, dos xiquexiques..., na roeção de imburana, de faveleira, de pau-de-acauã, de caatigueira..., matando a sede pelos cavucados dos riachos com os cascos, nos locais de água rasa . E, nesse viver, problema, quem sem sentido de uso pelos caatingueiros, que se reproduzindo à solta, estão se firmando como grande devastador da Caatinga.
O que fazer dos jumentos? Nisso, a confusão. Confusão que não se pode deixar vivente na míngua da necessidade de tratamento de bicheira, na necessidade de sede; que mesmo deixados aos cuidados de si mesmos, muitos jumentos procuram matar a sede nas fontes das fazendas de seus donos; que os caatingueiros firmados no dito cujo do termo, se botando na defesa deles, oferecendo-lhes amparo, alegando a importância deles no passado, a condição de viventes, o caráter sagrado do animal que transportou o Menino Jesus. Mas, eis que alguns caatingueiros se descaatingueirando, cercando suas terras; mas, eis que outras gentes se adonando, se readonando, de terras na Caatinga, fazendo cercados, se pondo na tentação de fazenda moderna. Os jumentos ficando do lado de fora das cercas, sem jeito de continuar pisando nos pastos de sua criação. E, no cercamento das terras, o se apertar nos campos abertos, o se aboletar na beira das estradas. Nas estradas: acidentes, a ação da Polícia Rodoviária no trabalho de eliminação do incômodo.


ARMAS DE DEFESA DE VAQUEIROS NO TRAQUEJO DO GADO


Buzo. Não é arma, é instrumento de sinalização auditiva, para auxílio de localização - F.: ELopes


Esmeraldo Lopes
Os vaqueiros foram e continuam sendo cantados por sua valentia. De minha parte, penso que o ser valente é o ser acossado. E os vaqueiros sempre carregam um dito: “Fazer o que a gente fazia era obrigação”. Obrigação nascida no longe do tempo, no tempo dos fazendeiros tradicionais, que imprimiam a ordem e exigiam o seu cumprimento a ferro e fogo. Cumprimento de ordem nos perigos de caatinga fechada, nos perigos de caatinga aberta, nos perigos do confronto contra um touro, bicho bruto sem medida de juízo. E, para cumprimento de ordem assim, os vaqueiros se fizeram força no aperreio da lida, criando invento de matéria e invento de imaginação para vencer o medo. Invento de imaginação: “vaqueiro tem que ser macho, que no traquejo do gado na caatinga não há lugar pra cabra frouxo”. A preferência pela lembrança de morte estrepada nos gravetos da caatinga, nos chifres de uma rês, às zombarias pelo acontecido de um homem vencido. Invento de matéria: perneira, gibão, guarda-peito, buzo, chapéu-de-couro, faca-de-perneira, facão, guiada.... Arrogância do fazendeiro, touro, caatinga, enfrentamento do medo. Aí, a carne e o tempero do fazimento do vaqueiro. Vaqueiro, meio homem, meio bicho, se afirmando na luta contra o gado brabo. E nesta luta, vencer ou morrer. O perigo da morte por estrepadas nos paus, pelo risco de quebrar o pescoço por queda em algum terreno limpo; o perigo da morte pelas espetadas de chifres. Sim, espetadas de chifres, que quando a rês cansa, vira. Vira, e parte para cima do cavalo, levando-o à morte pelas furadas das remitidas sem trégua. Salvar o cavalo, segunda obrigação do vaqueiro. Então, puxar a faca da perneira, desviar o corpo do cavalo, e oferecer à rês furiosa o encontro com a ponta do ferro cortante. O sangue da rês está quente e ela desaluada, mas nesse encontro, o gemido: Hummhooooo. Ela não desiste, funga, cavuca o chão, se preparando para outra investida. Mas aí, em rapidez de relâmpago, o vaqueiro já desceu pelo pescoço da montaria. Toma a frente da rês furiosa, salta sobre ela e a leva ao chão. Mas vai que a rês se amua. Aí, desamuá-la. Mas ela está na brabeza de briga bruta. O segundo vaqueiro já chegou com a guiada. Tira-lhe um gomo da bainha e escora a rês, com prevenição de distância. A rês geme, e, mesmo na situação, ameaça retorno para enfrentamento. O vaqueiro tira mais uns gomos e a escora com o espeto ferrenho, bem no pescoço. Não dá mais. A rês esmorece, entrega-se às cordas. No entanto, nem sempre esmorecimento, que há reses que morreram na briga. Às vezes mataram. Verbo no passado, que houve mudança: “Vaqueiro agora é só invenção de brincadeira de vaquejada”, a caatinga raleou e o gado, quase sem existência, é tratado na mão.
Armas de defesa: faca-de-perneira, facão, guiada.

Faca-de-perneira. Tem esse nome porque é portada dentro da perneira - F.: ELopes


Facão de campo. Às vezes é utilizado no confronto com uma rês, mas é portado para o fabrico do cambão a ser posto na rês - F.:


Guida. Éutilizada para desamuar ou para escorar rês valente no curral - F.: ELopes


Ferrão da guiada. O ferrão vai sendo desembainhado na medida da resistência da rês - F.: ELopes

CAATINGAS DE CARIÉ

No sentido horário, Manoel de Ernesto, José Pereira e José Ailton - F.: ELopes


Francisco Pereira - F.:ELopes


Na direção de todos os lados de Carié, as terras são cercadas e desmatadas, existindo raros trechos onde aparece alguma mancha perdida do que um dia foi caatinga. Vêem-se alguns pés de imburana, imbuzeiros, angicos, mas como se fossem para amostra, perdidos no meio da terra nua. E, na nudez da terra, avista-se, de quase todos os pontos de onde se esteja, casas dispersas, circundadas por cercas. Aqui e ali, a vegetação caatingueira, em miudeza de porte, tenta se reaver dentro de um cercado abandonado, mas em escassez de variedade, em alguns se sobressaindo a caatingueira, em outros a jurema, às vezes o misto das duas espécies. Reinando por todos os cantos, os pés de algaroba, que pontilham pelo verde de suas copas nos terrenos altos e se adensam na habitação dos terrenos de baixio. A Caatinga, agora, nome mais apropriado: Algarobeira. E aí, ema, veado,tatu, peba... não. No espaçado do tempo e da distância, um canto perdido de seriema.
A estrutura dos sítios consegue ser mais pobre que a estrutura dos sítios ou fazendas existentes na região do Submédio e consiste numa casa, uma cisterna, num silo (existe em vários), numa armação precária para o aprisionamento das poucas vacas. O que existe e que não existe nos sítios e fazendas do Submédio São Francisco são os silos e o gado de leite (algumas vacas de propriedade de cada sitiante). No mais, o contraste pelo descampado provocado pelo desmatamento, pelos becos entre as cercas, pela dominância das algarobas, pelo minguado de ovelhas, pela ausência de cabras, pelo silêncio de toque de chocalhos.
Vaqueiro, ou é um nome do passado ou é interpretado como sendo aqueles sujeitos que correm nas vaquejadas. Nas casas dos sítios não se vê resquícios das antigas fazendas: couros de vaqueiro, arreios, curral que lembre o estilo das fazendas. Cavalo existe, mas apenas para puxar carroça e arado. O que pode ser afirmado, sem dúvida, é que, da Caatinga, restou o espaço, o nome, e, para as gerações mais velhas, a recordação, mesmo assim fraca que as pessoas de 40 anos não lembram mais os nomes dos sinais que eram postos na criação, lembrando-se apenas que havia formas de marcar a propriedade dos donos nas orelhas dela.
A auto-estima dos moradores, não vi. Aliás, declaram-se seres ao lento do tempo, sem vislumbre de futuro, mas continuam dizendo que moram nas caatingas. E ocupam o tempo laborando com cinco, seis, oito vaquinhas, para produção de leite, que vendem para a indústria de laticínio a R$ 0,55, o litro. São micro-empresários, estão incluídos no agronegócio.

- (Manoel) Caatinga... É a vegetação

- (José Pereira da Silva) Caatinga... É uma coisa da natureza. Ela lá do jeito da natureza. Hoje, aqui, não é mais Caatinga.

- (José Ailton) ...A paisagem que tinha, acabaram com tudo. Não é mais Caatinga porque mudou o jeito das coisas, mas antigamente era Caatinga, só tinha mata aí. Caatinga tem que ter a mata de Caatinga. Agora é algaroba. Em vez de Caatinga, agora devia ser Algarobeira

CARIÉ, POVOADO DO MUNICÍPIO DE CANAPI - AL

CAPAÇÃO DE BODES

Tempo bom para a capação de bode, de carneiro: mês de maio. Nesse tempo os bodes, as cabras saem da influência do bodejo, não há mais imbu, as moscas diminuíram. No tempo do imbu não pode capar, que ele é reimoso, facilita infecção, faz o saco dos capados crescer, estourar. Se for no tempo do bodejo, o bicho não perde as influências, larga o incutimento da vontade e vem inflamação. Assim também com os carneiros. Mas, quanto aparece no chiqueiro, um colhudo com classificação ruim bodejando, vindo de outro chiqueiro, o vaqueiro salta nele e faz a capação. Capação complicada para a saúde do bode .
Capação de bode com cacete. Uma armação de pau com um correia presa nas extremidades, envolver o colhão do bode, do carneiro, do touro, de modo que ele fique bem repuxado entre a correia e o pau, e com um macete, bater com força.. Duas, três, quatro macetadas até sentir que o macete de bater se encontrou com o macete de aparar as batidas, que nisso a certeza de que as veias foram cortadas. O berro do bode rompe escandaloso marcando cada batida, entre os estrebuchados que a liberdade de algumas das partes do corpo, sem agarramento de mão ou de pé, permite mas só bode berra, que touro e carneiro se expressam pelos fungados e pelos estribuchos. Solto, sai caminhando com as pernas abertas, em jeito envergado, respirando as dores do mundo. Capação com faca: o mesmo processo utilizado para capar touro. Cortar as pontas dos sacos, puxar o favo e passar a faca nas veias: berro!, berro!, berro! Capação por volta: agarrar o saco com força, pegar o favo e ir torcendo, torcendo, até sentir que a veia se apartou dele. Depois, virar um lado do favo em posição contrária à que está e enfiá-la para dentro do bode: berro!, berro!, assopro!, endoidecimento do corpo. Carneiro agüenta tudo no calado, só funga e se mexe. Perigos da capação: o saco arruinar: aparecimento de inchaço, estouro, bicheira.
Assim é. Não é que seja assim por malvadeza dos caatingueiros. Eles avaliam a dor do mundo no bicho pelo estrebucho do bicho na hora da capação: “Lá nele é uma dor terrível”. E por que o fazem? “Porque é obrigação. Tem que capar, senão os bichos vão nascer atrapalhados, com os coisas ruins tirando filho em criação boa, e os machos não vão engordar. É o jeito fazer essa judiação”.
Tecnologia... que tecnologia? “Os técnicos trazem aí um tal bordizo, um anelzinho de borracha, mas quem deles usou fez foi piora, que os sacos dos bichos capados inflamaram, e veio a inflamação, que com a inflamação veio a bicheira e morreram quase tudo, que tudo criado na liberdade das andanças na Caatinga, longe do adjutório de alguma ajuda. Além do mais, com o anelzinho de borracha, os bichos devem sofrer demais, e o bordizo, quando não provoca inflamação e mata, deixa os machos roncolhos. Capação com o pau de capar bode é mais segura e os bichos quase não morrem”.
Na impropriedade da tecnologia dos técnicos, da ciência da civilização, se agarrar com os recursos da experiência carregada pelo vento da tradição e aí...

Pau de capar bode no abrigo do chiqueiro - F.: ELopes


Pau de capar bode na cerca do chiqueiro - F.:ELopes


Pau de capar bode - F.: ELopes


Preparação para capação de bode - F.: ELopes


Preparação para capação de bode - F.: ELopes


Capando bode - F.: ELopes


Capando bode - F.: ELopes


Capando bode - detalhe: olho - F.: ELopes


Capando bode - F.: ELopes


Capando carneiro - F.: ELopes


Bode capado - caminhando contorcido - F.: ELopes

Estilo de vida

Palestrando - F.: ELopes


Esmeraldo Lopes
Lá longe, os caatingueiros começaram a se fazer. E foram se fazendo sem plano de ser, nos aperreios do salvamento da vida. O homem, a Caatinga, os bichos. Os fazendeiros tratando a gente como bichos; a gente aprendendo com a Caatinga, com os bichos; se sujeitando, se tratando com aparência do mesmo trato do trato com os bichos. E nesse aprende, e nesse trato, a gente se fez caatingueira, no estabelecimento de um modo de ser.
...
O mundo em seu arrumado, desde os tempos do princípio; o tempo ditando o jeito das coisas serem, em conformidade com os requeridos do mundo; os dias se sucedendo dentro do tempo, na variação dos acontecimentos. Aos homens: se agasalhar no arrumado das coisas, no ajeitado do tempo; correr dentro dos dias, tomando as providências para acudir as necessidades. “A vida na Caatinga é assim”. E tudo é conforme o costume, e tudo conforme o tempo, e tudo conforme o que tem quer ser, que de outro jeito é desmantelo. “Cada véia com seus fusos, cada terra com seus usos”, ponto.

À espera do criatório, na porteira da cacimba - F.: ELopes


Cena caatingueira - F.:ELopes

Detalhes do verde

Esmeraldo Lopes
“Toda alegria é festa”. Na Caatinga, o verde é alegria. E na alegria das chuvas, a Caatinga se põe em pronto para a festa geral. Os papagaios se aquietam pelo encontro de comida em qualquer lugar de perto e põem-se no tumultuado de seu barulhar infinito. Oferecem-se às vistas do passante, pousados sem aperreio no alto das galhas dos paus. E, de pouco em pouco do tempo, não se sabe sob que ordenação, levantam em vôo, uns daqui, outros dali, e se amagoteam em piruetas bem aprumadas no céu. Depois, se dispersam e retomam as galhas de seus paus. Os papagaios na festa da Caatinga.

Papagaios na alegria - F:ELopes


Os cancãos, em magotes silenciosos, voam de pau em pau, vistoriando as moitas, os entrecortados de galhas, com atenção dobrada, na busca de encontro de cobras, a quem tomaram como inimigos mortais. E no encontro de uma cobra, o inferno. Põem-se a chamar os outros, e mais outros e aquela latomia desesperadora. Eles arrodeando a cobra pelos lados, por cima, e ela dando seus botes no ar. Mas eles, no muito que se juntam, não cansam de seu agoniar. A cobra, bote por cima de bote, vai nesse seguir até se cansar de tanto aperreio e entra em se torcer até morrer. Os cancãos na festa da Caatinga.

Cancãos entre galhas - F.: ELopes

ANGICO

Angicos em um serrote - F.:ELopes


Esmeraldo Lopes
Angico é árvore nobre na Caatinga. Apresenta-se nos variados de altura, grossura e em todos os tipos de chão caatingueiro. Abunda nos baixios de inundação dos riachos, nas serras e nos serrotes, mas não nega presença nem nos altos, nem nas chapadas. Se usada em todas as serventias, dela não sobra nada, que se aproveita folha, flor, semente, casca e madeira. Essa sua glória e desgraça.
Espraiados Caatinga adentro, os pés de angico davam sustentação segura ao criatório no duro dos tempos duros, que além da folha, vem a flor. A folha: bonança e perigo, que se caída, depois de algum tempo não pode ser comida. Bicho que come folha de angico, quando ela está murcha, encontra a morte, sem possibilidade de atalho. Mês de outubro, novembro. O criatório sem assunto de achar comida no mato, que todo pau já se desnudou. Aí os angicos se despejam em flores. Cabras, cabritos, ovelhas, borregos fazendo trilha no caminho dos lugares onde eles estão. E no comer das flores despejadas pelos pés de angico, a criação afina o cabelo, entra em prumo seguro. O tumulto do bodejo dos bodes, o rumar dos carneiros atrás das ovelhas anunciam a animação das fêmeas em cio. Esse de comer dá sustança ao criatório até o aguardo das primeiras águas. Se o floreio é bom, as crias brotam seguras, no seguro do verde, se fazendo na saúde de comida farta. Mas vem que na sua nobreza, os pés de angico carregam também sua desgraça. Madeira boa para cerca, e aí, machado, machado, machado. Casca curativa de doenças várias. Esse uso não dá abalo. Abalo vem do uso das cascas pelos curtumes. Os curtumes querendo cascas. Desse querer vem os casqueiros e os casqueiros assaltam a Caatinga, em turba, sem limite de respeito aos donos das terras, e se põem na obra da grande destruição. Casca, madeira. Está aí a origem do dizer “davam sustentação”, que, agora, a criação mirra sem alegria de cio em tempo de seca, e vem pegar cio no verde, para parir na abertura da seca.

Folhas e vagem de angico - F.:ELopes


Angico novo - F.:ELopes


Angico velho, de onde por várias vezes tiraram rama - F.: ELopes

CAATINGA E ABERRAÇÃO GOVERNAMENTAL

Esmeraldo Lopes
Em matéria de Caatinga, os governos têm demonstrado estupidez ao quadrado elevada ao cubo. Todas as vezes que estabelecem alguma linha de ação sobre ela, o desastre se anuncia nos primeiros passos. Erram até quando acertam, pois o acertar produz mais estragos que benefícios. Assim sempre foi, mas agora piorou. É que o governo se contaminou com a insanidade do MST. Sem tino de avaliação, achou a solução para terras “improdutivas”: assentamento.
Não existe terra improdutiva na Caatinga, onde o sistema de criação se faz em campo aberto. O proprietário de uma fazenda abandonada não utiliza suas terras, mas a criação da vizinhança faz proveito dos recursos dela. Digo mais: grande parte dos caatingueiros só consegue se manter no lugar onde vive por causa das terras abandonadas. Que o governo desaproprie essas terras e as deixe para o uso de quem já está na Caatinga, é medida de razão, necessária. Mas o analfabetismo do Analfabeto sem Dedo, o oportunismo de alguns inteleca entronados nas universidades, o interesse das ONGs (Organização Nacional dos Gigolôs de Pobre) e a insanidade fanática do MST não fazem olho para o evidente. Proclamam em uma só voz: “ASSENTAMENTO”. O MST invade, os inteleca oportunistas inventam o fundamento, os gigolôs de pobre arranjam meio de vida, o governo estimula, assenta, discursa. O resultado é o que se vê: a transferências das favelas das cidades para a Caatinga; a desestruturação do ambiente de vida dos caatingueiros. E mais: para os “assentados”, escola, financiamento, casa, ajuda de custo, vida improdutiva com movimento contínuo em busca de cesta básica; para os caatingueiros, a destruição. Nessa marcha, atingiu-se o máximo da irresponsabilidade. O governo desapropriou as terras de uma fazenda, arregimentou gente para assentar, construiu as casas, está se balançando para construir o prédio escolar. Uma ONG atestou a viabilidade do projeto, mas os “assentados” arredaram por não identificar meio para meio de vida. O saldo são quatro casas ocupadas em quarenta construídas, um arruado fantasma perdido no meio da Caatinga. É o que se vê na foto e na fé do escrito.
Vila Canaã - Assentamento Banguê (iniciativa do Incra) - Curaçá - BA. F.: José Cleiton Rodrigues

Carro-pipa e Caatinga

Esmeraldo Lopes

Ao se pensar em situar uma terra, primeiro passo: feitura de cacimba. Cacimba: garantia de vida nas dificuldades da seca. E as cacimbas seguraram a vida no esticar dos anos que se vinham rebolando desde “o começo do mundo”. Às vezes os veios de água secavam, e entrava a labuta dura de quebra de pedra na procura de outros. Quando os veios não eram encontrados, os bichos se anunciavam em desgraça, pelos berrrados desesperados que se iam enfraquecendo, enfraquecendo. E, na impotência de não poder providenciar, os caatingueiros calavam, acompanhando aquele velório de vidas que se afundavam no murchar dos olhos, na secura das bocas. Secura dos olhos e das bocas dos bichos. No avançar da coisa, os caatingueiros também entravam no mesmo estalo de dor.
Caminhões já chacoalhavam pelas estradas mal-amanhadas que furavam na direção do fundo da Caatinga. Houve o entrar na idéia de governo botar pipa em cima de caminhão, para acudição de agrura por falta d’água. Carro-pipa. Aí foi aquele assim: os bichos correndo atrás dos caatingueiros, clamando por alívio de sede; os caatingueiros correndo atrás do prefeito, se humilhando, clamando por água. O prefeito firmando poder na desgraça da falta de água. Carro-pipa para a seca. O negócio foi pegando.
Vá lá que, no esvaziar de gente do mato, no vento da civilidade vindo de longe, o trabalho de afundar cacimba se perdeu no espírito “moderno” da gente, no pouco da mão-de-obra disponível. E foi que as cacimbas entraram em aterro de terra, em enterro do esquecimento. Morte das cacimbas: água de carro-pipa. Água dada pelo prefeito em troca de voto e de alma; água comprada com o dinheiro de venda do criatório. Entre um assim e outro mais ou menos assim, os carros-pipa invadiram os caminhos do mato, e se fizeram figura comum, “necessária”, esperada. No andado desse ir, o nascimento de negócio na desgraça: os prefeitos se afirmando no poder, os apadrinhados fazendo dinheiro no trabalho de transporte de água. No consolidado dessa situação, a coisa se instalou como vício: os caatingueiros pegaram o gosto pela água dos carros-pipa e os transportadores de água reclamam do prejuízo causado pela suspensão do trabalho em decorrência das chuvas. Daí o que vemos: as chuvas atrapalhando o transporte de água, carros-pipa se afundando em atoleiros, estragando as estradas enlameadas.
Carro-pipa transportando água em termpo de verde - F.:ELopes

IMBURANA

IMBURANA NA CAATINGA VERDE - F:ELopes


Esmeraldo Lopes

Assombro e graça. Muito mais graça que assombro, as imburanas. Nas corridas desbragadas atrás de gado, na mente dos vaqueiros, sempre o arrepio temoroso de topar com fechado de pau estrepador: imbuzeiro, quixabeira, imburana... Suas galhas lá, apontando na direção de cima para baixo, no formato de espetos e catombos, criando moitas. E a rês, no espanto da carreira, procura asilo na estrepada do vaqueiro, do cavalo. Na tormenta, se encaminha na procura de moitas do assombro das imburanas, atravessando-as em rasgo de desespero. O cavalo faz maneio no corpo, emburaca no rastro da rês. O vaqueiro, sem sim e sem não, derreia o corpo na lateral do cavalo, sem pensamento. Se atravessou, atravessou. Se não atravessou, se estrepou. Pau de desgraça, pau de graça: imburana, imbuzeiro, quixabeira.
Alumiar da seca: abril, maio. As imburanas soltam as folhas. O criatório se adjutoria com elas. Nesse cai que cai de folhas, as imburanas se pelam, se disfarçam de mortas, expõem suas garras pontudas, seus catombos. Ali, nesse assim de não ser nada, se conservam em umidade, estampando verdume recoberto de acinzentadas peles finas nas cascas. No aperreio da fome, de água longe, difícil, jumentos e cabras se põem na obra de roeção das cascas dos troncos, das pontas das galhas à altura de suas bocas. Mas as imburanas lá resistentes, estampando feiúra de morte. E no disfarce da morte frutificam. Frutos sem folhas. No pino da seca, soltam seus frutos, para auxilio de salvação dos bichos fracos. Soltam os frutos e pipocam em brotos de folhas, se vestindo para receber a festa do verde. Se o verde não vem, os caatingueiros saltam em seus galhos com facões, arrancando-lhes as ramas na providência de esmorecer a fome do criatório. A chuva chega. Elas ficam livres no bailado da vida. Vêm-lhes as mandaçáis, os sanharós, as abelhas brancas, os munduris, os besouros, procurando aconchego nos buracos de seus ocos. Neles se arrancham, neles produzem mel. Os caatingueiros esperam o tempo certo. E, quando o tempo chega, machado na madeira macia de oco grande. As abelhas se enraivecem, despacham seus ferrões. Os machados vencem, pela aliança da fumaça, do fogo. O estrago fica à exposição. Mas as imburanas resistem em um longo convalescer.
De seca a verde, imburana, pau de casca medicinal. Cura tudo. Faça-se um menos, quase tudo que for mal à vida do corpo, dos bichos e dos homens.

Imburana podada, em uma malhada - F:ELopes


Caatingueiro tirando abelha em imburana - F:ELopes


Imburana onde tiraram melh de abelha - F:Elopes


Imburana desfolhada - mês de agosto - F.:ELopes

TINGUI

Esmeraldo Lopes

Tingui se enroscando em arbusto. Ao fundo trepando nas árvores . F.:ELopes


Tingui, simplesmente tingui. É uma trepadeira que, na Caatinga, prolifera no margeado das vazantes de alguns riachos, se protegendo na sombra das árvores e nelas se enroscam na procura do caminho das alturas. Se se amparam em arbustos, invadem suas copas e, na falta de não ter para onde subir, soltam seus ramos no vazio do espaço, despencando na direção do chão, formando moita.
Na seca, ficam os pés de tingui indistinguíveis, pela finura de seus cipós fingidos de mortos, disfarçados na cor cinza. Mas, no primeiro cheiro de molhado trazido pela chuva, pipocam em vida, e folhas despontam em um verde-verde, bem verde chamando atenção do olhar de gente. E nesse festival de verde, os bichos passam por eles sem nem dar um pouco de atenção. Nisso, os cipós dos pés de tingui vão se desenvolvendo em folhas, enchendo os vazios entre os galhos dos paus, sem o molestamento da boca dos bichos. Ficam nisso de dezembro a maio. Mas o tempo anda, e o verde-verde das folhas, lá pelo mês de junho, começa a amarelar no amadurecimento. Amadurecimento no emagrecer da Caatinga. E quando as folhas dos tingui amadurecem, despertam o apetite dos bichos, que avançam sobre elas sem nenhum pedido de licença. Cabras, ovelhas, gado... entram nos embrenhados dos riachos na cegueira da procura pelos pés de tingui. Não importa que encham ou não a barriga com as folhas buscadas. O que é certo é que uma vez alimentando-se com elas, o perigo se planta com risco de morte ligeira. Um susto, uma carreira pequena, o caminhar em uma estrada empoeirada,o levantar do pó do estrume nos chiqueiros, qualquer coisa assim basta para esparramar o bicho no chão, sem vida.
Na época que os bichos estão se alimentando com tingui, os caatingueiros dos lugares onde esta trepadeira prolifera se põem em cuidado, temendo prejuízo grande, mas entre o perigo da morte imediata e o perigo do enfraquecimento do criatório por fome, dizem: “O tingui ajuda a gente. É uma questão de saber lidar, saber mexer com os bichos no tempo da comida da folha dele”.

Pés de tingui proliferando no chão, entrando em processo de entrelaçamento entre si por não achar em que trepar - F.:ELopes

RAPADURA

Rapadura, tábua de rapar e faca


Rapadura... Como seria a vida dos caatingueiros de tempos atrás sem ela. Ela era o doce, o sempre doce de todas as casas, de todos os dias, quando comida pura. Com ela se adoçava o café e a imbuzada. O refresco, a merenda da tarde: jacuba. Jacuba: rapadura com farinha e água. Rapadura com farinha seca, a comida dos trabalhadores sem carne, dos dias sem outra mistura. Rapadura no feijão, para o refino do gosto. Rapadura, comida de vaqueiro no trabalho de campo longe. Aí, ela com fritada, com carne seca e farinha.
Rapadura, a mistura de sustentação, de adoçamento do gosto da gente da Caatinga, e dos beiradeiros do Rio São Francisco também, por muitos e muitos anos.

Algaroba

Algaroba no terreiro - F.: ELopes


Esmeraldo Lopes
Tenho um pensamento: desconfio de todos quantos queiram me salvar. Os redentores são sempre mobilizados ou pelo puro sentimento de culpa, ou pelo desejo de se transformar em senhor. Portanto, toda ação salvacionista é espúria. É com esse espírito que ao Nordeste têm se dirigido ações não apenas de agentes do governo federal, como também de empresários de outras regiões do país, assim como nordestinos de nascimento que se posicionam nos píncaros da escala social. De certa feita, o Imperador Pedro II jurou que venderia até o anel para eliminar a pobreza dos nordestinos. O anel não foi vendido, e, no além do tempo, em pelo menos três situações, encontrou-se como solução a transferência de milhares de nordestinos para as terras amazônicas. Depois, muitas e muitas soluções, havendo em comum que todas sempre vieram sob a forma de panacéia. Algumas panacéias vieram sob a forma de planos, outras sob a forma de programas e houve muitas que surgiram pela magia da introdução de plantas ou animais. Foi assim que alguém portou a idéia “brilhante” trazer camelo para o Nordeste. Não sei se vem daí a expressão popular: “Idéia de camelo”. Sei que depois do camelo vieram muitos animais de raça, tipos de capim, espécies arbóreas, apicultura, horta familiar, raleamento da caatinga, rebaixamento da caatinga.... o diabo. Cada coisa dessas como medida da solução de tudo.
Ainda menino, estava eu na iminência de assistir o fim de todos os problemas dos criadores nordestinos. Isso lá pelo ano 1960. Uma planta mágica acabaria com a fome do rebanho. O nome dela: algaroba. Dela tudo seria aproveitado: a flor, a folha, a vagem e de quebra, era excelente para madeira. Como meu pai se botou que era inovador, logo providenciou uma cem mudas e lascou ordem em meu irmão imediatamente mais velho para molhá-las. Não precisa dizer mais nada. Tomei raiva da planta. Olhava para as mudas em crescimento com indiferença, afinal, “onde já se viu plantar e molhar mato?” Houve quem pensasse que meu pai estava aluado, mas como alguns senhores de tradição de mando fizeram o mesmo, não é de estranhar que dissessem que ele esta a se incutir. O certo é que as algarobas foram crescendo e por todos os lugares onde elas estavam, no cair das primeira vagens, passaram a ser freqüentadas por cabras e ovelhas. E logo a criação passou a se abarrancar debaixo delas esperando também a queda das folhas e das flores. Os papagaios e periquitos não se fizeram por menos. Antes que as vagens entrassem no amadurecer, lá estavam eles na procura de saciar a fome. No espanto da belezura do benefício da algaroba, deu que os matutos alimentaram o interesse por ela, muitos, entretanto, não indo além de plantar uma muda no terreiro. Planta rústica, trazida de algum deserto peruano, deu a nascer nas várzeas, nos tabuleiros, e, principalmente, nos terrenos de maior fertilidade. Como nascia? Pelas sementes disseminadas através do estrume da criação. Nesse assim, a algaroba deu a invadir a Caatinga, compondo o cenário caatingueiro, se incorporando não só como paisagem, mas também como elemento de memória rolando no dia-a-dia.
Não foi muito, e quando a algaroba já havia recebido a naturalidade caatingueira, lá se vem os técnicos. Técnicos dos órgãos mesmo que a trouxeram para a região, dizendo: “A algaroba é uma praga. Invade os terrenos férteis, puxa muita água, quebra o equilíbrio natural”. Os caatingueiros respondem: “É uma santa planta: o criatório aproveita tudo dela, e ainda serve para madeira”. Eis aí um impasse. O argumento de ambos é procedente, mas como se resolve a questão? Os técnicos que criaram o problema que resolvam. De minha parte, digo: algaroba agora é parte da Caatinga e se faz presente no terreiro de quase toda casa da Caatinga.
No meio da polêmica envolvendo a algaroba, está uma atitude de imbecis ao quadrado elevada ao cubo, para não dizer oportunistas de plantão, também “técnicos”. A moda agora é revitalização do Rio São Francisco. Coisa de facilidade para gente “sabida”, se camuflando por trás de ONGs – Organização Nacional dos Gigolôs – e até de instituições oficiais, que, sem nenhuma providência de escrúpulo, acharam na algaroba a solução para o reflorestamento da Caatinga e revitalização das margens do rio. Sequer esses gigolôs da desgraça ambiental se dão ao trabalho de procurar saber quais são as espécies nativas das margens do São Francisco.

Algarobas nascidas naturalmente em uma malhada - F.:ELopes


Algarobal plantado em um cercado - F.:ELopes

Pereiro

No correr de toda a Caatinga, em todos os tipos de terreno, pés de pereiro se fazem paisagem. No passado não tão longe, de lá pelos 60 anos atrás, muitos eram avistados em bom tamanho, outros ficavam a rastejar pelo chão, impedidos de crescer pelo maltratado da boca dos animais. Como possui madeira dura e, os que se avantajavam no porte, cresciam com caule reto, a turma caía de machado sobre eles para transformá-los em caibros, também em estacas e postes para cercas. Nesse ataca, ataca, foram minguando no destaque da visão. Acabaram por ser o que se vê: uma arvorezinha. Nisso também contribuiu o enchido de animais, que sacudidos pela fome, caem de boca sobre as plantas novas, pondo-lhes na condenação de não crescerem.
Quando as primeiras chuvas pipocam, os pés de pereiro se fecham no verde do folharam. Logo florescem, e das flores vem as vagens. As vagens secam, se racham e ganham o formato de guiné. As chuvas escasseiam e, pelo mês de agosto, setembro, quando a Caatinga no acinzentado do mato seco, do desfolhado dos paus, as folhas dos pés de pereiro, já amarelecidas pelo amadurecimento, são buscadas pelo criatório, ainda no alto de suas galhas, ou no rolado do chão. Pereiro, alívio no tempo ruim. Logo não tem mais o que cair e, no entrar de outubro, os pés de pereiro se mostram pelados, em iguala com os pés de outros paus.
Há bicho que pega vício de comer folha de pereiro e, na agonia do seu buscar, atacam-nas ainda verdes. Mas suas folhas, comidas verdes, provocam o travamento dos animais de montaria, “aí a gente diz: empereirou.” O animal nem vai e nem vem. Remédio: botar rapadura na boca do animal, esperar um tempinho para ele melhorar e poder seguir viagem.
Quando os piolhos se fazem em penca nos pêlos do criatório, sumo de folha de pereiro para banho, como solução.

Pereirinho - F:ELopes


Pereiro na caatinga - F: ELopes


Pereiro na malhada - F: ELopes


Bagem de pereiro - F:ELopes

Cena caatingueira

Ajudando cabrito a mamar na mãe - F: ELopes


A foto acima deveria ter composto o quadro que escrevi sobre parição de cabras. Por descuido não o fiz. Como ela ilustra uma cena comum na época de parição e, ao mesmo tempo, revela um aspecto do modo de trabalhar dos caatingueiros trago-a aqui.
O cabrito foi achado no mato, com fome. A cabra, com certeza, voltaria para alimentá-lo,mas se ele fosse deixado lá, seria atacado por predadores. O dono da cabra, ao vêlo, identificou, pelas manchas da pele, que era filho de bode e cabra de seu rebanho. O levou até o chiqueiro e se botou na captura da cabra. Achou dois dias depois, trazendo-a para o chiqueiro. Acontece, como é comum, que a cabra não quis mais aceitar a cria. Aí a luta. É preciso forçá-la a retomar os cuidados de mãe. Por isso essa cena. Se não houvesse mais ninguém junto com o proprietário, que está sentado, o trabalho seria feito de qualquer jeito. Mas lá estava eu, que já havia sido designado para a ajuda, mas eis que chegou mais alguém, gente da vizinhança. De logo o vizinho entrou no chiqueiro e foi se adiantando na tarefa. E, enquanto a tarefa não acabava, a conversa, a atualização de informações misturadas com muita pulha.

PARIÇÃO

Esmeraldo Lopes
Falar de parição, hoje, é quase uma reminiscência, que o merecimento desse nome caía bem no tempo das chuvas quase certas no mês de dezembro. Quando era assim, no assopro das primeiras águas, o despertar da rama dos paus da Caatinga. O bodejo começava, e aí era certo: no mês de abril o berreiro da cabritada assanhava o mundo. Os caatingueiros entravam no trabalho de pegar as cabras prenhas para evitar que elas parissem no mato. Mas cabra é cabra, um bicho armado de mil manhas. Embrenhadas na caatinga, ofereciam todo o tipo de resistência, para não dar beiço ao chiqueiro. O certo é que por muito que fosse o esforço dos vaqueiros, lá no mato, sempre haveria muitas a parir. E cabra parindo no mato, dificuldade para a cria pegar prumo de sobrevivência. Os carcarás, as raposas, os urubus, os gatos-do-mato, os morcegos, em vigília para fazer delas alimento. Ainda o inferno das moscas-varejeiras fazendo plantação de bicheira nos cabritos e no paridor das cabras. Com esse batalhão de perseguidores, de dez cabritos nascidos no mato, sobravam dois, três, para a vida adulta. Conte-se ainda que alguns não conseguiam fazer mamada fácil nos peitos da mãe. E quando isso acontecia, degringolavam em morte, por fome. Então prevenição. Os criadores se embrenhado nos embrenhos do mato na caça das cabras paridas, de suas crias.
No nascimento, cabrito é mole. Leva cinco, seis, dias para acompanhar a mãe. Para a proteção da cria, as cabras os agasalham nos escondidos dos paus. Quando o cabrito cochila, ela se vai à procura de pasto, de água. O cabrito lá, calado, queto, desprotegido. O perigo dos predadores chegarem, e quase sempre chegavam. Por isso, os criadores se punham ativos no trabalho de recolhimento. E as crias que não nasciam no chiqueiro eram procuradas para a condução para eles. Mas como a criação era em pasto aberto, por muito que se fizesse, no maior das vezes, nem a metade das cabras paridas era encontrada.
Nos chiqueiros a berração daquele monte de cabrito emperrados na espera das mães. Mas vinha que o pasto das mães, às vezes, ficava longe. E conforme a distância do pasto, elas vinham dia sim, dia não. O cabrito faminto, desesperado, berrando, aflito ao avistar a mãe de outro cabrito que acorria ao cumprimento da ordem instintiva. Às vezes não apareciam nunca mais. E os vazios do cabrito abandonado iam se encostando, de fome. Nesse caso, o decreto: colocá-lo como adotado em outra cabra, alguma que tivesse perdido a cria. Sem esse recurso, tomá-lo como enjeitado, com mamada em mamadeira.
O agasalho dos chiqueiros não era seguro. O berreiro dos cabritos atraía os urubus, os carcarás, que se punham a fazer volteio no alto do céu, à espera de descuido do criador. No primeiro descuido, o arraso. Então botar os meninos em vigilância. Se não houvesse menino, mandar tiro nos agressores, colocar veneno para destruí-los.
O tempo andou.
Com o espalhado das chuvas, a mudança do tempo, a parição se esparramou no correr do ano, com um molhinho de cabritos nascendo em um tempo e outro em outro. Só os predadores não mudaram. Aliás, mudaram, que ficaram mais guerreiros, e estão aí levando com afinco a obra da destruição.


Cabra e cabrito, logo após o nascimento - F: ELopes



Cabra com cabrito novo no mato - F: ELopes


Cama de parição de cabra. Na indicação, as pares - F: ELopes


Cabra com duas crias, logo após o parto - F: Regina Maria A. Coelho


Cabras com os cabritos no chiqueiro - F: Regina Maria A Coelho


Cabrito com bicheira - F:ELopes


Cabritos de dois meses no chiqueiro - F:ELopes


Cabritos no chiqueiro - dois meses - F:ELopes


Cabrito à espera da mãe - F: Regina Maria A. Coelho


Garota Mariana, brincando com cabrito em um chiqueiro - F:Regina Maria A. Coelho

Quixabeira

Esmeraldo Lopes
Quixabeira é pau de encosto de assombração. De vez em quanto se tem notícia de uma alma se fazendo visagem na proteção da sombra dela. No açoitar cavalos em pega de gado, os vaqueiros se previnem na atenção de se livrarem de suas galhas, que formam moitas de espetos despencando do alto na direção da terra, prontos para fazerem rasgões nos gibões, arrebentamento da carne, aleijões nos cavalos. Os meninos, no pisado do chão de perto de quixabeira, arregalam bem os olhos, tementes de seus espinhos rombudos, estrepadores.
Quixabeira, aleija, assombra e salva homens e bichos. No acontecer de doenças do corpo ou da alma, retirar da casca dela o preparo para a providência de cura. De seca a verde, está lá no sempre, soltando folhas verdes no chão, acudindo a fome dos bichos. No tempo certo, a criação na cegueira de não querer sair de debaixo dela, no aguardo da queda das quixabas. E fica ali plantada esperando, esperando, sem vontade de procurar outra solução de alimento. Na disputa pelas quixabas, as cabras se avantajam, diante das ovelhas. Erguem o corpo, apanhando os frutos, as folhas dos galhos do alto do alcance de poder baixá-los com suas mãos. Nessa vantagem, o risco, que é de costume avistar-se o corpo de uma cabra, de um bode, morto por enganchamento, depois de grande agonia de fome, de sede e do incômodo de dor. Os meninos, que no cair do dia arredam das quixabiras, por medo de alma, no claro do sol, se açoitam metendo os dedos entre os galhos delas no arrancar de quixabas, vigiados pelo olhar invejoso da criação. Antes dos frutos, as flores. Aí a festa de abelhas de todos os tipos em redenção de vida.
Seja seca, seja verde, os caatingueiros, ao passarem perto de uma quixabeira, miram atentos a formação de seus galhos, e neles vão procurando pau bom para cabo de enxada, para cabo de machado. Se é seca, e se a seca aperta, afiam os facões, os machados, tomam o rumo de um pé de quixabeira, açoitam golpes nos galhos altos. De longe, a criação ouve a batida de madeira em corte, toma a direção do rumo da zoada, para disputar as folhas encravadas no meio dos espinhos. A cada galha tombada, o atropelo sem estilo da criação na procura da solução da fome.
Árvore de pau com dureza de ferro, a quixabeira soca suas raízes na fundura do chão, livrando-se das agruras da falta de água no raso da terra. Nesse assim, se firma em vida em qualquer lugar. Prefere as baixadas, beiras de riachos, onde, por vezes, nascem e crescem perto umas das outras, emendando os galhos, formando latadas. Salvação, mas também perigo para a criação. Se a chuva bate, a criação, em espera pela queda de quixaba nos baixios, é levada para a morte, no descambar das águas. Mas quixabeira nasce e vigora em qualquer lugar, em qualquer tipo de chão caatingueiro. Se bem que não abunde, está sempre a se fazer presente, variando na altura, na formação da copa.


Quixabeira - F: ELopes



Cabras esperando queda de folha de quixabeira - F: ELopes



Quixabeira - F: ELopes



Ovelhas à espera de queda de folhas de quixabeira - F: ELopes

Faveleira

Esmeraldo Lopes
Dizem que relacionaram aquele amontoado de casas decrépitas já no nascedouro, dispostas em alinhados tortos nas cidades grandes, à faveleira. Há ponto de lógica nesse afirmar. Podiam ter usado, para referência a lugares assim, o nome canudos, que Canudos, o lugar, era formado por um desengonçado de abrigos para corpos curvados, e a planta desalua quem dela prove. Pelo quê, pelo não quê, preferiram tomar de empréstimo o nome do fruto de faveleira. Motivo disso? Deve ser relevante, coisa que só pode ser desvendada através de dissertação de mestrado ou tese de doutorado. Inútil não vai faltar para enfrentar esse empreendimento.
No caso aqui, favela vem de faveleira... ou é o contrário? Árvore ou arbusto? O puxado dessa complicação não remete prosa. Basta dizer que é planta da Caatinga. Se existir em outros lugares é porque foi daqui, de empréstimo. Na Caatinga, faveleiras se fazem presentes em todo tipo de mancha de chão: várzea, fofo, carrasco, caatinga-fechada, tabuleiro, vermelho e até baixio. Em qualquer lugar, elas lá, se mostrando de acordo com a decorrência do tempo. No tempo seco, peladas, sem folhas se fingindo de mortas. A jumentada, as cabras, saltam com os dentes comendo-lhes as galhas baixas, as cascas dos troncos. Se a sede aperta, os jumentos farejam suas raízes no chão, cavucando com os cascos até o alcance do troféu. Os porcos também fazem esse trabalho, revolvendo a terra com os focinhos. Com chuva ou sem chuva, no entrar de outubro as faveleiras sinalizam vida pelo despontar de brotos nas galhas. A bicharada faminta cai sobre elas. Vêm as chuvas. No logo, logo se plenifica de folhas: cabritos e cabras se esticando na procura delas. Mas aí, brotos de outros paus também estão pipocando. Faveleiras não gostam de abandono de preferência. Soltam o atrativo de suas flores, na busca de bicho pisando debaixo delas. Queda de flores, frutos vingando. Com pouco, as favelas vão se pondo em ponto de chamar aves. Sem demora, o amadurecer, o estalar. Aí os bichos que fazem rastro vão se chegando na procura das sementes espatifadas no chão: seriema, codorna... muitas nações de bichos do mato. Também recebem visitas de meninos. E os meninos querem favela para fazer carrapeta, as sementes para preparo de gosto de boca, pelo mastigar direto dos dentes, para preparo de pisado, com mistura de rapadura e farinha. Mas faveleira tem espinho. Espinho pequeno, de furada de dor grande, lá no canto da alma. Espinhada de espinho de faveleira quando está molhado, viagem do da terra ao céu, descida do céu à terra. No dizer de todo mundo, espinho de faveleira tem veneno. Se sim? Sim, “que é neles que as cobras vão pegar veneno”.
As chuvas minguam, desaparecem. As faveleiras vêem suas folhas entrar em amarelidão, vêem o seu despencar. De novo as cabras, os cabritos caminhando na procura delas. Vai esse se repetir de todo ano, em cada tempo do tempo.
Todo ano, o ano todo, casca de faveleira, remédio para acudir saúde.

Faveleira com tamanho grande - F:ELopes


Favela ainda verde - F:ELopes


Favela em ponto de estalar - F:ELopes


Faveleiras em tamanho comum - F:ELopes

Pega de gado

Esmeraldo Lopes
Trago na memória a imagem dos vaqueiros chegando ao curral depois de corrida com gado na caatinga. Rostos arranhados, mãos feridas, caminhar tropeçante. No ar de perto deles, odor de suor misturado com o aroma dos paus do mato impregnados nos couros que carregam nos corpos. Da barriga dos cavalos, já amarrados e com as selas afrouxadas, pingavam gotas de sangue, minadas dos rastros das rosetadas das esporas, enquanto seus corpos mexiam no embalo de fungadas fundas, expressão do cansaço. No curral, o troféu: a rês arriada com careta, chocalho, cambão, vencida, extenuada. No meio disso tudo, as vozes dos vaqueiros contanto suas contadas de como havia sido o feito de cada um. Elogios e gozações, risadas e admiração.
Na caatinga, os vaqueiros, os cavalos, a rês a ser pega. O disparar desbragado da disputa dos cavalos, dos vaqueiros, cada um na procura de ser o melhor. A rês intentando o asilo do mato, na querença de botar vaqueiro em aperreio e os cavalos indo, os paus batendo, os vaqueiros apanhando. As esporadas, as chicotadas para botar velocidade nos cavalos, para fazê-los romper os obstáculos postos pelo mato, pelo limite das forças. Desgraceira para todos. Em uma aqui e outro ali, queda desastrosa, estrepada, olho vazado, pescoço quebrado. Como sem falta, ferimentos por espinhos, pelas pontas dos paus. Se a rês virava, a briga de chifres contra mãos: pancada, pancada, pancada. Os vaqueiros feitos à semelhança dos bichos.
Em minhas andanças novas não vi mais cenas nesse assim. Não é que elas não tenham mais ocorrência. É que não houve coincidência. O mais perto que achei está estampado nas imagens abaixo. Nelas, dois jovens vaqueiros do tempo moderno, frustrados por terem apanhado de uma vaca, que os driblou e ficou na liberdade do mato. Se olhados direitos, vê-se o rastro da caatinga na cara deles. Uma outra de um vaqueiro à antiga, vivente do hoje. O cavalo... olhe a barriga dele.


Diogo, vaqueiro por querença de gosto, ápós corrida com gado - Boa Vista - PE - F: ELopes


Márcio, que correu com Diogo - Boa Vista - PE - F: ELopes


Estago na barriga do cavalo, após corrida - F: ELopes


Damião, vaqeiro de Santa Maria da Boa Vista - PE - F: ELopes

PEDAGOGIA DA AGONIA

OBS.: O texto abaixo é um fragmento da obra em fazimento Caatingueiros e Caatinga e se reporta
à forma como os caatingueiros se faziam na primeira metade do século XX. Não confundir este texto com o rosário de sentimentos de culpa desfilado em Pedagogia do Oprimido de Paulo freire.

PEDAGOGIA DA AGONIA
Esmeraldo Lopes

“Chicote pode não ser professor, mas que ensina, ensina!”. Os caatingueiros foram feitos, se fizeram na toada desse dizer e do fazer na mesma direção. Afinal, o que é era ser homem, senão suportar todas as agonias? Suportá-las cumprindo o dever. Tanto fazia que fosse o dever da ordem mandada, o dever da ordem da necessidade, o dever de ser no acordo do comando do costume Necessidade de obedecer, de agüentar, de ser o que todos esperassem que fosse. O ter que fazer, que suportar, para corresponder. E quem falhava no cumprimento desse esperar, entrava no nada, sem consideração de respeito. A síntese disso em duas faces: valentia e brutalidade, de um lado, do outro, acanhamento, vida humilhada.
Ser homem: não se intimidar diante de tarefa a ser realizada; não temer perigo; não refugar diante de requerimento de esforço; não aquietar-se na desfeita acontecida entre iguais; castigar afronta, ato desmantelado de inferior, sem piedade; observar cegamente a norma: “cada qual em seu cada qual”. E cada qual na correspondência de sua posição na hierarquia. A conformação ao social pela força desnuda de fineza, de mimo.
Aprender a trilhar no caminho da vida sem conforto, se defrontando sem proporção de medida com as dificuldades aparecidas, sem busca de arrodeio, de suavidade, seguindo o mesmo jeito do fazer de sempre. Para os caatingueiros, assim: contra a dureza da natureza, a bruteza do homem.
Os meninos se fazendo gente na batida da obediência, do cumprimento de determinação, aprendendo, com medo, a desafiar o medo. Nisso uma escolha: chicote, castigo ou aspiração. Ser homem: a aspiração dos meninos. Então lançar-se, ainda menino, no entrar no embrenho da labuta crua dos homens, pelo prazer da conquista de reconhecimento. Não tendo essa aspiração, grito, chicote, castigo, como recurso de superação do medo, da fraqueza do corpo, do vacilo da alma. Ou se fazer homem, ou ser feito homem, no atendimento do requerimento da necessidade. O mal-trato como guia de orientação.
A dureza do trato com o criatório como guia de doma. Bezerro levado ao mourão em relho curto, exposto à chuva, ao sol, submetido à sede e à fome durante o correr do dia, para o quebramento das forças; animais de montaria: quebrar-lhes o pescoço pela força de puxões das mãos nas rédeas, castigar-lhes com chicotadas inclementes; neles, ainda, chicotadas por cima de esporadas rasgantes nos vazios para imprimir-lhe força, velocidade, para a feitura do que tinha que ser feito. Se o animal de montaria se mostrasse indomável, exaurir suas forças pelo requerimento de esforço grande. Para gado bravo, botada com carreira de cavalo, corda forte, cambão, pancada nos focinhos, nos chifres, ferrão enfincado no pescoço, nas ancas, para aprender a respeitar. Criação miunça no traquejo curto de gritos, de afronta de latidos de cachorro, de espancamentos, do aturdido das patas dos cavalos.
Imagem de temor dos bichos: vaqueiro. Em tudo por tudo, a doma dos bichos de criação pela ação de traquejo bruto, sem agrado de trato de fineza. O enquadro dos bichos pela bruta, na ordem bruta dos caatingueiros, e os caatingueiros, se enquadrando na ordem bruta do jeito dos bichos, se desdobrando com todas as forças para vencê-los. Ser homem: vencer e vencer os bichos, agüentar os sopapos da natureza do meio, do jeito que ele se apresentasse, agir sem temor na guarda do respeito, gastar-se na lida sem resguardo de esforço.

CACTOS

Esmeraldo Lopes
O registro das coisas pela aparência mecânica do apanhado pelos olhos gera imagem sem consonância com o que elas são, do que delas se pode fazer. E aí, elas são afeiçoadas por pura criação da imaginação. Quem vive no mundo das coisas tem que com elas se agarrar, procurando observá-las nos detalhes, para saber o que, de vera, são.
Nos olhos dos olhantes de longe, aqueles que por informação de fotografia ou por passagem descomprometida na Caatinga, a Caatinga tem a cara dos cactos e os cactos são a cara da Caatinga.. No ver deles, os cactos são só espinho, coisa rude que espeta, que assombra e amedronta a proximidade do corpo. E ficam nesse ver sem enxergar. Enxergar: coisa de intimidade do ser, do ser que penetra a intimidade das coisas. Os caatintingueiros penetram a intimidade do mundo da Caatinga. Xiquexique, o arrepio dos cavalos nas correrias no prumo do rabo do gado bravo; quipá, um negócio de pêlo espinhento que gruda no corpo sem querer se soltar; mandacaru, com os espetos à espera de desprevenido para se espetar; caxacumbri, se assanhando em tiras, se demonstrando pela ameaça dos espinhos; palmatória, um tipo de palma pequena se protegendo com espetos afiados; coroa-de-frade, com unhas espetudas, no jeito de provocar aleijão; mandacaru-facheiro, enfeite do mato, com o engalhamento apontando para o céu. No verde, cactos, desgraceiras de mal-trato do corpo, chamadores de cuidados no desembaraço das andanças, que eles se camuflam no confuso do tudo verde do mato, com presença sem direito de ausência, que a Caatinga, sem eles, não poderia ser o que é. Cactos espinhos, mas também cactos flores. Flores que nascem e vicejam na proteção dos espinhos, se compondo com o resto da vegetação em flor, para jogar boniteza no mato. Cacto não são só espinhos e flores. Também presenteiam a vida com frutos. Na busca dos frutos: meninos, passarinhos, emas, seriemas.
Os espinhos dos cactos lembrando perigo de dor. De repente, o perigo se faz defesa, que os preás se protegem no abrigo das moitas de xiquexique; os calangos se amoitam nas moitas de quipá; alguns passarinhos fazem seus ninhos nos engalhados espinhentos dos pés de mandacaru.
Caatinga sem cactos, como poderia ser? E vem que vem a seca certa. O mato baixo entra em sono, se acinzenta no pelado do sem folha, e se destaca o verde dos cactos, lembrando jeito de alimentação da vida. Os bichos famintos saltam neles, como recursos desesperado de sobrevivência. Os jumentos com os cascos, as cabras com os chifres. E, até os caatingueiros, nos aperreios da seca, no longe dos tempos, aprenderam a tratar xiquexique para provimento de alimentação. O gado, sem arma de ataque para enfrentar os espinhos dos cactos, se põe no aguardo de vaqueiro que lhe socorra. No mais cedo ou no mais tarde, o vaqueiro se apresenta, armado com facão e com fogo. Deita fogo leve nas moitas de xiquexique, derruba as galhas dos mandacarus, sapeca-lhes para a destruição dos espinhos. O criatório avança esbaforido para matar a fome.
Recurso de sustentação da vida no aperreio das secas, os cactos. Por longos mais de trezentos anos, eles e as ramas de alguns paus grandes, únicas fontes de ração.
Cactos: espinhos, flores, frutos e vida.

Coroa-de-frade - F: ELopes


Xiquexique - F: ELopes


Caxacumbri - F: ELopes


Rabo-de-raposa - F: ELopes


Quipá - F: ELopes


Mandacaru - F: ELopes


Mandacaru-facheiro. Utilizado para retirada de madeira para fazimento de ripas, fabrico de portas e como facho para clarear as noites escuras - F. ELopes


Mandacaru com formação rara em uma das galhas - F: ELopes


Palmatória - F: ELopes

Santo Óleo Queimado

Esmeraldo Lopes
Do passado longe, de trezentos, quatrocentos anos atrás, não temos o saber dos feitos para tratamento de doença em bicho de criação. Desse longe, as notícias são vagas e o pouco dele a chegar até nós, é que os fazendeiros eram absenteístas e que deixavam em suas propriedades algumas cabeças de animais e um semi-servo para providenciar o arremedo de cuidado do rebanho imposto à sua guarda, para firmar direito de propriedade da terra. O miúdo e o graúdo do batuque do dia-a-dia dos homens deixados na solidão dos ermos, não se pode mais saber no contado da certeza certa, que suas palavras não eram amarradas em letras e o assopro do tempo as carregou para o perdido do mundo. Se deles queremos saber alguma coisa, é preciso que se saia juntando farrapos de história, montando quebra cabeça, preenchendo as grandes vagas com tiradas da imaginação.
Deixado nos ermos solitários da Caatinga, o homem, o semi-servo, dê-se lá o nome que se queira, tinha como missão providenciar água para os bichos, juntá-los e inscrever a marca de propriedade do fazendeiro em alguma parte do corpo das crias que lograssem sobrevivência. E a sobrevivência acontecia por ordem da sorte do dono, de acordo com o determinado pela vontade de Deus. No mais, esse homem, que se ia fazendo caatingueiro pelo ensinamento dos bichos, pelo aprendizado com a Caatinga, pelos imperativos das circunstâncias, entrava em improvisação de providência no socorro a bicho adoentado. Mas era uma providência empurrada pela compaixão diante da agonia do bicho doente, em um acontecer sem espírito de generalização. O trabalho de campo ocupava todo o tempo, os bichos cresciam brabos nos fechados de mato, as fazendas não dispunham de estrutura para amparo de cuidado atencioso e a idéia guia era: escapa o que escapa. O que se tinha: os bichos, o homem e seu pouco poder fazer. Em matéria de tratamento de doenças, um fazer inventado pelo tino da imaginação com o experimento do que se tinha à mão: cascas de pau, ervas, urina, esterco, sal, reza... Procedimento para os bichos e para os homens. O suceder da história, as experiências se desenrolando, formando esteira de tradição e o homem na base do mesmo providenciar. Assim se foi o tempo por muito tempo até o perto de nós, quando elementos novos, trazidos de outros mundos, passaram a decorar as prateleiras dos armazéns e alcançaram os chiqueiros, as garupas das celas: ungüento, creolina. E a rápida incorporação deles na tradição. Agora, creolina para curar bicheira, ungüento para machucados, para sarrar o umbigo dos cabritos, creolina com sal e alho para toda doença manifestada dentro do corpo dos bichos: “um santo remédio”. Mas houve doenças que não se deixaram abalar por essa terapia. Novo experimentar: cachaça pura, cachaça com mistura de ervas. “Para tropo, cachaça em primeiro lugar”. Estradas sendo abertas para dar passagem a caminhões. Caminhão: gasolina. O plan atacando os pés dos animais de montaria, do gado. Para o plan, experiências sem resultado. “Pois não é que a gasolina resolveu?” Gasolina para o plan. Com pouco, com pouco, descobriu-se o óleo queimado. “Óleo queimado, sem igual para espantar mosca de bicheira”. Então, matar os bichos de bicheira com creolina e depois colocar nela óleo queimado. “A mosca não senta e a bicheira sara logo”. Mas vai que a bicheira está grande e o óleo queimado não consegue se grudar direito? Uma nova providência: “Misturar óleo queimado com pó de pilha de rádio, com limão, fazer uma pasta e passar na bicheira, que o óleo espanta a mosca, o pó gruda o óleo no couro do animal e o alho serve para combater alguma infecção”. Como vocês chegaram a isso, como descobrem esses remédios? “Algumas coisas a gente aprendeu dos mais velhos, outras, a gente vai inventando, vindo aquela coisa na cabeça, experimentando uma coisa e outra. Se não der certo, se o bicho morrer, já ia morrer mesmo. Se der certo, acertou”. Mas, será que óleo queimado e pó de bateria não fazem mal ao bicho? “Não sei, sei que serve. O senhor pode me dizer o nome de alguma coisa melhor? Pelo que sei, óleo queimado é o melhor. Tem gente que bota graxa em cima da bicheira, mas mesmo assim diz que óleo queimado com borra de bateria é melhor”.
Órgãos de extensão rural, de pesquisa. Seminários, conferências, oficinas. Neles um povo de dizer letrado nos rebuscados da ciência, da técnica, do escambau, com rosto bem posto, corpo nutrido e pele suave a discorrer sobre as impropriedades dos procedimentos dos caatingueiros. Faz mais de quarenta anos que este povo está no blábláblá de novos procedimentos: pulmão verde, reserva alimentar, inseminação artificial, melhoria genética, sanidade animal, introdução de novas forrageiras, rebaixamento e raleamento da Caatinga, associativismo, cooperativismo, empreededorismo, cursos, dia de campo... Foi em um desses dias de campo que assisti: O “doutor” mostrava para um grupo de caatingueiros um produto próprio para matar bicho de bicheira. A caatingueirada olhando o produto e ouvindo a explicaçã com atenção. Quando tudo parecia bem, o “doutor” soltou um ataque: “Vocês usam creolina para matar bicho de bicheira, mas creolina não produz efeito. Creolina é desinfetante, olhe aqui escrito”. O “doutor”, foi interrompido pela voz de um caatingueiro: “Doutor, creolina é um santo remédio. Desde meu avô que ele mata bicho com creolina e eu uso até hoje”. O “doutor” insistiu em sua afirmação burra. Os caatingueiros riam sem lhe dar mais nenhum crédito. O que eu digo? Creolina mata bicho de bicheira. Se ela não é própria para tal, se produz efeitos danosos, aí é outra coisa.
O que quero dizer é que no que pese todos os “esforços” modernizadores, os caatingueiros continuam sós, entregues à sorte de suas experiências, fazendo por conta própria suas adaptações, vivendo sob o lema: “do criatório, sobra o que Deus quiser, fica o que sobrevive”. E, no desenrolar de suas vidas, criaram uma nova divindade, a quem erguem altar em todos os chiqueiros: o Santo Óleo Queimado.

Borrego com doença do casco. Remédio aplicado: gasolina e óleo queimado - F;Elopes


Aplicação de óleo queimado em bicheira - F.: ELopes


Óleo queimado pendurado na cerca de um chiqueiro - F:ELopes


Altar de óleo queimado: cerca de chiqueiro - F.:ELopes

Algumas flores da Caatiga

A primeira foto é de um pé de canudo. Canudo é um tipo arbustivo que habita as várzeas de massapé. Mantêm as folhas verdes durante quase todo o ano e, quando das chuvas, se solta em flores. Não se sabe se por motivo de fome ou se por alguma atração química, alguma vaca, alguma cabra se põe a comer suas folhas. Problema. Comeu uma vez, viciou. O bicho fica inzonado no gosto delas e não quer outro procurar. De logo é de se perceber quem anda nesse aconchego, pelo entortar do pescoço, pelo trejeito do corpo, pelo andar sem rumo de estrada reta. E nesse assim, vai até que encontra a morte. As duas fotos seguintes, mostram imagens comuns em tempo de tempo de verde. Uma é de mato rasteiro, a outra, de trepadeira nativa.

Canudo - F: ELopes


Flores de mato rasteiro - F: Rosângela A.A. Coelho



Flor de trepadeira - F: Rosângela A. A. Coelho

Imagens da Caatinga no verde

Caatinga fechada, no verde - F: ELopes


Capim panasco - espécie nativa que ocupa as várzeas e tabuleiros no verde. Alimento preferencial de ovelhas e gado vacum - F:ELopes




Vista parcial da Caatinga, no verde - F: ELopes




Serra, no verde - F: ELopes




Serra Pelada e, no seu sopé, Olho d`Água - Faz Brejo - Sta. Maria da Boa Vista - PE - F: ELopes



Olho d`água em riacho - Faz Melancia - Curaçá - BA - F: ELopes



Riacho, logoa após a chuva - Faz. Melancia - Curaçá - BA - F: ELopes

Detalhes do interior de uma casa de caatingueiro tradicional

Santo em destaque - F: ELopes


Ornamento de sala de casa de caatingueiro tradicional - F: ELopes

Bicheira

ADVERTÊNCIA: Titubeei. Fiquei em dúvida: a última foto, exponho ou não exponho? Decidi pela sua exposição, mas se você têm olho de muito sentir, passe por cima, não a veja, que ela é de agoniar. Nela, toda a crueldade de uma bicheira e suas composições: larva, mosca-varejeira, o estrago que os morotós fazem e terapêutica dos caatingueiros.
INFORMAÇÃO: Cria, de criação miunça, só agüenta o agoniar de bicheira por três dias. Criação adulta vai mais uns dois ou três dias. Gado, animal de montaria, uns seis, dez dias.

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Esmeraldo Lopes
O assunto é cruel, mas é um assunto da vida. Por isso, que não haja esquiva dele. Bicheira não é o mesmo que bicharia, é bicho em bicheira, um bocado de morotós se nutrindo em carne viva. Em carne viva de animal em agonia.
Bicheira nasce do pousar de mosca-varejeira em ferimento, em parte umedecida do corpo, sem que haja distinção entre o corpo de animal adulto ou de cria. Mosca-varejeira tem faro de sete léguas e meia. O que come, não sei. Sei que pode comer qualquer coisa, menos carne de bicheira. O faro dela se estica longe, na procura de lugar de amparo para fazer sua parição de desgraça. Sai veloz, zunindo mato adentro, mato afora, afinada pelo tempero do instinto, procurando lugar para agasalho das larvas.
O animal no mato, providenciando o existir da vida. Um ferimento provocado por arranhão de pau, por espinho, por pegada de morcego, por espancamento em briga, por estouro de tumor. O afloramento leve ou fundo de sangue. Aí, cama de mosca-varejeira. Vem chuva. A água batendo no corpo do animal, amolecendo o pé dos chifres, amolecendo os cascos e os cascos se infeccionando: cama de mosca-varejeira. A fêmea com o paridor intumescido, umedecido, a mosca-varejeira já rondando no andar do cheiro. Pode pousar ali. Mas o rabo da fêmea sacode e sacode. A mosca vai e vem com dificuldade de futuro do seu querer. A fêmea pare. As pares descem, deixando os restos do parto pregados no paridor, nos quartos da parida. Uma mosca-varejeira, arrodeando, mais outro e mais outra e o inferno. A cria cambaleante, ainda no destreino de andar. A fêmea parida em trabalho de lambição, lambendo e lambendo a cria, retirando dela as impurezas do parto. O umbigo da cria mole, úmido, com cheiro de sangue novo. As moscas no insistir sem trégua, no querer de fazer pouso. Insistem que insistem, até conseguir. Infortúnio da cria.
As larvas deixadas na cama. O seu desenvolver rápido. Com pouco, um monte de bichinhos freviando em festa, se aprofundando na carne, enlarguecendo o campo do pasto. O mal-cheiro aumentando, chamando mais mosca, e mais mosca chegando, zunindo. Agonia funda. Agonia do futucar incessante dos morotós na carne, agonia das moscas atentando. O animal se sacode, joga a cabeça no ar, sacode o rabo, pula, lambe a bicheira, se a boca a alcança. Nesse lambe e lambe a bicheira, um ou outro morotó se abriga na boca, se instalando bem no pé dos dentes. A desgraça se alastrando e o animal em aperreio fundo. O animal não se agüenta. Desatina no mundo, na procura cega de alívio. Abandona a cria, abandona o rebanho, não come, não bebe. Procura moita, procura furna, que mosca-varejeira não gosta de escuro. E fica nesse aperreio sem fim. Sem a sorte de mão humana para ajuda, morte. Morte em profunda agonia. Agonia que faz o nascer de novas moscas-varejeiras.
Não será isso a moldura da vida, com todos os deuses e demônios?

Bicheira na cabeça de ovelha - F: ELopes


Bicheira no cheifre de ovelha - F: ELopes


Bicheira em boca de cabra - F: ELopes


Bicheira no casco e na pá de ovelha. O ferimento da pá foi por explosão de tumor, a do casco, por doença adquirida pela molhação - F:ELopes


Bicheira na cabeça de carneiro, nascida no pé do chire, em consequência da molhação - F:ELopes


Carneiros com bicheiras nascidas no pé dos chifres - F:ELopes


Bicheira no lombo de ovelha, adquirida por pegada de morcego - F:ELopes


Tratamento de bicheira: uso de óleo queimado, após a colocação do mata-bicheira - F: ELopes


Bicheira no umbigo de cabrito. Esta só tem 14 horas de existência - F:ELopes


Bicheira no paridor de uma cabra. Se ampliada da para ver as varejeiras, a mosca-varejeira e o estrago feito - F:ELopes



Turquia

Esmeraldo Lopes

Turquia dentro de uma lagoa - F: ELopes



O porquê do seu nome, não sei. Perguntei, mas ninguém soube me responder. Também não sei se é uma planta específica da Caatinga ou se habita as terras de outros lugares. O que sei, é que ela se apresenta sempre solitária, nos perdidos do mato, estampando o seu verde em folhas fiapentas, que se fecham nos galhos adensados, jogando sombra no chão.. No meio das folhas, se confundindo com elas, com um pouco do passar das primeiras chuvas, as vagens compridas, carregadas de sementes. Sementes verdes, os meninos fazem voltas para levá-las à boca, após o debulhar das vagens. Quando as vagens secam, as sementes pipocam de entro delas, se espraiando na terra. Aves, alguns bichos do mato, alguns bichos de criação apanham as sementes no chão No mais, no mais, uma árvore no mato, sem notabililzação para olho miúdo.
A turquia da foto está dentro de uma lago. Nasceu lá, e não sei como sobreviveu à inundação de todos os anos. O certo é que se botou onde está para gracejar os olhos de quem, saindo do embrenhado da Caatinga, topa com ela.

Lagoas

Esmeraldo Lopes

Nos tempo do tempo sem chuva, só olho de conhecimento de quem conhece sabe ver o lugar que se faz lagoa, no despencar das águas do céu. A lagoa está lá, seca, se mostrando pelo descer suave do chão, no formato de prato raso, com as bordas carregadas de mato pendendo para dentro dela. No centro, ou em algum ponto lateral, quase sempre uma ou duas baraúnas, algum pé de marizeiro. Em todo o correr do prato, cangaços de muçambês, pés de pião dormindo em nudez de folhas. No olhar para baixo, os afundados de rastros na terra seca, e o chão cheio de rachados. No dizer da coisa certa, não é lagoa, mas leva esse nome pela necessidade de nomeação dos lugares, que todo ponto marcador de espaço recebe batismo com direito a nome sabido. Assim vai, que por existirem muitas lagoas, vem a precisão de fazer um nome de complemento: Lagoa dos Patos, Lagoa da Imbira, Lagoa do Tigre, Lagoa da Pedra Preta... Com água ou sem água, lagoa. Mas quando o aguaceiro desce, o azul do céu, as sombras das árvores se transportam para o espelho da água serena, barrenta. Os piões se enfolham, os muçambês renascem, o mato das bordas esturra no despontar das folhas verdes, plantas de água explodem com vida na apreciação do mundo, os pássaros estalam, as abelhas, os bizouros fazem os seus zuuuus, em um ir e vir sem parar, os patos fazem caminho no ar, na direção delas, o criatório se aproxima no insistir de todo dia. Aí, lagoa de vera: vida. Vida perigosa, que no primeiro ajuntar de água o criatório, sobrevivente da seca, está fraco, sem se agüentar nas pernas. Na gulodice de matar a sede fica enfiado dentro dela, se transformando em comida de carcará, de urubu, em morte de dor sem tempero de alívio. Água em lagoa, terra do mato molhada, rama saindo, capim crescendo, os bichos pegando força nas carnes. Agora, lagoa sem assombro, que as éguas, os touros, os bois e vacas se embrenham no meio delas sem temor de atoleiro. E a festa fica assim até o minguar vagaroso das águas, trazendo de volta o assombro da seca.

Lagoa - F: ELopes

AGUACEIRO

Esmeraldo Lopes
O despencar das águas das primeiras chuvas levou à morte a criação miunça e graúda, que estava no cambalear da fraqueza. Nisso não houve surpresa nenhuma, que os caatingueiros assistem todos os anos o repetir do sempre. Assustaram-se com a morte de um monte de ovelhas seguras nas carnes, coisa que já vem acontecendo de três a quatro anos para cá. No começo, o tino da mente sinalizava morrinha, mas depois os veterinários falaram em um nome nunca ouvido, que no miúdo da língua inteligível quer dizer frio exagerado. É que todo o rebanho fica exposto à chuva e a criação de ovelha, segurando água na lã, amolece e tomba. E cada caatingueiro soltou o balanço do prejuízo tido, do prejuízo ouvido, ouviu com atenção a notícia da quantidade de criação perdida pelos outros. É uma conversa de desentender o estrangeiro, que não há lá esses lamentos. A terra molhada, os riachos roncando, as lagoas e os tanques cheios de água alegram a desanimação, que o que importa é a certeza que o que sobrou reporá o perdido. E a conversa é chuva. Mais chuva em um lugar, menos chuva em outro. Depois as conseqüências: rama brotando; babugem saindo; os imbuzeiros carregados; os bichos pegando carne; a criação emprenhando; a labuta atrás do criatório; a pegação de vaca parida; os cuidados com os bichos que pegam bicheira; leite; coalhada, imbuzada; requeijão; carne de criação gooorda!; queijo; o mato se fechando em verde... o verde.
No verde, o criatório que até pouco tempo rebeirava a casa clamando por um grão de qualquer coisa, que olhava o caatingueiro com a mansidão da fome, agora, se encontrado no mato, estica o rabo e se embrenha na Caatinga como se nunca tivesse visto gente antes. Os caatingueiros os seguem pelos rastros, para a verificação de sua condição. E vão andando atrás do criatório arredio. Nesse andar, assuntam o mato com os olhos, com os ouvidos. Avistam os rebanhos fugindo, os patos trilhando no céu, voando na direção das lagoas; periquitos, jandaias, papagaios barulhando em todas as direções; vêem no chão o sinal de movimento de peba, de tatu; escutam os toques dos chocalhos, o estalar desencontrado do canto dos pássaros, o canto da seriema e o ronco perdido de alguma ema. Não. Não há mais canto de canários, nem rastro de mixirra, nem barulho de porco queixada, nem mexido de tatu-bola. São coisas do passado. Ah!, há os cangaços, filhos da seca, mas estão afogados pelo capim panasco, pela malva carregada com flores amarelas, pelo mata-pasto. Diante deles, apeiam, olham as ossadas de perto, na procura de chocalho. É andar para frente.
O verde apaga a seca, espanta a tristeza. Que o mundo se alegre com o riscar dos relâmpagos, com o estrondar dos trovões. Aguaceiro de cima abaixo. Assistir o correr abundante das águas.

Aspecto da Caatinga no verde - F: E.Lopes


Aspecto da Caatinga quando chove - F: E. Lopes


Caatinga verde. No primeiro prolano um pé de pião, no fundo, um pé de imbuzeiro - F: E.Lopes


Baraúna no enverdecimento - F: E.Lopes


Água represada sobre uma cacimba - F: E.Lopes


Cangaço da seca - F: E.Lopes


Canganço afogado pelo mato verde - F: E.Lopes


Casa e plantação - F: E.Lopes


Da esquerda para a direita: Elvécio, Jaime e Miquéias, campeando na Caatinga - F: E. Lopes


No verde, o gado mais manso, enche a barriga logo cedo e vem descansar no terreiro - F: E.Lopes


Imbira florida. Dela os caatingueiros retiram a casca para a serventia de amarrar o que for preciso - F: E. Lopes


Há imagens de imburana seca. Eis aí uma imburana no esplendor do verde - F: E. Lopes


O verde explode, mas... olhe aí o rastro da seca representada pelo mandacaru degolado para alimentar o criatório - F: E. Lopes


Com as primeiras chuvas as malvas brotam e oferecem o primeiro alimento para o criatório. Depois flora, para a alegria das abelhas e da criação - F: E.Lopes


Ovelhas à espera da queda de imbu - F.E.Lopes


Pau-ferro florido - F: E.Lopes


Água represada por pequena barragem - F: E. Lopes


Riacho, após corrida das águas - F: E. Lopes


Júlio, homem da Caatinga, saindo para pegar animal de montaria em tempo de verde - F: E.Lopes

ESTADO DE ESPÍRITO

Esmeraldo Lopes

Não é bem sobre pobreza que as letras vão ser gastas aqui. As gastarei brevemente falando sobre o estado de espírito de algumas pessoas que vivem na Caatinga. Como já dito em outros lugares, nas áreas onde a criação é extensiva, o criatório pasta livre, não precisando ninguém dispor de muito mais que a propriedade de um terreiro para se estabelecer como criador. Em tese, qualquer um que possua um minguado de terra, por muito pobre que seja, pode fazer uma semente de criação a partir de uma miunça, adquirida por doação, por compra ou mesmo criando crias sem mãe, que os fazendeiros podem doar sem queixume. Encontram-se, na Caatinga, muitos criadores que dispõem de 400, 500, cabeças de miunças, e até de algumas cabeças de gado, cuja origem se inscreve no seio da população que nada tinha e que vivia do extrativismo ou da agricultura. Fizeram-se criadores a partir de “sementes” adquiridas pelo trabalho de vaqueirice, por compra de algumas poucas cabeças, ou criando crias sem mãe, dadas pelos criadores. Entretanto, há um número significativo de pessoas que não dispõe de criatório algum, ou apenas de raríssimas cabeças. Algumas localidades habitadas por gente com esse perfil têm fisionomia de pobreza alarmante, onde a fome se plantou de forma aguda, agora suavizada pela ajuda do governo via bolsa-renda ou aposentadoria dos velhos. Mesmo com essa ajuda significativa, a face não mudou: as casas são de taipa, mal cobertas, com pisos de chão-batido. Os terreiros das casas dessas localidades são desprovidos de galinhas e as vistas não podem alcançar a imagem de chiqueiros, simplesmente porque eles não existem. Apenas o arremedo de casa e a imagem de uma criatura dão sinal da existência de vida humana por ali. Ao me defrontar com uma situação desse tipo, perguntei: “De que o senhor vive?” Resposta: “Tiro casca de angico e vendo. Ói minhas mãos como são”. “Por que o senhor não cria nada já que vive aqui na Caatinga onde todo mundo pode criar que o pasto é livre”. Resposta: “Sabe por que não crio? Porque se o senhor me der uma galinha, eu mato para comer com meus filhos; se o senhor me der uma cabra, uma marrã, eu mato para comer com meus filhos”. Mirou um cachorro que estampava os ossos à mostra e disse: “Tá vendo esse cachorrim aí? É ele que dá comida pra nóis, que é bom pra pegar tatu, peba e outros bichos do mato. É ele a valença de nóis”. “Então, já que aqui é assim, já que o senhor não cria nada, porque não vai para a cidade?” Resposta: “Meu lugar é aqui, que aqui eu já conheço e sei como é que vive”.
De outra vez encontrei um sujeito construindo uma “casa” que teria as paredes de taipa. Embora nos arredores da construção houvesse árvores altas, a madeira que havia usado para fazer a armação não permitiria que alguém pudesse adentrá-la sem se curvar à baixura dos peitos. Perguntei o motivo de não haver ele escolhido madeira mais alta. Resposta: “Dá muito trabalho pra trazer pra cá, e depois, com parede alta o trabalho é maior para fazer o enchimento. Assim tá suficiente”. Ao redor dele, uma velha, a sua esposa, e algumas crianças, cujas mães, que “vivem arribadas no mundo”, só aparecem quando estão grávidas ou quando vem deixar mais um menino para os avós criarem. Nessa localidade vivem sete famílias, todas aparentadas, e só uma tem um pequeno chiqueiro com umas trinta cabeças de cabras, mas se queixa de roubo: “Aqui a perseguição do ladrão é grande”. “De onde vêm os ladrões?”´, perguntei. “É gente daqui mesmo”. Todos dizem que vivem da agricultura, mas a área cercada para plantio é ínfima e as chuvas não têm permitido resultado.
No comum, constituindo o contrário rara exceção, os cartões através dos quais recebem o dinheiro da aposentadoria, ficam empenhados nas mãos dos comerciantes onde compram fiado, e já estouraram o limite para empréstimos. A moçada, descendente dessa gente, raramente se sujeita a trabalho de ganho por dia. Embrenha-se na Caatinga e vai matando os pés de angico e de jurema, pela tiração de casca, ou se põe a devastar tudo o que é bicho do mato, tanto os que voam como os que andam pelo chão. Outro expediente é fazer filho, para ganharam o auxílio do governo. Vi um sujeito de uns vinte e três anos chamando a companheira de rapariga. Dizia ele que ela engravidara de outro. Perguntaram por que ele não a largava. Ele respondeu: “Vou registrar o menino no meu nome, assim ganho mais uma bolsa-família”. “Por que vocês não têm criatório?” “Porque é uma coisa e é outra e logo ou a gente mata ou vende”.
Isso é pobreza? Não. Isso é estado de espírito de pobreza. Só o “santo presidente” e a turma da inclusão abstrata podem “resolver”.

Casa em construção em uma localidade da Caatinga - F: E.Lopes


Sombras - F: E.Lopes

BARAÚNA

Esmeraldo Lopes

Na Caatinga, esse negócio de outono, inverno, primavera, verão, conforme falam os outros, é coisa que não se sabe direito o que é. Aqui, verão é o tempo de seca. Tempo de inverno é quando começa a cair um chuveirinho sem graça. Em verdade, o tempo do inverno não é bem um tempo, é um atrapalho. O outro tempo é o das chuvas, que faz o verde explodir. No resumo da conversa, o melhor é dizer que na Caatinga só há dois tempos: o tempo de verde e o tempo de seca. Mas esses tempos não podem ser indicados com marcação de calendário. O tempo é marcado pelas chuvas, e elas desabam sem observância de previsão segura. É verdade que entre maio e outubro elas só aparecem por ação de milagre, que são esperadas entre novembro e março. Esperadas, mas sem certeza certa de que elas apareçam.
Tudo, na Caatinga é regulado pelo aparecimento das chuvas. Como é assim, não se pode dizer de modo seguro, que uma planta vai brotar em tal época e que vai frutificar em tal, com toda a certeza. A linguagem certa é: espera-se, conforme o tempo em que caiam as chuvas. Quando elas findam, o mato mantém o verde, que vai se amarelando e sumindo. Primeiro as plantas pequenas vão secando, depois os arbustos, por fim as árvores. No meio destas, umas seguram as folhas verdes por mais tempo, até que só algumas se mantêm com folhas verdes, assinalando vida colorida no meio do acinzentado do mato em sono. A baraúna é assim. Ela arranja força para alimentar o seu verde buscando água nas profundezas do chão. Carreiro de baraúnas seguindo enfileiradas pelo chão é sinal de veios de água correndo por baixo.
Baraúna, planta nobre da Caatinga. Suas galhas se espalham em desajeito na formação de sua copa, e a sombra que faz é cheia de pintas de sol. Sua madeira é dura e o caule é linheiro, nem grosso e nem fino: consistente. Os meninos, as lagartixas, algumas aves, procuram nos catombos que pipocam em seu tronco se agradar com o doce sem doce de sua resina; os cupins, subindo tronco acima, constroem suas moradas no enforcamento de suas galhas; os pica-paus, futucam e futucam as moradas dos cupins para comê-los, e nisso abrem buracos, e, nestes buracos, jandaias, periquitos e papagaios se abrigam para fazerem seus ninhos. As mulheres... ah!, aquelas que foram bolidas nos segredos do mato, quando sentem faltar a menstruação, saem escondidas, armadas com facão para tirar casca de baraúna e fazer infusão, com a intenção de expulsar um intrometido que ameaça crescer dentro da barriga. No assuntar de uma baraúna descascada, já vem logo a sentença: “Tem mulher se metendo a esconder safadeza”. Como já dito, a planta é medicinal serve para tratamento de muitas doenças.
Baraúna, planta alta, chamariz de relâmpago, que é comum depois de tempestade avistar-se o bagaço feito pelo raio. Chama raio, e espíritos sem pouso, que fazem encosto nela e assombram os viventes no turvo da noite.
Entra a seca, e no seu apertar, lá pelos meses de outubro, quando o mato está quase todo sem folha e os bichos em fome agonizante, as baraúnas soltam suas flores, depois seus frutos e suas folhas. A criação acorre a elas para se aliviar. Os caatingueiros olham isso com desconfiança, que dizem que o que a criação come dela gera aborto, mas é o socorro que ela tem, que as baraúnas são o último recurso espontâneo da natureza, quando as chuvas se atrasam. E se as chuvas se atrasam, no perder das folhas, as baraúnas passam a compor o acinzentado do mato. Mas quando as primeiras águas se despejam, todo o mato arrebenta em brotos, com as folhas novas tomando corpo e a imagem fica assim, como esta que se estampa na foto, distinguindo-se a baraúna apenas pelo destaque do tamanho.
Os caatingueiros passam entre as baraúnas e fazem seus julgamentos: baraúna boa para mourão de cerca, de porteira, para linha de casa. E descem os machados nelas. De uns tempos para cá, os viticultores viram nelas coisa de preciosidade para sustentação dos parreirais, e a madeira desceu sem pena. Caminhões e caminhões saíram a levá-las para a construção da glória da planta estrangeira, cultivada com o carinho da irrigação. A irrigação progride, a Caatinga fenece.

Baraúna, no cair das primeiras águas - Foto: Lívia Nascimento

RECEPÇÃO DA DESGRAÇA

Esmeraldo Lopes
No correr das décadas de 1950 e de 1960 e até os anos 70, a caatingueirada debandava da Caatinga e se emburacava nas trilhas que levavam a São Paulo e a outras regiões ao Sul do país. Os rapazes sempre saíam carregados com a esperança da melhora de vida, para um dia voltarem com o brio das personagens das histórias fantásticas que ouviam nos terreiros. Quando do retorno, seriam admirados e se poriam de par com as pessoas que julgavam bem-sucedidas. Alguns faziam volteio tão logo entendiam a distância entre o que haviam sonhado e o que os tinha a esperar; outros se plantavam e acabavam ficando, para retorno de saudade só de quando em quando, e houve, entre eles, quem tenha esquecido do lugar de seu nascimento, até mesmo sem a consideração de envio de carta para os parentes. Mas quem ia não eram apenas os rapazes. Pais-de-família também rumavam nesse itinerário. Muitos saíam por determinação provisória do tempo, só se desfazendo do necessário ao custeio da viagem. Chegando ao destino, arranjariam um meio de ganho e proveriam a família que ficara distante. Tão logo o tempo rúim se suspendesse, retornariam para o comum da vida de sempre, mas havia também os que arribavam com toda a família, embalados pela desesperança de progresso de vida no seu lugar. Não é que quisessem ir, havia um imperativo para que fossem. No Sul sempre havia agasalho. Era só uma questão de adaptação, de suportar as diferenças, de encarar o que fosse preciso, o que aparecesse, e sempre aparecia algo para ser encarado. Outro tempo.
Encurte-se a história. O mundo mudou. Os caatingueiros de hoje não vêem vantagem em quem sai. As coisas na Caatinga não são mais as mesmas. Há possibilidade de assistência médica, os carros carregam as crianças para as escolas, existe o bolsa-renda, a aposentadoria dos velhos, transporte, acesso a crédito e o mato se encheu de estradas por onde motos e carros velhos fuçam sem descanso. Isso não é uma beleza? Ponha-se interrogação. A Caatinga está mais habitada, a vegetação ficou mais pobre, os métodos de trabalho são os mesmos de antes, o criatório não gera a renda precisa, o anseio de consumo chegou, a violência campeia, os vícios do mundo urbano lhes penetrou. Na Caatinga, quem não tem aposentadoria, quem não está inscrito nos programas de ajuda do governo, se queda na raia do desespero. Por que então não saem? Porque sabem que não têm para onde ir. As exigências do mundo de fora não lhes permitem mais agasalho. Se vêem isso na degradação alarmante dos que teimaram, vêem muito mais naqueles que de longa data partiram e que estão a voltar.
Vários dos caatingueiros que partiram estão agora a voltar. Nos lugares onde se assentavam viviam como operários ou ganhando a vida em atividades informais, habitando em periferias. Acostumaram-se com outro ritmo de vida, se despiram dos escrúpulos que carregavam ao sair. Seus filhos cresceram no submundo da vida besta, sem freio de respeito, mergulhados em um existir sem caminho de decência. Inadaptaram-se para a vida nos conformes das imposições formais da convivência. A classificação que se lhes pode caber: párias, marginais. O mundo mudou. Os pais também se viram em desalinho com o lugar. Põem-se no caminho de volta trazendo suas tralhas entulhadas de vícios urbanos. São bem recebidos. Encontram a terra que deixaram, que seus pais lhes deixaram a seu dispor. Quando não têm terra, encontram abrigo nos abraços de satisfação. Frustram-se. Querem que a Caatinga lhes ofereça o que não encontraram onde estavam. Não se ajustam ao que ela tem a oferecer. Rompem com os parentes, se incompatibilizam com a vizinhança. Não são mais da Caatinga. Os filhos nunca foram. No dizer dos caatingueiros, são do mundo. E, ao chegarem, vão botando os olhos nos arredores mansos, descobrindo as potencialidades do mais fácil explorar: cultivo de maconha, tráfico de drogas, assalto nas estradas, ataques a residências, roubo de criatório, engajamento dos jovens caatingueiros na bandidagem. Conhecem a estrada e as pedras do caminho do crime e não se importam com tropeços que venham a acontecer. Ligam a Caatinga com os centros de bandidagem. A polícia vai à Caatinga, a Caatinga vai à polícia e a vida vira um inferno. Um inferno que tem como cães a descendência e grande parte dos que voltaram.

IMAGENS

As imagens que seguem foram colhidas no dia 30 de dezembro de 2007. As chuvas continuam esperadas, mas não vieram ainda. Parte do criatório está na ração, para loucura de seus donos.
Dizem que ovelha morre calada. Não é verdade. O berreiro delas, quando estão com fome, é uma coisa de cortar o coração e de agoniar a paciência. Berram e berram, e correm atrás de seus donos exigindo providência. Juntam seus berreiros com o berreiro das cabras e aí o mundo vira um palco de lamentação.
Lamentação não é o intuito da exibição das imagens. Quero mostrar algumas cenas do dia-a-dia na Caatinga. É só isso. Serei breve nas legendas. Completem as cenas com a imaginação.

Bombando água de cacimba moderna com engenho de introdução recente. Preocupação com a limpeza da água.Faz. Poço Comprido F: E.Lopes


Deró, o proprietário, bombeando água. F:E.Lopes


Marrã muvu. Criação muvu é aquela que tem orelha atrofiada. F: E.Lopes


O bode foi pai-de-chiqueiro. Depois foi capado e hoje tem sete anos e aproximadamente vinte quilos. Chifres adequados para enfrentar os cactos. Será vendido para abate. F:E.Lopes


Pai-de-chiqueiro exótico, de raça leiteira. Não aguenta a dureza da Caatinga. Com esses chifres ficaria enganchado nos paus. Alguns caatingueiros dizem: "Ração vem de raça". F: E.Lopes


Garrotes de dois anos chegando na fonte - F:E.Lopes


Jumentos esperando a abertura da porteira da fonte. O que fazer deles? - F:E.Lpes


Gado esperando pela abertura da porteira da fonte - F:E.Lopes


O garoto é Gustavo, filho do vaqueiro. Ele brinca ao redor da fonte, esperando o pai dar água à criação - F:E.Lopes


Cena caatingueira: vaqueiro, gado e criação se desocupando da fonte: F:E.Lopes

Trato com o gado: medicação. Deró, o pai, Deró, o filho, e Paulo, o vaqueiro F:E.Lopes


Labuta com o gado. Deró, Derozinho e Paulo - F:E.Lopes



Passarinhos bebendo em uma pequena poça na beira do bebedouro - F: E.Lopes.


Criação bebendo no bebedouro - F:E.Lopes


Vaca de oito anos - F:E.Lopes


Vaqueiro lançando ração para as ovelhas - F:E.Lopes


Manuseando a criação - F:E.Lopes


Ração para as ovelhas- F:E.Lopes


Ração para a criação - ver detalhes- F:E.Lopes


Pai, mãe, filho e neto dando ração á criação - F:E.Lopes


Cavalo de campo na Caatinga - F:E.Lopes


Leiam a foto - F: E.Lopes


Tronco de cipoeiro e baraúna em um baxio. F:E.Lopes



ASPECTOS DA CRIAÇÃO MIUNÇA NA CAATINGA

Esmeraldo Lopes
Na vida e da vida, a gente pode esperar o que quiser. Daí a ocorrências de grandes frustrações e atropelos. É o que sucede com o olhar de órgãos governamentais; de profissionais do ramo agropecuário com formação na estratosfera limitativa de uma paranóia chamada ciência; e, mais recentemente, dos onguistas de plantão, sempre na cata de uma boa oportunidade para fazerem jeito na vida. Pois bem, a tropa que compõe o naipe citado, faz tempo, resolveu se botar nos cuidados com os caatingueiros. O primeiro decreto foi: “Os caatingueiros fazem tudo errado”. O segundo decreto: “Vamos ensinar o certo a eles”. Com esses dois decretos passaram por cima de 400 anos de aprendizado e de conhecimentos acumulados pelos caatingueiros na lida com o criatório e de vida na Caatinga. Se muniram com os conhecimentos obtidos em regiões com clima, vegetação e condições adversas e começaram a enfia-los na caatingueirada. Decidiram que deveriam melhorar a raça do criatório e os métodos de trabalho. Vou ficar só nisso, que o leque de imposição é grande. Tão grande quanto desastroso. A lenga-lenga ou a anunciação de milagre: carneiros, bodes que com seis meses vão pesar trinta quilos; cabras que vão produzir três litros de leite por dia; parição segura duas vezes por ano; o rebanho vai dobrar a cada parição... Orientações quanto ao tratamento do criatório: vacina disso, vacina daquilo, vermifugação, medidas sanitárias, construção de infra-estrutura, capação com dois meses de vida das crias, apartação entre crias e mães com dois meses, abate com quatro, no mais tardar, seis meses... E assim seguiram e seguem nesse converseiro. A caatingueirada olhado, assuntando, esticando os olhos, se admirando, balançando a cabeça em afirmação aos dizeres ouvidos, rindo por dentro. O que acontece? Conversa entre mudos, cegos e surdos no escuro. Os técnicos não conseguem entender nem os caatingueiros e nem a Caatinga; os caatingueiros não podem entender os técnicos, não porque lhes falte raciocínio, mas porque sabem que o que eles carregam nas palavras não passa de alucinação aveludada.
Anos e anos desse batido, e os caatingueiros do mesmo jeito, os técnicos frustrados e o governo teimando nas mesmas burragens, mergulhando na ignorância. O saldo está nas imagens abaixo.
Quero deixar claro que não sou contra mudanças. Eu, como os caatingueiros que conheço, carrego a convicção que o sistema de criação existente não consegue responder às necessidades do momento em que vivemos, que ele está mais que superado. Entretanto, como os caatingueiros, não vi ainda nenhuma proposição consistente. Ao contrário, só tenho visto proposta alucinatória. Se tenho proposições? Tenho, mas como tudo que produz eficiência, são complexas. O primeiro ponto delas é: enxerguem a Caatinga, os caatingueiros, seus estilo de vida e aproveitem seus conhecimentos.

~Lambedouro - criação de bode suprindo na terra suas necessidades de sal - F: E.Lopes


Gado e cabras lambendo terreno salino - F: E.Lopes


Marrão de um ano, nascido êm perído de seca, todo empestado - F:E.Lopes


Borregos de cinco meses comendo ração - F:E.Lopes


Cabras amamentando marrãos de oito meses - F: E.Lopes


Marrão e um ano e cabrito de dois meses - F:E.Lopes


Cabritos de dois meses nascidos em mês de seca, à espera das mães - F:E.Lopes

Carneiro de três anos - erado - avaliação: 16 quilos F.E.Lopes


Carneiro de três anos, capado por ser lanzudo, impróprio para a região - F.E.Lopes


Borrego de dois meses, com pano vermelho no pescoço para afugentar gato-do-mato - F: E.Lopes


Cabras no chiqueiro - F: E.Lopes


Caatingueiro tirando leite de cabra - F:E.Lopes


Menino tirando leite de cabra - F:E.Lopes


Magote de carneiros erados, com quatro anos, capados e colhudos na seca - F.E.Lopes


Vaca parindo no curral em tempo de seca (esta morreu) - F:E.Lopes


Imagem da criação que os nativos de Marte querem para a Caatinga - F: extraída de publicidade de evento sobre bode

RUÍNAS

Esmeraldo Lopes
Hoje, não vou expor animais ou vegetação, nem vou escrever sobre seca ou verde. Vou expor imagens de algumas ruínas encontradas nos municípios de Curaçá, Abaré e Chorrochó, todos na Bahia.
Houve um tempo em que a morte tinha valor. Cuidava-se dela mais que da vida. E a vida era um caminho de preparação para a morte. Com olho nela edificavam capelas, igrejas, cemitérios e sepulturas. Nas capelas e nas igrejas, atentava-se para o preparado do caminho para o Reino do Céu. Nos cemitérios, nas catacumbas, os resguardos da vida eterna. Cemitério era coisa séria. Tão séria, que os vivos carregavam os mortos nos ombros por distâncias de até trinta quilômetros, só para darem agasalho a um defunto em um Campo Santo. Lugar seguro contra investidas do diabo sobre almas incautas. E neles, os que podiam construíam sepulturas capazes de suportar a eternidade do tempo. Sepulturas que estampavam atenção arquitetônica superior ao plano de construção da própria residência. Mas o tempo passou e saiu corroendo edificações e mentalidades. E vendo o que abaixo se verá, me dei que os cemitérios também morrem, tendo por túmulo o abandono, caminho do pleno esquecimento. Essa idéia me veio quando uma senhora ao mirar a ruína de um cemitério disse: “Aí era um cemitério do povo do outro século”. Era como se aquela ruína fosse um mero acidente geográfico, ou qualquer coisa, sem merecimento de consideração de uma reza, de uma meditação, ou de medo das almas ali plantadas. Senti que as almas dali morreram também. Mas elas tiveram uma glória: no seu tempo de vivas, foram objeto de atenção carinhosa.
Assim como há os cemitérios mortos, há aqueles que não estão nem mortos e nem vivos. Seus muros ruindo, as catacumbas desmoronando e servindo de rancho para abelhas, e os moradores de seus arredores enterrando seus mortos neles sem dedicação de nenhum cuidado. A coisa fica tão assombrosa, que as catacumbas seculares, mesmo com toda a sua decrepitude, conseguem se sobrepor às sepulturas, ou melhor, aos arremedos de sepulturas recentes, criando uma paisagem de desalento diante da morte e diante da vida. O que esse cenário denuncia é que os vivos desses lugares perderam as forças, e de tão fracos, buscam refúgio nos restos do passado, lhes enfeando e avançando o seu ruir. Transformaram-se esses cemitérios em locais de despejo de corpos, que são esquecidos com a mesma rapidez com que são enterrados. Fazendo meia volta, aqueles corpos ali enterrados, quando em vida, se carregavam com algum significado de si? Os vivos perderam a capacidade de sustentar a morte.
Não só os cemitérios são vitimas dessa desatenção. Também os templos. É o caso de uma capela freqüentemente visitada por pagadores de promessa que nada mais fazem que contribuir para a sua destruição. O telhado deslocado pelo vento e cactos crescendo sobre ele; paredes rachadas; porta quebrada e um monte de ex-votos jogados no monturo. Nada, mas nada mesmo aponta a presença de alguma mão de cuidado.
Se não se dedica cuidado aos mortos recentes, por que poderíamos cobrar cuidados com urnas funerárias que brotam da erosão e que são destruídas pelo pisar dos animais? E por que devotar preocupação com os vestígios de animais pré-históricos?

Cemitério morto - Brejo (Curaçá - BA) - F:E.Lopes


Capela e cemitério - Lagoa de Zé Alves (Chorrochó - BA


Ruína de cemitério - Patamuté (Curaçá - BA) - F:E.Lopes


Cemitério de Pambu (Abaré - BA) - F:E.Lopes


Tumba do cemitério de Pambu


Tumba do cemitério de Pambu - F:E.Lopes


Tumba e muro caído do Cemitério de Riacho Seco (Curaçá - BA). Construção orientada por Antônio Conselheiro - F:E.Lopes


Capela de visitação de romeiros - Pedra Branca (Curaçá - BA) - F:E.Lopes


Cruzeiro no interior da Capela - F:E.Lopes


Ex-votos inscritos na parede interior da Capela - F:E.Lopes


Ex-votos inscritos na parede interior da Capela - F:E.Lopes


Urna funerária (indígena) emergindo por força da erosão - Curaçá - BA.


Resquício de animal pré-histórico aflorando pela erosão - Curaçá - BA



A CARA

Esmeraldo Lopes
Caatinga adentro, lá pelas três horas da tarde. O sol batendo nas costas A quentura subindo do chão. O chiado dos paus secos, das folhas caídas, esturricadas, saindo de debaixo dos pés. Tocos de árvores mortas se expondo no seguir de qualquer direção. Imburanas, imbuzeiros, carquejos, candeias... se fingindo de defuntos. Os paus-de-acauã, finos, roídos pelos jumentos, em decreto de morte. Naquele embrenhado, só as baraúnas dando lembrança de verde. Ah!, também os cactos. Uns pingados de cactos, que apenas as palmatórias, pela proteção dos espinhos, escapando da boca dos bichos. O verde pálido delas contrastando com o disposto ao redor de cada uma. Contraste fraco do verde sem brilho, mas suas flores pipocando no aceno do vermelho-vida, fazendo zombaria ao rigor do tempo, chamando atenção. No mais, o tapete de morte cobrindo todo o chão. Um olho nos garranchos, outro nas redondezas do pisar, que mordida de cascavel em um torrão daquele não deixa escape para vida. No quase invisível do tapete de morte, o rebento de um rabo-de-raposa. A vida nascendo da morte. Jió, o meu acolhedor e guia, parado, admirado com o gesto desatinado de meu ajeitamento para a fotografia: “É doido mesmo. O que você está filmando aí?”. Um rabo-de-raposa nascendo da morte. Simplesmente isso. Isso simplesmente.
Na noite do dia antes, falávamos sobre o Zumbi. “Ninguém nunca viu um Zumbi”. As crianças se apavoraram, as mulheres quase nos expulsavam de casa, temendo a atração do ser desconhecido. Fomos para o sono. Os homens adultos se apagando pelo enfado, as mulheres e as crianças se assombrando, rezando, ouvindo imaginação do chamado do Zumbi.
Na minha casa. Transfiro as fotos – muitas fotos – para o computador. Mania de quem fotografa: apreciar de uma por uma. O susto: “Que diabo é isso?” O coração pulsou. Todo o assombro das mulheres, das crianças saltou como um relâmpago em mim. “O que é isso? Não, isso é imaginação”. Ampliei a imagem. “Porra! Esse negócio de economia só dá em merda!”. Foto com pouca resolução. Mas deu no que deu. O resultado está nas duas últimas imagens. Inexplicável. Mistério da Caatinga.

Assombro da seca - palmatória - F:E.Lopes


Vermelh-vida da flor de palmátória - F:E.Lopes


Rebento de vida na morte - F:E.Lopes


Alma da Caatinga - F:E.Lopes


SALA DE CASA DE CAATINGA

Agora que me veio a idéia. Não podia adivinhar, que a gente não pode sair por aí fotografando tudo o que se oferece às vistas. Podia esperar para fazer acervo. Mas eu quero agora e pronto. Pelas fotos abaixo dá para se fazer idéia a respeito do que é uma sala de casa de Caatinga. Anteriormente já descrevi a estrutura das casas. Misture uma coisa com a outra e firme sua própria imagem.
Em casa de Caatinga, sala não era apenas para conversa. Era também o lugar de guarda dos arreios, mas agora isso está começando a sair de uso. As mulheres caatingueiras estão botando moral no lugar de seu mando. Obrigando os homens a darem providência de outros ambientes para guardarem seus objetos de trabalho. É claro que nisso há confusão, que as coisas vão acontecendo aos poucos. A sela, por exemplo, só em algumas casas as mulheres conseguiram expulsar. No geral estão penduradas nos armadores das salas, como símbolo certificador da condição de casa de vaqueiro. Mesmo que o proprietário não dê mais campo, a conserva lá, em lugar de observação de vista primeira.
Em casa em que a mulher está liberada do briquitar com os bichos, tudo se encontra na mais perfeita ordem de limpeza, das coisas nos lugares, permanecendo, entretanto o ar do ambiente caatingueiro. Mas mesmo assim, as cadeiras brancas, os sofás estão expulsando os bancos, as cadeiras de abrir e fechar. Se no passado as salas eram quase somente o lugar de guarda dos arreios, de agasalho dos corpos para o sono, agora, com a maior facilidade de vida, estão se transformando vagarosamente em espaço exclusivo de conversa, de recepção. Nelas, agora, já se vêem os velhos de corpos maltratados pelos serviços de campo, usufruindo o benefício da aposentadoria, se sentam para contar histórias aos netos, para conversar com as visitas, distribuindo experiências. Mas isso em alguns casos, que em outros, as salas continuam na feição completa do jeito do passado, servindo como espaço de guarda dos arreios, como depósito para ração. Casa de homem sem mulher, sala em desarrumo completo, que não há tempo para essas coisas de civilidade de gente sem muita ocupação.
Na primeira foto, o banco e os armadores de rede. Sala: lugar para os filhos dormirem e quem mais chegar. Assim o tradicional da Caatinga. Nas duas fotos seguintes, as selas. Na quarta, o jeito do ajeitamento de uma casa sem mulher. Depois a foto do Sr. Janjota, personalida do Sítio dos Alexandres, esbanja simpatia, dá aulas sobre como viver na Caatinga e convida: “Chegue mais, chegue mais”. Um chegue mais aprovado pelo sorriso acolhedor de dona Neném. Já aposentado, não se descuida do rebanho que conserva. Na última foto, o Sr. Bertoldo e dona Nazinha. Ele disponível para contar histórias, ela acompanhando o falar com sorriso.

Aspecto de uma sala tradicional. F: E.Lopes


Sala e sela. F:E.Lopes


Sela e sala. F:E.Lopes


Sala de casa sem mulher. F:E.Lopes


Laudice, em palestra. F:E.Lopes


Seu Janjota e dona Neném. F:E.Lopes


Seu Bertoldo e dona Nazinha


Epifânio - F:E.Lopes




Esmeraldo Lopes
Na foto, o vaqueiro Epifânio. Não é uma boa foto, que as pernas estão cortadas e o cavalo não aparece por inteiro, mas vá lá. Achei que era essa que deveria estar aqui, e assim está. O objetivo dela não é aparecimento com obrar arte. Poderia ser melhor, sei. Epifânio é simplesmente um vaqueiro médio, sem grandes histórias, mas é vaqueiro. Está aposentado, no sentido literal do termo, tomando suas canas e contando histórias, assumindo que não é mais, mas que já foi. Um orgulho ele carrega: “Nunca fui embrulho de couro”. Embrulho de couro é essa gente que se apresenta encourada nas festas sem, entretanto, dispor das condições mínimas exigidas para o trabalho de vaqueiro. Entre essas condições, viver na Caatinga e da Caatinga.
Outros há mais representativos, mas como não se trata de campanha eleitoral, o que interessa é o que está abaixo. Sei que os demais vaqueiros se acharão representados. A seguir, um pedaço do trabalho Caatinga e Caatingueiros, em feitura.
Os vaqueiros não constituíam propriamente um estrato. Tinham origem nas diversas camadas da população, e se caracterizam pelo ganho no trato de rebanho preponderantemente alheio, ou por vaqueirice, ou por trabalho esporádico. Entre os que trabalhavam por vaqueirice, alguns, cujo proprietário de uma fazenda os deixavam responsáveis pela administração. acabavam por se ombrear em termos de posse e posição aos vaqueiros-proprietários, mantendo inclusive na fazenda onde trabalhavam, o seu próprio rebanho.
É que estas fazendas, por normal, dispunham de uma certa quantidade de animais e, por conseqüência, a partilha sempre lhes rendia animais em quantidade satisfatória. Outros trabalhavam às vistas e às ordens diretas do fazendeiro ou vaqueiro-proprietário, com quem estivesse estabelecido contrato, dispondo de um mínimo de liberdade. Mas havia vaqueiros que ou eram vaqueiros tendo poucos animais sobe seus cuidados, inclusive em sua própria terra, ou não desenvolviam trabalho de vaqueirice. Caracterizavam-se como vaqueiros por desenvolverem atividades de campo, atuando por encomenda em casos específicos de pegas ocasionais de boi, junta de ovelhas, condução de boiadas, etc.
O termo vaqueiro era reivindicado e partilhado por todos aqueles que desenvolvessem trabalho que envolvesse os animais, indo além da simples denominação de uma relação de trabalho. Compreendia um conjunto de atividades estruturadas em uma rotina e em um estilo específico no trato com os animais. Essa denominação comum, que trazia implícita a partilha de atividades, relações e valores, conduzia a que estabelecessem livre circulação ente si, e também muitos pontos de identificação. Mesmo ficando perceptível as diferenças entre eles, pelo porte das montarias, dos arreios, dos couros que usavam, e da situação econômica, no trabalho de campo se igualavam, pois aí a habilidade no traquejo dos animais era o critério de aferição do grau de reconhecimento de cada um, e na busca do merecimento do nome de bom vaqueiro não mediam conseqüências. A própria natureza da labuta nas condições em que empreendiam, impunha como troco esse ombrear. Foi deste modo que a figura do vaqueiro se constituiu como o símbolo humano representativo da Caatinga.
O que é um vaqueiro, por fim? Vaqueiro é todo aquele que enfrenta a caatinga na brabeza dos animais, que sabe andar na Caatinga, que sabe capar um bicho, matar e tirar a pele de uma criação, que cura bicheira, que sabe derrubar, encaretar e encamboar uma rês, que tira leite, que dá água ao criatório, que sabe fazer sangria em cavalo afrontado, que sabe rezar em rastro de bicho com bicheira, que queima xiquexique e mandacaru, que tira rama, que conhece os paus e os lugares do mato, que conhece os sinais e os ferros do criatório dele e dos outros, que faz todo o trabalho de necessidade da fazenda.”Se aprende a ser vaqueiro na labuta com os bichos na Caatinga”.
Os vaqueiros comungam com os demais caatingueiros a condição de ter que resolver com os recursos da Caatinga e por meios próprios os problemas que os afligem. Entretanto, por força da formação histórica, das atividades serem as predominantes na Caatinga, e também da própria natureza e condições em que são empreendidas, desenvolveram um tipo de personalidade confusa, onde se encontram traços antagônicos, num misto de autonomia, dependência, altivez, subserviência, disfarce, individualismo e cooperativismo.
Agora, vaqueiros, cada vez mais um tipo folclórico. A criação de gado minguou, e o que existe está manso, que os espaços da Caatinga se fecharam em ocupação. Restam as conversas, as festas, onde eles aparecem sem destaque, sem brio, que os bichos intrometidos do asfalto lhes roubam o visual, e está aparecendo um novo tipo: o vaqueiro vestido com gibão de pelica. Pode? Este tipo aparece nos desfiles com cavalos de raça, com couros novos encobrindo peles macias e dizeres nos acordos das correções gramaticais. Depois dos eventos festivos adentram em seus carros e se abancarrotam em suas funções citadinas. Enquanto isso, os vaqueiros de verdade comparecem com seus cavalos surrados da vida no campo, e eles mesmos não conseguiriam disfarçar os rastros de pancadas nos corpos, a curvatura da estrutura física, obra do trabalho massacrante com que ganham a vida. Nos desfiles, aparecem no rabo da fila, como se suas presenças fossem objeto de enfeiamento.

ENTARDECER NA CAATINGA

O romper da madrugada se anuncia pelo claro despontando no fim do mundo. Não há mais lugar para esquentamento do corpo em sono, que os bichos não esperam. É preciso levantar com eles. Quando o sol bota a cara de fora, é dia. No dia, a quentura tremendo no chão, o suor, a sede dos bichos. O sol a pino. Não se sabe mais se a quentura vem do céu ou da terra. Os bichos procuram sombra, as pessoas procuram refúgio em casa, quando dá. O pender do sol, a claridade intensa, os olhos carecendo de proteção de sombra de chapéu. O sol continua a descambar e no seu descambo o calor vai diminuindo e o mundo mudando de tonalidade. O véu da noite caindo sobre a Caatinga. Os papagaios, os periquitos, cortando o céu, casal a casal, na procura do local da dormida, onde se reúnem em algazarra de gritaria. Não se sabe se por algum susto, ou se por pura brincadeira, de quando em quando, explodem das galhas das árvores onde se agasalham em revoadas espetaculares e, depois de alguns bailados de vôos sincronizados, tornam a pousar. As cabras, as ovelhas, o gado manso, chegando, povoando a malhada, se movendo com despreocupação e lerdeza. As galinhas procurando suas dormidas. As pessoas no caminho do descanso, com passos apressados, para chegarem em casa ainda com o resto do dia. E o sol desaparece, dando-nos adeus com sua vermelhidão.

Sombras da lagoa - F:E.Lopes


Revoada de papagaios - F:E.Lopes


Criação se amalhando - F: E.Lopes


Cabras chegando na malhada - F: E.Lopes


Galinhas se empoleirando em pé de faveleira - F:E.Lopes


Por do sol na Caatinga 1 - F: E.Lopes


Por do sol 2 - F: E.Lopes


Entardecer 1 - F: E.Lopes


Entardecer 2 - F E.Lopes

NO CAMINHO DO DESERTO

Não é conversa de ecologista idiotizado. Os caatingueiros de idade estão a dizer que o que resta de caatinga está estancando em uns quarenta a cinqüenta por cento do que ela era quando eles eram ainda meninos. Fazem descrição do que existia no passado à mostra do que existe no presente, e nisso arrolam o mato e os bichos do mato. Alegam que houve ataque do homem, dos bichos e efeito de ações climáticas. Os ataques dos homens pela queima de moitas de xiquexiques, de caroás, pela retirada de casca de angico - e agora de jurema também – pelo corte das árvores para a feitura de cercas ou para comércio.
Uma verdadeira praga: caçadores. Estão levando à extinção toda a fauna. O ronco das emas está cada vez mais raro, os veados estão quase desaparecidos, tatu-bola completamente extinto, tatu-verdadeiro e tatu-peba, com existência escassa. Para o ataque destes últimos tem caçador que utiliza bujão de gás, lançando gás com o auxílio de uma mangueira nos buracos. Alguns montam armadilhas e sempre usam cachorros, que não só eliminam as caças como atacam a criação de bode e de ovelha. Muitos fazendeiros, em resposta, disseminam veneno no mato para afugentá-los. Atacam também os papagaios, retirando os filhotes dos ninhos, na época da reprodução. Há lugares em que os caçadores se instalam aos magotes para promoverem o massacre da fauna, vivendo disso.
Dizem, os velhos caatingueiros, que os bancos fizeram grande ajuda na derrubada das árvores, quando os incentivaram a fazer cercas, para o que cortaram angicos, baraúnas, aroeiras, pereiros e outros paus. Com a instalação dos projetos irrigados, aí o pau quebrou, que os empreendedores da irrigação saíram comprando madeira onde ela estivesse. Mas os Projetos de Irrigação não consumiram madeira apenas para cercas. Assaltaram a Caatinga na busca de madeira nobre, tanto sob a forma de moirões como sob a forma de estacas, para a criação do suporte de videiras. Para cada hectare de videira, entre 714 e 952 estacas, e em torno de 50 moirões. Considerando que a Caatinga é pobre em árvores grandes, consumiu-se as árvores nobres de muitos hectares dela para apenas o plantio de um hectare de uva.
Alguns curtumes utilizam cascas de angico para o curtimento de peles. Nessa, vários caatingueiros investem sobre os angicos retirando-lhe toda a casca, levando a árvore à morte. Recentemente começaram a atacar também as juremas. Retiram-lhes as cascas, a árvore morre, depois vêm e retiram a madeira para venda. Fazem isso em terras alheias, e os criadores os odeiam. Sabem que cada árvore morta representa comida a menos para a criação.
As mineradoras facilitam a ação dos caçadores e dos tiradores de madeira. É que elas saem Caatinga adentro, abrindo variantes, dando passagem às pragas destruidoras a lugares antes inacessíveis. Ao abrirem variantes, saem derrubando todo tipo de árvore que encontram pela frente, desgraçando com tudo.
IBAMA? Face irresponsável da omissão. Pura perda de tempo fazer-lhe denúncia. Sua atuação resume-se à feitura e participação em seminários inconseqüentes.
Jumentos e cabras são verdadeiros predadores da vegetação. Atacam a coroa-de-frade, a faveleira, a imburana, a cansanção, o pau-de-besta, o caxacumbi, o xiquexique, o mandacaru e quase toda árvore ainda no nascimento.
Os velhos caatingueiros não se queixam só da ação humana e do ataque dos animais para o empobrecimento da Caatinga. Alegam mudança do clima. Dizem que as chuvas escassas, dos anos cinqüenta para cá, têm levado muitas árvores a morrerem, principalmente as de menor porte. Um até desenvolveu uma teoria que consiste no seguinte: “As chuvas abundantes levam a água a penetrar fundo no solo, atingindo mais ou menos dez metros. As árvores grandes mandam suas raízes buscarem água lá embaixo. Quando chovia, no ano seguinte, as águas das chuvas se encontravam com a umidade lá do fundo, e ficava tudo verde, e agüentavam a travessia do ano. Agora não. Com as chuvas poucas, a água só fica em cima, não desce, vem a seca e as raízes não têm de onde tirar água, que lá embaixo não tem umidade. Aí morre”. Certa ou não essa teoria, o certo é que a Caatinga está morrendo, escasseando em árvores e o mato de pequeno porte morrendo a olhos vistos. Em alguns lugares onde há dez anos a caatinga era fechada, hoje está aberta.
Diante do diagnóstico de desertificação da Caatinga, por parte de alguns órgãos do governo, está, agora, surgindo um projeto que visa o seu combate, com dinheiro do Banco Mundial. Pura porra-louquice, e porra-louquice irresponsável, que vai detonar milhões de dólares para alimentar neogigolôs empoleirados em ONGs. Esses neogigolôs vão desenvolver projetos que consistirão em plantar uma arvorezinha aqui e outra ali, que é o máximo que suas cabeças alcançam, além de fazer seminários e “conscientizar” os caatingueiros. E os gigolôs dos órgãos do governo os aprovarão, em uma atitude de “boa vontade para com a Caatinga e na manutenção das preocupações ecológicas”. Antes, porém, realizarão muitos e muitos seminários que consumirão muitas e muitas diárias e passagens de avião.
De minha parte digo: os efeitos climáticos nós não podemos combater, mas os efeitos antrópicos sim. E é aí que se deve atuar, mas para desenvolver qualquer atuação, antes é preciso conhecer.


A pose do caçador, ou um presentinho para o IBAMA. F. Anônimo


Angico atacado por casqueiros 1 - F: E.Lopes


Angico atacado por casqueiro 2 - F: E.Lopes


O tamanho da imbecilidade humana. Angico novo descascado - F: E.Lopes


A fome das cabras e dos jumentos. Xiquexique atacado por cabra. F: E.Lopes


Mandacaru roído por bode. Este é falecido - F: E.Lopes


Faveleira rída por bode ou jumento - F: E.Lopes


O que está restando da antiga caatinga fechada. Bagaço de Caatinga - F: E.Lopes


Bagaço de caatinga. Imburana no primeiro plano- F: E. Lopes


Área da Caatinga onde ocorreu queimada seis meses antes da foto, por discplicência de caçador - F: E.Lopes


Vista parcial da Caatinga. Os pontos verdes são baraúnas. Vê-se o sinal da degradação pelos abertos do chão. Vinte anos atrás, esse trecho era fechado. A foto foi tiada de aproximadamente 20 metros de altura, a partir de uma serra - F: E.Lopes


CASAS

As casas dos fazendeiros-proprietário seguiam um padrão arquitetônico com pouco variar. A maioria, erguida com adobe cru, ladrilhadas e rebocadas. Algumas eram caiadas e estampavam sua brancura que se via de longe, na forma de ponto no destampado do acinzentado ou no verde da Caatinga. Sem diferir no telhado de duas águas, diferençavam-se em altura. Uma ou outra recebia uma tímida varanda, mas as janelas laterais ao lado das salas eram invariáveis, havendo duas por comum. A estrutura das salas e da cozinha só cabia variação em termos das dimensões, sendo os mesmos os fogões de lenha. Os quartos raras vezes passam de dois, embora em algumas delas morassem até dez pessoas, e ainda houvesse disposição para agasalhar algum chegante, que sempre chegava. Suas meias-paredes internas expunham os tornos à espera de redes, fosse nas salas ou nos quartos. Na sala de entrada, todo o tipo de arreio utilizado nas montarias e no traquejo com os animais - chocalhos, selas, brides, peias, cordas, esporas, chicotes, gibão, perneira... -, redes penduradas, assim como os infalíveis um ou dois bancos rústicos, o quadro de santo, constituíam todo o seu adorno e mobiliário. Na sala de jantar, uma mesa e algumas cadeiras rústicas, um armário para a louça e os constantes dois potes sobre uma bancada de madeira, ao lado da qual os copos de alumínio, alumiando, se mostravam. No geral, cama só a do casal, que o restante das pessoas utilizavam redes ou esteiras para dormir. Completando o mobiliário, um baú, onde se guardava toda a roupa da família, cabides para pendurar as roupas de mais uso, e na cozinha uma armação suspensa de madeira, a que chamavam girau, para a guarda dos mantimentos e dos apetrechos domésticos, havendo também uma vara na horizontal, a meia altura, para a colocação de carne retalhada, de criação. Na sala de jantar ou na adjacência da cozinha, um pequeno espelho pendurado na parede, e embaixo, sobre uma armação de ferro, uma bacia para a lavação de mãos.
O padrão das casas está mudando. Não é geral, mas já se nota uma tendência a colocá-las em padrão urbanizado. Vê-se isso pela construção de banheiros, pela construção de cerca que impede o acesso dos animais à casa, pela construção de depósito para a guarda de arreios e remédios, pela preocupação com piso de cerâmica ou cimento. Isso ocorre mais pela influência, financiamento e determinação das esposas e dos filhos. A imagem delas será exibidas em outro momento.


Casa-mãe da Fazenda Juá - F: E. Lopes


Malhada e casa da F. São João - F:E.Lopes


Casa da F. Benedito


Casa da F. São Bento


Faz. Riacho do Banguê


Na Faz. Riacho do Gato


Sítio Muquém


Casa no Juá


Casa e malhada na Faz. Melancia


Casa-mãe da F. Boticudo

CACIMBA

Na caatinga é assim: pensou fazenda, falou cacimba. É certo que em uma ou outra já existe poço tubular, com água puxada por motor ou pela força do vento no cata-vento. Mas mesmo nessas, não se dispensa a presença de cacimba. Às vezes, os poços abertos olhando para elas e os dois em funcionamento: o poço para o gado, a cacimba para a criação miúda. O segredo do pegadio dos caatingueiros com as cacimbas é coisa de história, mas mais que de história, é de domínio. É que com elas a garantia da água está na força de seus braços e no acordo dos seus bolsos, sem aborrecimento de desacordo com vizinho. Também elas não quebram, e se a seca não for longa, costumam atravessá-la com água. É verdade que quando as águas minguam botam as mãos na cabeça, enquanto se agoniam com a audiência do berreiro dos bichos cambaleantes, sedentos. E nesse acontecer, recorrência aos carros-pipa. Quando esse recurso não chega a tempo, morte de criatório. Criatório já fraquejado pela fome, fulminado pela sede.
Os anos se passaram, mas as cacimbas seguem o mesmo padrão dos tempos do começo da instalação das primeiras fazendas, e os recursos de seu uso em nada mudaram. Ah!, mudaram. Os caatingueiros estão aderindo a um motorzinho para puxar a água delas, mas ainda é comum o trabalho com bogó. Nesse estilo, bote aí três, quatro horas de solavanco aperriento na engenhoca que foi batizada com o nome de órgão, para subir e descer o bogó, para o enchimento contínuo do bebedouro. As vacas, as cabras, as ovelhas, os jumentos, as éguas chegando e secando. O bebedouro secando e o caatingueiro enchendo, enchendo até se dar que a bicharada toda bebeu. E fica de olho, olhando o criatório, avaliando a situação de cada cabeça, examinando manifestação de doença. A bicharada toda cativa pelo beber forçado em um lugar só, no horário marcado pelo criador. E por esse assim fica se conhecendo, se sabendo pertencer ao mesmo lugar, que cada bicho em seu bebedouro.
No verde, os bichos ganham liberdade de bebida farta, e alguns se espalham sem limite de andança. Quando as lagoas vão secando, os bichos se bandeiam para a segurança do oferecimento regrado de água. Primeiro a água do tanque. Lá para depois de agosto, no tinir da seca, só cacimba mesmo. Pela lonjura do pasto, os bichos se forçando a andança longa de seis, doze e até mais quilômetros de distância, resistem, procurando beber salteando dia. As cabras mateiras, se viram com coroas-de-frade, xiquexique, casca de imburana, rabo-de-raposa e se embrabecem na liberdade bruta do mato, arredando de dominação. Quem não faz assim tem que dar o beiço a sujeição.
Abaixo, as imagens que giram em torno da água controlada.
(Todas as fotos são de minha lavra)

O encontro na bebida - F: E.Lopes



Esta vaca é braba. Esse o motivo do cambão. Por pressentir estranho, se botou em atenção. F: E.Lopes



Aspecto de uma cacimba. Em baixo o tabuado, sob o qual um buraco de dez metros foi cavado na pedra até alcançar um veio de água



Bebedouro de cacimba-de-rebaixo.



Bebedouro e caixão de cacimba



Cacimba em feitio moderno, sem rebaixo. Em destaque o órgão, a engenhoca utilizada para puxar água



Cacimba de construção recente, com água puxada com o auxílio de motor



Criação no bebedouro


Gado à espera de água.


Tanque. Debaixo do tamarindeiro fica sempre algúem examinando a condição da criação



Caatingueiro se preparando para dar água ao gado. A água provém de um poço tubular.



Vista do acesso de uma cacimba-de-rebaixo



Vista geral de uma cacimba. Uma pausa para descanso e, em destaque, o órgão, engenhoca utilizada para a retirada da água











PORTEIRA

Na Caatinga de Curaçá, as porteiras são poucas, pelo pouco das cercas que existem. Das cercas que existem, poucas tem porteiras, que nelas se costuma colocar cancelas. Pelo comum, porteira se bota nos currais, nas cacimbas, e são porteiras-de-correr.
As porteiras são como ornamentos de curral, de cacimba. A madeira de que são feitas tem que ser nobre, e os paus de travessa resistentes. Os currais, juntamente com as cacimbas, eram os símbolos de uma fazenda. Por eles se sabia a condição do fazendeiro, que para se merecer o nome de fazendeiro era preciso criar gado, que gado dava nobreza.
As porteiras cercavam o dia-a-dia dos caatingueiros, pois no seu briquitar sempre estavam a se referir, a se deparar com uma. Elas, o lugar de entrada e de saída dos animais.

Gado visto de fora do curral - F: E. Lopes



Vista de um curral - F. E. Lopes



De dentro de um curral - F: E. Lopes



De fora de um curral - F. E. Lopes



Entrando da fonte - F: E. Lopes



IMBUZEIRO

O imbuzeiro campeia na vida da Caatinga. Entra em sono fundo, de abril para maio, despejando suas folhas no chão. E toma a aparência de morto. Em agosto, setembro vem a chuva do cambueiro, um inverninho e ele acorda em brotos de vida, vida anunciada pelo pipocar de flores brancas saídas das galhas peladas, acinzentadas, formando um contraste espantoso, anunciando um novo ciclo de vida. Isso por volta de outubro. Mas acordaria sem essa chuva. Só que sem ela os cambueiros não vingariam para virar fruto. Logo os cambueirozinhos saem, mas já saem das flores que caem. Vão virando fruto. Mas antes que virem fruto, ainda em cambueiro, lá se vem os papagaios, os periquitos, as jandaias ara se nutrirem dos minúsculos pontos verdes no meio da Caatinga esturricada. E ao comer-lhes os derrubam também, sem prejuízo da natureza, que a criação, os bichos do mato aproveitam-lhes por inteiro. O fruto verde, em dezembro.Os mesmos pássaros, os mesmos bichos continuam lá no seu trabalho incessante de manutenção da vida. Mas quando os cambueiros vão nascendo, reclamam folhas, e os imbuzeiros as dão, e as dão em abundância. E, de repente, em meio ao acinzentado da Caatinga, em pleno fustigar da seca, sucessivos pontos verdes despontam. O fruto amadurece, cai. Os bichos comem, e vai assim até a queda das folhas. O segredo de sua força: água armazenada nas batatas, que se escondem debaixo da terra, como extensão de suas raízes.
Imbuzeiro, imbu, imbuzada. Imbuzada, quando os caatingueiros ouvem essa palavra lambem os beiços. Caatingueiro que é caatingueiro não bebe imbuzada, que beber imbuzada é coisa de gente da rua, com fineza de trato. Caatingueiro come imbuzada e faz questão do caroço do imbu no prato. Imbuzada: papa de imbu cozido misturado com leite. Vai açúcar nessa mistura. Seu complemento de gosto bom: farinha.
Por si só o imbu já é uma graça, graça para a gente, graça para os bichos do mato e de criação.
Assisti a uma palestra sobre árvores da Caatinga, onde um sujeito que se diz cientista e trabalha em um órgão de pesquisa renomado, afirmou, a partir de todo o seu aparato de conhecimento “científico”, que um imbuzeiro vive apenas cem anos. Os velhos caatingueiros, com mais de oitenta e cinco anos, no entanto, afirmam que seus pais lhes disseram que conheceram os imbuzeiros que estão lá, do jeito que ainda estão hoje. Entre os “cientista” e os velhos caatingueiros, eu prefiro a verdade desses últimos.
Não foi feito o decreto oficial, mas é claro que esta árvore está em extinção. Causa: a criação, só raramente, deixa um pé vingar, de forma que os pés novos são quase inexistentes.


Imbuzeiro em dormência. No primeiro plano, toco de árvore morta



Imbuzeiro florindo em plena seca




Imbuzeiro florido e o sair das primeiras folhas




Imbuzeiro composto e com frutos ainda verdes




Conjunto de imbuzeiros em plena época de produção





Imbuzeiro frondoso. Este teve o infeliz destino de ser escolhido para abrigo de uma praga chamada caçador



CENAS NA CAATINGA EM TEMPO DE SECA

Em tempo de seca, assunto de caatingueiro é esperança de chuva. Alguns se põem a apreciar o tempo na procura dos sinais: lua pendida para o Norte; vento norte; a presença de uma mancha no sul do céu... O repertório é grande. Enquanto as chuvas não vêm, se põem no briquitar agoniado, desde às quatros, cinco horas da manhã até a entrada do sol. Quando há auxílio suficiente de braços, fazem uma parada para encontro de conversa de qualquer conversar. É o caso ilustrado pela foto.

Carlos de Raimundão, Lídia, sua esposa, familiares e agregados



Nela os familiares e agregados de Carlos de Raimundão, esse do chapéu de couro postado na frente da mesa. Esta foto foi tirada no Sítio de Véi Chico (Curaçá), no dia 12 de outubro. Nesse dia não se permite muito trabalho que é Dia Santo e Dia Santo é coisa séria. Em um dia assim, só se permite trabalho de adjutório dos bichos. Mais que isso não é de recomendação, que pode advir castigo na forma de desmantelo do corpo ou da mortandade de animais. Daí esse encontro, que cheguei já estava, que saí e ficou. Mas, entre o meu chegar e o meu sair, que durou para mais de uma hora, só se falou em coisas de alegria. É claro que o assunto da seca sempre voltava, mas as palavras mais ditas foram salvar e escapar. Salvar e escapar a criação.

Cabra e cabrito comendo xiquexique


A criação não espera pelos donos. Faz o seu para sobreviver. Sem isso morre. Não importa que seja cabra, ovelha, égua ou gado. Todos têm que fazer a sua procura. As cabras são mais danadas. Não respeitam espinho de mandacaru, nem de xiquexique. Roem casca de pau e comem seja lá o que seja para aliviar a barriga.

Cabra na espera da queda das flores da craibeira


Algumas têm mais sorte de habitarem ambientes ricos em craibeiras, e disputam com as ovelhas, debaixo delas, esperando a queda de uma flor.

Cabra pastando na caatinga


Quanto a essa aí, o que procura no meio dessa secura? Alguma coisa deve haver. Olhei sua barriga, seu jeito. Esta mais nutrido que muita criação que circula na assistência do olho do dono.

Cavalo pastando


Dá para imaginar que o cavalo está comendo alguma coisa? É impressionante, mas ele não está comendo terra. Está comendo o bagaço que sobrou da seca, aquele capim que há alguns meses
fora recusado. Fui bem perto dele e lá estavam seus beiços catando, no nível do chão, o que com os dedos uma pessoa não pega com facilidade. E o poldro da imagem abaixo, o que procura? Está no “pasto”, e não sei como, conserva o corpo sem magreza.

Poldro no pasto



As reses estão comendo xiquexique, mas ao contrário das cabras, o xiquexique que o gado come tem que ser sapecado. Alguns caatingueiros cortam os galhos e sapecam os espinhos para deixarem à disposição do gado. Outros fazem o que está exposto na imagem: ateiam fogo na moita e deixam lá para que vacas, bois e bezerros de apascentem. Esse xiquexique não vai mais brotar e a Caatinga com sua queima, já ficou mais pobre.


Vacas comendo xiquexique sapecado




No meio disso tudo, algo parecido com um oásis. A água é franca, por quase um quilômetro, na corrida do riacho. Aí, ela aflora formando lagoas. Os bichos vêm, fazendo festa e oferecendo imagens assim, embelezando o entardecer. Foi no encanto desses olhos d`água que se fez chegar gente, gente que se arreberou e fundou o lugar de nome Patamuté. Patamuté, o grito saído da garganta de uma índia para dizer “anta na água”.



Festa dos bichos na lagoa

CAATINGUEIRA



Esmeraldo Lopes
A imagem que fizeram da Caatinga tem a cara da morte: terra rachada, cangaço de bicho morto no chão, mandacaru, xiquexique em meio ao mato seco, gente com cara de desespero. Isso há. Gente com cara de desespero há mais nas cidades. Não é que a Caatinga seja uma beleza. Digo: ela tem sua própria existência. Também tem flores.
Aí está uma caatingueira. Arbusto ou árvore, que os botânicos decidam. Para nós basta saber que é caatingueira. Em alguns outros lugares, por gosto rúim, talvez por descuido ou crueldade, a apelidaram com o nome de pau-de-rato, mas ela não atende chamada assim.

Caatingueira: casa de abelha mandaçaia, de abelha manduri, de abelha branca. Todas as abelhas fazem festa zoadenta em suas flores. O cheiro que elas soltam perfumam a Caatinga. Flores e cascas, delas as pessoas fazem chá para infecção intestinal, como recurso afrodisíaco e para outra infinidade de males: “um santo remédio”. Nas primeiras chuvas, o socorro da criação que pasta em seus brotos.
Por que a foto? Para dizer que na Caatinga também nascem flores.

MST, CONTRA INDICAÇÃO PARA A CAATINGA




Esmeraldo Lopes
De início esclareço: sou a favor de uma reforma agrária e fui simpatizante das ações do MST. Minha simpatia por esse movimento ganhou ponto final quando, convidado para fazer uma falação para assentados em uma fazenda no município de Santa Maria da Boa Vista – PE -, deparei-me com o mais profundo quadro de vandalismo, representado pela depredação das instalações físicas da propriedade. Logo a caminho, ao perceber várias mulheres se deslocando até o rio portando apetrechos de carregar água, perguntei a um dos assessores do MST do que se tratava. Ele, na maior cara de pau, falou que os assentados haviam detonado o sistema de irrigação. Vi parreirais morrendo, pés de manga secando. Dias depois encontrei-me com um velho conhecido que se havia assentado na Fazenda Varig e ele disse que lá ninguém podia viver em paz e nem produzir porque a bandalheira era grande. Botei-me em estado de atenção e, de lá para cá, caí na profunda convicção que o MST é a planta da inconseqüência, para não dizer, da vagabundagem.
O grito por reforma agrária vem de longe, e nada mais necessário que sua efetivação. Foi nessa vaga que entrou o MST, que de início era coisa séria, mas que depois entrou em processo de degeneração cancerígena, atingindo, no presente, o cume do oportunismo e da irresponsabilidade. Seus líderes são como loucos, que vêem em todos um milionário, um alguém que deve ser rapinado pelo simples crime de não estar em suas fileiras professando o credo dos “excluídos”. A seus olhos, um bandido tem maior valor que qualquer pessoa outra, pois conforme me disse um desses aloprados, “o bandido é uma vítima que deve ter seus direitos recuperados. Por isso a sociedade deve tolerá-lo”.
O primeiro ato do MST, ao arrebanhar gente para seu séqüito, é a despersonalização. O sujeito que estava lá no seu “eu”, quando cai na lorota deste movimento, de uma hora para outra, deixa de ser o que era e muda em tudo. Rompe com os relacionamentos anteriores, passa a tomar seus vizinhos como inimigos e a se estrangeirizar nos rótulos que o movimento lhe impõe. Muda seu olhar, suas conversas e até o jeito de andar e fala com orgulho: “Sou Sem-Terra”. Por último deram, estes que se dizem Sem-Terra, até para exibir uma carteirinha, quando andam a sós, pois que quando em bando empunham foices e procuram distinção no uso de um boné vermelho. Mas o que quero dizer aqui é que do seu estrangeirismo e oportunismo, se puseram na convicção que a Caatinga pode lhes dar suporte.
Apegando-se ao conceito de terra improdutiva, deram a pleitear e a invadir as terras de algumas fazendas na Caatinga sob o argumento da improdutividade. Como se trata de um movimento que se imbecilizou no fanatismo, seus membros não se dão conta da particularidade da Caatinga e que com seus pleitos e invasões acabam por não só prejudicar os caatingueiros, que são aqueles que vivem da e na Caatinga, como a queimar ainda mais a sua imagem, firmando-se como verdadeiros vândalos.
Os caatingueiros vivem no rigor da natureza, na escassez de meios que dão suporte a suas vidas e às suas atividades. A maioria não possui terra em quantidade suficiente e se possui rebanho é porque este se alimenta nas terras de fazendas abandonadas. Sendo assim, as fazendas abandonadas não são improdutivas, visto que dão suporte alimentar ao rebanho de um sem número de pequenos proprietários. O que se deve reivindicar, então, é que as terras dessas fazendas sejam desapropriadas e tornadas pastos livres para os criadores que as circundam. Mas o que é que fazem os “artistas” do MST? Invadem-nas ou as pleiteiam para assentamentos, cuja lógica deixaria qualquer louco com inveja da maluquice do raciocínio. Reivindicam que as áreas sejam divididas em lotes de 50 hectares, às vezes até menos. Talvez seja para criar grilo, formiga ou qualquer coisa assim. Vejamos. Um caatingueiro, que não esteja aposentado, para não passar muita privação na Caatinga, tem que criar pelo menos 300 cabeças de criação. Para isso precisaria de pelo menos 600 hectares, na lógica da criação extensiva, segundo estudos do INCRA, da EMBRAPA e do IBAMA. Esse cálculo leva em consideração o aspecto econômico e o equilíbrio ecológico. Na atual situação da Caatinga não existe nem uma coisa e nem outra, pois que o rebanho já é muito superior à sua capacidade de suporte e os caatingueiros vivem na linha mínima de sobrevivência. Pelo menos é assim no Médio e no lado baiano do Submédio do São Francisco.
Pelo sistema de criação ser extensivo, o que pressupõe um refinado tipo de relacionamento baseado em relações de vizinhança e vínculos de parentesco, a intromissão de muitos elementos externos detona o equilíbrio das relações sociais em um piscar de olhos, elevando absurdamente o índice de violência e inviabiliza continuidade do sistema, dado que como já há superpastejo, com a introdução de mais animais, faltará pasto para todos. Mas o MST não faz conta de nada e investe nessa obra de destruição. De destruição dos caatingueiros, que já estão na necessidade de amparo, e da ecologia. Como por enquanto ainda não têm animais, vivem de cesta básica, perambulando pela Caatinga matando o resto dos animais silvestres que nela se refugia. Aliás, nisso são craques. Mas não apenas detonam a Caatinga pelo morticínio dos animais silvestres. Estão se especializando no corte das árvores para comércio. O impressionante é que tudo isso fazem sob a capa de um discurso presumivelmente progressista, humanista, contando com o apoio, por ação ou por omissão, de pessoas que se dizem preocupadas com a ecologia e com sustentabilidade das relações sociais na Caatinga.
Caso o governo não coloque a cambada do MST para fora da Caatinga a toque de caixa, o que veremos será a desgraça, pois que logo que terminarem de receber os recursos que a eles serão destinados, a abandonarão, deixando atrás de si o rastro da destruição e da desorganização, como fazem as pragas. Por que isso? Primeiro, porque os Sem-Terra abandonarão a Catinga, por não suportarem viver dentro dos limites que ela lhes imporá; segundo, a Caatinga fenecerá, pois não agüentará esta intromissão, pela sua debilidade ambiental.

MALHADA

Esmeraldo Lopes



Malhada é o local próximo à residência da fazenda, onde os bichos de criação se encontram ao entardecer. No dia é só o espaço do correr da vista sem embaraço dos paus. Pelo chão, tocos, pedras soltas, pedras nascendo da terra, malvas insistentes. Aquém a casa, o chiqueiro, o curral; além a caatinga do mergulho dos bichos nas veredas no caminho do pasto. No correr do dia fica aquele sem movimento. Mas vem o pender do sol, o dia escurecendo. E os bichos vão brotando do mato, chegando, chegando. Os toques dos chocalhos se misturam, os berros dos bichos se fundem. Os bodes bodejam, os cabritos escabriolam. Os caatingeiros, do terreiro, acalmam os corpos e se botam no acompanhar dos bichos com os olhos. A noite se fecha e os animais silenciam no repouso, até os prenúncios do amanhecer.
De minha parte, digo: a malhada, ao entardecer, é a paisagem mais rica e mais densa da Caatinga
Foto: Fazenda Benedito, Curaçá – BA.

CRAIBEIRA

Esmeraldo Lopes


Craibeira, caraibeira, tanto faz. Uns caatingueiros dizem de um jeito, outros dizem de outro e existem ainda aqueles que utilizam os dois nomes na mesma falação quando se referem a ela. Aqui vai craibeira, que acho mais bonito, mais direto, mais parecido com o que sinto que ela é. Acho até que a criação a chamaria também de craibeira, se falasse.
As craibieiras gostam de habitar às margens dos riachos e, quando acham jeito, se espalham pelas vargens. Mas, sem grande raridade, um ou outro pé delas estoura altaneiro nos terrenos de alto, se anunciando no longe, aos olhos da gente. Que seja nos terrenos baixos, que seja nos terrenos altos, do alto de suas copas elas se põem a contemplar o imenso cenário formado por paus pequenos que se sucedem desordenadamente em suas variedades na caatinga. As craibeiras humilham as outras árvores. Não sei se é o querer que têm. Os juazeiros querem lhes fazer disputa. Estes engrossam seus caules e botam copas frondosas. Como não se avantajam em altura, têm sempre que olhá-las de baixo. Mas não alimentam ressentimento que têm outros méritos. Para aumentar o seu destaque, as craibeiras espantam a proximidade de vizinhos impedindo qualquer tipo de concorrência. Ato egoísta. Não precisavam fazer isso. Têm o privilégio da altura, de se manter atrativa às vista durante todo o tempo do ano todo. Brincam com a sequidão do chão, desafiando-lhe. Quando, pela pressão da seca, quase todos os paus perdem suas folhas, elas, as craibeiras, se exibem com o verde estonteante de suas copas, lá no alto. E a caatinga triste, estalando pelas queimaduras do tempo, o acinzentado tomando conta do mundo, vê nelas o anunciar da esperança do resistir. E elas, na contemplação da tristeza da seca, trazem a esperança do renascer. Vão soltando suas folhas. A criação corre-lhe aos pés, na certeza de comida que não seja mato seco, e devoram-lhes as folhas que descem suaves, uma a uma. Ficando peladas? Não. No ato dessa soltura, fazem brotar as flores. Flores amarelas. E no que todas as folhas descem ao chão, a copa se coroa toda de amarelo. Amarelo de vida viva no meio do todo acinzentado da caatinga. Mas o amarelo se vai, também pelo descer de cada flor, que a criação espera com angústia e com disputa selvagem. Se vão as flores, vêm os moleques. Moleque seu fruto. E a criação lá, na espera. Mas eles verdes, no alto, longe do alcance das bocas. Uma graça vem do céu: os papagaios, os periquitos. E esses pássaros, na zoada de suas gritarias, fazem redemunho no ar, e vão pousando, enverdecendo com seus corpos os galhos das craibeiras. Dão-se ao ataque dos moleques com seus bicos afiados, fazendo deles seu alimento em tempos de faltança. No pegar de um moleque, acabam cortando outros. Outros que descem para a disputa da criação. E, elas, as craibeiras, dão um pouquinho de pausa, na espera das primeiras águas para seu refolhar. Enquanto não refolham, ainda, como último socorro do seu, soltam as vagens secas para mais um alimentar. Folha, flor, moleque, vagem. No seu comer, a criação brilha nos pelos, se fortalece, berra sem fraqueza.
Os caatingueiros as olham na diferença que elas se oferecem na comparação com os outros paus. O seu verdecer, o seu florir lhe é normal sem novidade. Com suas cascas fazem tratamento de saúde, terapia para osso quebrado. No mais falam delas como planta de benção. Indiferentes a eles, as craibeiras se põem na disposição de agasalho do consolo da vida.

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