Noventa municípios brasileiros têm mais eleitores que habitantes
Pai e madrasta são acusados de matar os dois filhos
Brasil precisa de Defesa forte para ser rebelde, diz Mangabeira
Moradores do Conjunto Vitória voltam a fazer protesto no "Retorno da Morte"
POEIRA DO BAGAÇO

Esmeraldo Lopes


Toda época tem seu chic. As pessoas sempre estão a correr atrás do chic plantado à sua frente, e vão assim se macaqueando, no passo que correm atrás da macaqueação. É uma negação total de si. Pelo que vejo, o que há de comum entre as épocas é essa negação. Não se nega apenas a si, nega-se também a cidade, os objetos, a comida...


O colonizado é doentio. E o Brasil é um país de colonizados. Aqui, não tem quem consiga realizar a obra da descolonização. O universitário vomita o pensado do pensador estrangeiro, o rico se afirma no falar das avenidas de países distantes, a cidade menor imita a cidade maior, e o pobre se sofistica na cópia do rico, do nosso rico colonizado, e todo mundo falando coffee break. Pode-se dizer que vivemos o efeito de uma colonização genérica, que não deixa um milímetro de espaço para olharmos para nós, o nós desnudo do chic estrangeiro. Isso faz do Brasil o lugar de maior número de colonizados por metro quadrado no mundo.


Mas eu comecei dizendo que cada época tem seu chic. E o chic brasileiro nunca pode ser o nosso.Tem que ser importado, que colonizado não tolera olhar a face que o faz. Nesse assim, meio buscado, meio que vindo, aqui foi aportado um chic, agasalho de todos os tipos de chic, inaugurando época: o Shoping. Depois desse grande surgimento, cada cidade, para bem merecer esse nome, tem que ter o seu. Se não tiver, seus habitantes se acocoram em sentimento envergonhado, desejando a praça para exposição de macaquices e alimento de sonhado. E o shoping é o centro e a beira.


Para acalanto de frustração de vida sem shoping, uma cidade providenciou um jeito. Nela construíram uma galeria, mas a época do chic galeria já estava sepulta. Cabeça vai, cabeça vem, um destrambelhado atinou que naquilo, o nome shoping cabia como batismo, e soltou a propaganda na expectativa do povo. O povo orgulhoso. Mas no estampar do nome viram que havia desengonço entre a coisa e o chamado que queriam para ela. Foi aí, que surgiu uma idéia: “Põe qualquer nome e no fim bota center”. Pensado e feito, mas o alento do povo ficou quebrado. Mesmo assim... é aquela história... O certo é que a coisa ficou lá, tomada como centro de referência.


Outro dia, um acaso da vida me levou ao qualquercoisa center.  Tomei uma pancada visual. Um feio de dezenas de carroças ocupavam sua lateral. Alguém tirou meu susto: “Os carroceiros estão sendo cadastrados para tirar habilitação de carroceiro”.   Um tumulto se formava entre as carroças. Um sujeito, com cara de classe média, esbravejava com outro, no aproximado de ir às tapas: “Traidor! Traidor! Quer dividir a organização do povo!” Cheguei perto. Ele tomava nota dos nomes, esbravejando para transmudar o tumulto em fila. “O que é isso?”, perguntei. Um carroceiro respondeu: “Ele tá dizendo que a gente tem que se organizar, que só vai poder guiar carroça quem tiver habilitação e for sócio da associação”. E, com tantos jumentos, o perfume do ar era fedor de estrume.


Tomei distância da confusão. Vi que aquele desenho de feiúra transbordava as carroças. Um camelô dividia com eles o espaço, expondo cadeiras, cofres e uma infinidade de “sofisticados” de gosto caído. Na calçada do qualquercoisa center, uma dezena de mototaxi, com aqueles capacetes em primor estético, sustentados no alto de suas cabeças, protestava contra a invasão dos carroceiros por enfearem o espaço. Ao lado deles, mulheres cansadas e abatidas seguravam bandeiras tremulantes pelo batido do vento, dando vida à campanha de um candidato: “as militantes”. Tudo isso formava um espalhafatoso atraindo atenção. E como tudo ali podia acontecer, parou um carro com som estrondoso. É sabido que a potência do som de um carro tem relação direta com o grau de imbecilidade de seu proprietário, mas aquele era arrepiante. O som furava os ouvidos e a música estripava a alma com a voz da cantora que sapecava o refrão: “Ele só quer comer meu... Ele só quer comer meu...” Pois é, esse imbecil ao quadrado elevado ao cubo não foi visto, não foi tomado como causador de nenhuma perturbação. Até algumas mocinhas que seguravam as bandeiras ajudaram o tremular delas com os requebros sexualizados de seus quartos, no balanço da zoada “musical”. Quanto ao qualquercoisa center, lá dentro não havia nem vida e nem morte, só tédio.

Aloprado

                                                                           Esmeraldo Lopes


Quando eu era menino, lá pelos dez anos, me veio o zumbido do dizer de uma diretora que nunca saiu de meus ouvidos. Sem motivo e com propósitos obscuros, ela, polidamente, pediu licença à professora, adentrou a sala de aula. Falou e falou, mas para mim, só uma coisa ela disse: “Se botarem aqui um cachorro e disserem que ele é o professor, vocês têm que respeitá-lo”. Essa frase zumbiu em meus ouvidos por anos, até que meu juízo fez a sentença: “a diretora era imbecil”. Daí por diante, aprendi que uma autoridade nunca deve ser acolhida em respeito só por estar na posição de autoridade. Apresse-se o passo.


A vaidade é uma necessidade humana. Um ser humano despido de vaidade é um defunto perambulante. Mas há que se distinguir a vaidade que se alimenta dos feitos palpáveis, da vaidade delirante, que nasce e se nutre da auto-apologia.


Quinhentos anos atrás, Miguel de Cervantes criou um personagem para descrever um vaidoso delirante: Dom Quixote de La Mancha. A história é magnífica, feita na medida certa para desmascarar “heróis”. No que pese o ridículo do personagem, ele é terno, amigo, encantador, louco e divertido.


 Um professor, que não é professor, que é professor como o poderia ser o cachorro da “diretora”, não sei se no tempo de menino, ouviu alguns comentário sobre os feitos de Dom Quixote. Ouviu-os aos pedaços e os juntou a seu jeito, compondo uma outra história, para a representação do mesmo personagem, mas um personagem montado sem atino de juízo, onde uma mão ia no lugar da cabeça, a barriga no lugar das coxas...cada parte em lugar estranho e o pensamento girando em imitação de movimento de biruta. E no descabimento de coisa assim, apaixonou-se por ele, e resolveu que seria sua encarnação no mundo real, emprestando-lhe assim seu corpo, tomando emprestado do outro a cabeça. Depois desse exercício despranaviado, andou e desandou na procura de assento para suas presepadas. Onde havia ajuntamento de importância, lá estava ele no aparecer de algum modo. Dizem até que chegou a disputar vaga com um defunto em um velório. Atormentado por um batalhar em vão, na esperança de alguém que lhe desse crédito, fixou-se no sonho de ser diretor. Entrou em campanha, tendo como chamariz de voto a invocação de um sonho que dizia vir do tempo de menino. E suas palavras repicavam em ladainha: “quando eu for diretor”, “porque um diretor tem que...”, “educação de qualidade”, “gestão participativa e transparente”. Como o mundo não tem critério, se fez no sonhado. E um Dom Quixote adulterado se fez imagem fora das representações teatrais. Um Dom Quixote sem ternura, sem encantamento, sem atração, preservando-se apenas a alucinação, mas mal copiada, copiada em desconexo. Apresse-se o passo.


O Dom Quixote adulterado, diretor. E uma reunião com os pais. Seus posicionados em cargos não podiam imaginar. Não lhe haviam comunicado o evento. Ele soube.  De primeiro saber, calculou que estavam a lhe passar as pernas. Mas no maquinar de chefe, proclamou: “Irei lá”. Os chefes subordinados se desesperaram, gritando em silêncio: “ Deus nos acuda!” O certo é que não dava para esconder. Os pais foram chegando. Ele olhando, em traje empetecado. Quando as cabeças dos pais fizeram vulto de multidão, ele se presenciou e se botou a falar. Falou e falou. Era um falar sem nexo. Quando um pai questionou sua ausência no dia-a-dia da escola, ele soltou: “Meus adversários, aqueles que querem me derrubar, dizem que sou ausente. Saibam senhores: Diretor não tem que ficar aqui não. Diretor tem que estar em Brasília, em Brasília.... Todos sabem, um diretor prepotente e  arrogante com eu,  entro em todas as portas dos gabinetes dos deputados. O presidente é meu amigo. Meu amigo pessoal. Levei um queijo de bode para ele. Os seguranças  fizeram atrapalho, mas como sou prepotente e arrogante, o confiei ao porteiro do palácio. Eu sou o diretor. Sou velho.” Bateu nos peitos, e um barulho oco se fez ouvir. Insistiu: “Sou arrogante e prepotente. Tudo o mais que dizem, são gritos da oposição”. Deu boa noite e sumiu. Não houve aplausos e nem vaias, Os pais sempre são silentes. Não foi o fim. As burragens do homem não têm fim. Ele é um saco sem fundo de besteiras.


Duas alunas entram em conflito e foram às vias. Os pais da agredida aparecem, manchados de indignação. Exigem conferência com o Dom Quixote adulterado. Ele anuncia: “Os receberei”. A secretária providencia a recepção. Tudo vai ocorrendo nos conformes. Os pais entram em silêncio. São convidados à sentada. A agredida fala, ele, em pouse doutoral, escuta. Mantém silêncio enquanto houve. No ponto final da jovem, ele corre a mão pela testa e solta: “A gente apanha porque merece. Eu mesmo desço a mão em minhas filhas quando elas merecem”. Os pais se embalançam nas cadeiras, sem ânimo, sem prumo.


Dom Quixote adulterado, ainda diretor, por sentir-se pouco atrativo, resolveu dar o primeiro passo do pós-sonho de menino. Brilhou em uma festa no compasso da música tapioca: “Ta-tá-tapicoca...” O problema é que os membros não encontravam sintonia, e ficou aquela coisa. Uma professora, vendo isso, disse: “O governo fez uma propaganda dizendo que cada escola tem a cara do diretor. É por isso que nossa escola é tão esculhambada”. A gozação que lhe faziam pelo desengonçado e ridículo, ele recebia como medida de sucesso. Acabou? Não. Em uma cerimônia, no ecoar do Hino Nacional Brasileiro, ele saltou no microfone e botou a voz desbragada: “Ouviram do Ipiranga nas estradas/ de um braço esplêndido em berço vil...”. Depois, ao perceber que uma mocinha, que portava o estandarte da escola que ele “dirige”, chamava a atenção do público, rompeu na direção dela e se botou a saracotear ao seu redor. Qualquer dizer a mais terá cor de ficção infeccionada. Paro aqui perguntando: O homem evolui? Se evolui, como explicar esse Dom Quixote adulterado, quinhentos anos depois de Cervantes?

O TROFÉU

                                                      Esmeraldo Lopes


É verdade que estamos em meio a uma olimpíada, mas o título do escrito não tem relação com nenhum esporte, também não se refere a despojos obtidos pelos vencedores de uma guerra. Retirei-o de ocorrência no comum da vida da ralé.


As cidades eram bem marcadas em termos da ocupação social de seus espaços. Sinalizando o centro, a igreja, a praça, algumas casas de comércio, a moradia das pessoas abonadas pela economia ou puramente pelo prestígio herdado dos antepassados; nas adjacências, a moradias das pessoas mais ou menos, cujo distintivo era o dispor de uma condição de autoprovimento das necessidades, ainda que em insuficiência; nas “pontas de rua”, os mal-ajeitados de casas onde se aboletava a população que garantia a manutenção do corpo no desespero de qualquer fazer, sem termos de nenhuma exigência. Na obra da sobrevivência, disputava entre si, com afã, tapas e xingamentos a migalha surgida, a localização mais conveniente para o desenrolar da faina. No geral, era nomeada pelos moradores dos outros espaços, como “gentinha de ponta de rua”, uma expressão delicada, perto da classificação que se lhe davam em momento de ira: ralé.


Alguns moradores das “pontas de rua” procuravam adotar procedimentos e modos merecedores de elogio, na intenção de se livrar da pecha. Intento que impunha sacrifícios enormes. A vida, no terreno que pisavam, não sorria para requinte de maneiras. Ela era um pendular incessante entre a bruta e a humilhação. Ocupava-se em trabalhos de lavagem de roupa, de carregar água, de transportar mercadorias nas costas, de limpeza de latrinas... Melhor sucedida no meio dela era a mulher que se colocava como serva de casa de algum abonado. Dessa gente não havia de se esperar auto-contenção ou suavidade de tratamento entre suas partes na solução de teimas, dúvidas, o que fosse que cheirasse a conflito. No primeiro dissabor, uma voz se levantava: “seu safado!”, ou “sua rapariga!”. Daí por diante o alarido, a afluência da multidão para fazer público às tapas, aos pontapés, aos puxões de cabelo, acompanhados por palavrões e ornados com gritos em coro: “irrô, irrô!”, da multidão aboletada. Assim, até que alguém se metia a atrapalhar a festa e apartava a briga. Finda a refrega, os contendores tinham por dever soltar bravatas, chamando admiração. Mas a multidão se interessava mesmo era pela gravidade do estrago estampado nos corpos dos lutadores. Daí sairia a proclamação do vencedor.


O suceder dos tempos. Tudo mudou. A ralé está aí, resoluta, expandida, presente em todos os espaços. Digamos mesmo que se instaurou a democracia ralé. E, de repente só há ralé, só ela tem existência, e dita as ordens do seu ser e do seu querer. Todos os espaços sociais fedem a ralé. Ela invadiu os teatros, as universidades, os rádios, tudo. Tudo tem que ter o gosto, o cheiro e o jeito de ralé. Os sociólogos de pouca reflexão dirão que houve um nivelamento social, e me chamarão de pedante, pelo conteúdo do dito aqui. E eu respondo: não houve nivelamento, houve rebaixamento. Mas, mesmo que fosse nivelamento, que serviço prestar-se-ia à humanidade com ele? A única obra que pode nascer de um empreendimento nivelador, é um monumento à imbecilidade. Reconheça-se: ninguém quer ser ralé, só os fracos querem se nivelar. Tudo o que cada homem perseguiu desde o limiar da existência foi a distinção. Assim ontem, assim hoje. A ralé tinha vergonha de ser ralé e tudo o que almejava era sair dessa condição. Hoje não tem mais nem vergonha e nem desejo da conquista de ser. Arrancaram-lhe essa virtude. Indicaram-lhe como objetivo da vida a posse de um par de tênis, de uma camisa da moda, de um carro, de acesso a shows, do ingresso em uma escola, que seja faculdade, e um certificado sem fundo, no propósito de mantê-la em seu estar.E chegamos à borra da vida social como estilo referente de vida, configurado pelos caracteres exteriores, nada mais além disso. E nisso dá no que presenciei: do acomodado da mesa de um restaurante, apreciava o movimento da rua. Uma festa se anunciava pelo barulho atormentador de um aparelho de som. Na direção dele, bandos de jovens descoordenados a transitar, mas bem vestidos. Estudantes, disse alguém. Com pouco, o brotar de minha infância: “Puta!, agora você vai ver, rapariga!” Em meio a uma dezena de jovens e diante de toda a rua, uma mocinha avançou sobre a outra e as duas se encontraram aos safanões. O “irrô”, foi ressuscitado na hora, laureando uma roda humana. As silhuetas das beligerantes se mexiam com violência, entre xingamentos. Mais jovens chegando, chegando e, no rápido do tempo, tornou-se uma multidão. Um pedaço de pano foi ao ar. Alguém se meteu a apaziguar. Entre urros da platéia delirante, algumas vozes: “Deixa, deixa!”. Ouvia-se também: “Quero ver pau!”. Mas a separação estava difícil. Uma das jovens estava nua, da cintura para cima, com a outra agarrada no coes de sua calça. Em contrapartida, a despida havia avançado no cabelo da rival. No puxa de lá e puxa de cá, por poucos segundos, ficaram suspensas no ar. No apartado, a despida erguia um tufo de cabelo na mão: “Toma rapariga, vá se meter a tomar macho de mulher!” E desfilava o tufo, levando-o próximo a face dos presentes. Não se incomodava com a exposição dos seios. A outra, ainda agarrada por um dos apartadores, berrava: “Toma aí sua sem-vergonha. Mostrei seus peitos, agora quero mostrar sua buceta, fila da puta”. Nisso tudo, nenhuma gota de vergonha, de sentimento encolhido, só o aturdido de exaltação e esturro de alegria.

ENCRENCA

                          Esmeraldo Lopes


Ouvi falar que a palavra encrenca foi inventada pelas putas, para se livrarem de assédios inoportunos. É sabido que cabaré era uma instituição imprescindível em qualquer ajuntamento de casas merecedor do nome de cidade. Ao chegar a uma cidade, o visitante, perguntando ou não, de pronto vinha a ter informação precisa sobre a localização do cabaré. A divulgação dele se fazia por vários meios, sendo a boca do padre e o histerismo das beatas os mais eficientes. Ao condenarem com veemência os pecados da carne, acabavam tornando-se os seus maiores propagandistas. ?Como todo ser normal gosta de putaria, uma simples referência á perdição da carne é o suficiente para a mobilização dos desejos que arrebentam da natureza cega entranhada em nosso corpo. Mas o assunto aqui é “encrenca”.


O cabaré, que seja no singular ou que seja no plural, era um tipo de segundo domicílio obrigatório para os homens adultos, e ambiente de férias para a masturbação de adolescentes. É certo que o adolescente entrava em um cabaré com a mesma postura de um vira-lata que entra em casa alheia: devagarzinho, assuntando atencioso a cara dos presentes, para a certificação da ausência do pai ou de algum vizinho. Qualquer olhar fulminante dirigido a ele era motivo de encolhimento. Passada essa barreira, contava com a compreensão e acolhimento das putas, que ofereciam seus préstimos professoralmente, no antes, no prosseguimento e no depois. Era o tempo em que puta era simplesmente puta, e não essa coisa chamada “profissional do sexo”. O serviço da puta, que o chamado fosse rapariga, se estendia do corpo à alma. Não eram “profissionais do sexo”. O sexo era mais que o sexo, e se bem que houvesse o mote do preço, preço sem governo de tabela, não havia limitação de horário, e nem cláusulas contratuais sobre a natureza dos serviços. Era a puta romântica, portadora do sonho de um amor, flor das noites aventureiras, habitante das casas de fantasias bem fingidas, incrementadas com luz-negra, coqueluche da época em que as conheci e fiz freqüência esporádica. Mas o assunto aqui é “encrenca”. Era esse o termo que as putas usavam quando queriam se livrar de um sujeito inoportuno. Esse termo foi vezeiro na boca das putas litorâneas, acostumadas a lidar com marinheiros. O termo-espantalho que elas usavam no terreiro do meu pisado, era “boi”. Quando uma puta dizia: “Tô de boi”, o sujeito se afastava dela com a mesma intensidade que o vagabundo fugia da polícia. Não sei por que “boi”. Será que é por que boi faz sangue pelo chifrar? Não interessa. O que interessa é que as putas românticas desapareceram sem a lembrança de suas existências em estátuas. Não conheço uma única estátua de puta, pelo menos erguida a uma puta pela condição de puta: uma grande injustiça.


A voz dos padres perdeu o eco e ninguém dá mais ouvido às beatas. As igrejas se dissiparam do ar da graça sagrada lavadora de alma, e da aura que tinham ficou, como resto, a imagem de um Jesus em chagas, no sofrimento solitário da cruz. Os cabarés se extinguiram, engolidos por casas especializadas, sem brilho, puros centros de exploração empresarial de sexo, com determinação de preços em tabelas e ordem mantida por “seguranças”. A putaria se empobreceu, se favelizou na imagem das “profissionais do sexo” decorando as esquinas das cidades, no assanho das periguetes ornadas na estética do ridículo, na dúvida de se saber se o auto-exposto convidativo para sexo em trejeitos femininos é mulher ou macho “mal-acabado” a agredir a paisagem alcançada pelo nosso olhar. Ela, a putaria, perdeu as fronteiras geográficas, sociais, de gênero e se generalizou na vulgaridade, desnuda de sensualidade. E não há mais “encrenca”, não há mais “boi”, só há menstruação, um termo biológico, técnico. Agora a encrenca é sem aspas, como sinônimo de confusão. E é aí que estamos: na confusão.


 Na intimidade aproximada de conversa com uma moça, na partilha de uma cerveja em um bar de bairro, ouvi dela: “Aquelas periguetes tão enchendo o saco, se mostrando demais”. Falei-lhe sem medida de preservação do patrimônio: “Não, elas não são periguetes. Você é periguete”. A moça embalançou o corpo com ira e perguntou: “O que elas são então?” Tive que escarafunchar o dicionário “pós-moderno” para achar o termo certo: “Garotas de programa em trabalho no garimpo sexual”. Ela se interessou na resposta. Pediu-me definição de periguete, e entrou no rosário das várias nomenclaturas estabelecidas para a putaria sem vida. Apertei-me, porque, dar conta de todas as contas do rosário, é encrenca.


Ah, principal característica da periguete: a inconseqüência da prática de sexo sem propósito de sexo. Com toda a pobreza, ainda uma flor, mesmo que murcha, despetalada, mas avistada no deserto das noites sem encanto, sem emoção.

Gene pedagógico

Esmeraldo Lopes


Até agora, quando se fala em genética, vem ao pensamento a imagem confusa de elementos mínimos que transmitem as características biológicas dos seres, de geração para geração, os genes. Coisa de preocupação da biologia, talvez também da química. Os cientistas dessas ciências que são puxados pela curiosidade nos genes, sobre eles afundam o seu olhar e identificam as influências do passado, as ocorrências do presente e as tendências futuras que se inscrevem em um ser. Pode ser que o rigor das ciências pelas quais se orientam explique muita coisa, mas não dá conta da observação de dois genes que se estampam com toda clarividência na cara de todos sem, entretanto, serem avistados. Falo do gene profissional e do gene ideológico. Ao contrário do gene biológico, não sei se é certo dizer assim, os genes profissional e ideológico não são transmitidos pela hereditariedade e nem de forma aleatória pelo levar do ar, como o vírus da gripe. São genes seletivos. Os genes ideológicos se transmitem de acordo com o grau de vivacidade do receptor, havendo entre eles os mais nutridos e persistentes, sendo que alguns são indestrutíveis. Exemplificando: o gene do fascismo e do stalinismo é tão forte, e possui efeitos tão bestilizante, que basta um indivíduo assinar uma ficha do partido ou participar de alguma de suas reuniões para ser atingido na inteligência e perder toda a capacidade de desenvolver raciocínio próprio, para todo um sempre.  


Os genes profissionais são exclusivos das corporações militares e das profissões forjadas nos bancos das universidades. Em algumas profissões eles se manifestam com mais força, em outras com menos. Estreito-me aqui, no objeto motivador desta escrita: o pedagogo.


Uma pessoa... Qualquer pessoa normal, ou mesmo excepcional pelo rasgo de inteligência, no momento em que se bandeia tomando a direção da estrada da pedagogia, é atingida pelo gene maléfico da profissão e tem o intelecto corroído. Perde toda a abertura para o mundo e se fecha em meia dúzia de receitas educacionais, sempre floreadas com o senso da filantropia. Daí por diante, só sabe olhar o mundo através de algumas frases prontas, onde sempre constam os termos “amor”, “compromisso”, “inclusão”, “compreensão”, “metodologia”, “pedagógico”, “recuperação”, “socialização”, “inovação”, “estímulo” “recursos didáticos”... Como penitente errante, está sempre pronta a aderir à ultima “teoria” considerada redentora que for levada ao altar da educação. Torna-se incapaz de compreender qualquer fundamento filosófico e sociológico das teorias e se compraz com o ouvir e o dizer fácil. Torna-se exímia preenchedora de fichas, por onde calcula medir, controlar e avaliar os enganchos e o desempenho dos viventes humanos que circundam nos labirintos da educação. Atua pelas formas, perseguindo a eficiência, mas como tem andar exclusivo na superfície, só com muita sorte atinge alguma eficácia. É sempre vista como uma pessoa boba, inútil e incômoda na corte educacional. Como não tem fundamento no que diz, copia fragmentos de livros, e se põe a recitá-los para uma platéia de caídos, que põe atenção fingida com olhar sonolento. Não bastando isso, enche as paredes das escolas com frases enaltecedoras do trabalho educacional. Poderia ser de outra forma? Não e não! O que poderia esperar de uma gente que tem Paulo Freire como guia de sua orientação e inspiração?


Pelo dito, e pelo que não julgo necessário dizer, afirmo: todo pedagogo é ridículo, um infortúnio inventado pela imbecilidade humana. A pedagogia é a arte de refinamento da besteira e de produção de bobos,mas a natureza já faz muitos bobos.

Sobreviventes

 


                                                                     Esmeraldo Lopes


 


Tantas são as peripécias perigosas que cercam a vida, que sobre qualquer ser que respire, o termo sobrevivente cai bem. No atacado desse assunto, borboleta, barata ou homem, tem o seu igualável em vida: sobrevivente. Depois, caem em rotulagem com peso e medida igual: morte. Tanto faz um humano como uma cabra. A morte reduz tudo à mesma coisa, e a coisa a que tudo é reduzido é o silêncio da eternidade cega, muda e surda, em um se completar recíproco para a composição do nada.  


A consciência de ser: nossa pena. Uma pena sem propósito nenhum. Tão sem nenhum propósito como o fato de termos nascido, de termos consciência. O ontem pesa sobre nós, o presente flui, o futuro assombra. Somos filhos do absurdo imergido nos assopros do caos


O futuro é o cemitério do homem. E todo aquele que ultrapassou do passado para o presente é um sobrevivente. Aperto o espaço. Vou circunscrever o termo àqueles que atravessaram situações de virulência: guerras, agonias, efeitos prolongados de catástrofes. Só nessas situações... aí a cara humana, sem disfarces. A quem ultrapassa, glórias. Glórias ou vanglória? Todo sobrevivente é um suspeito. Caminhe-se pelo passado de seus passos, consultem os caídos sem vida e ver-se-á: vida regada com omissão, com traição, com o sangue, com a dor... dos outros. Poucos sobrevivem pela resistência da própria dor. Para esses, a sobrevivência não é glória, é o aumento da pena por ter que lembrar ou esquecer, que contar a história. Seus corpos não tombaram, mas suas almas ficaram atoladas no território das desgraças que tiveram que atravessar. Esses já não são suspeitos. São réus confessos que se penitenciam pelos feitos, pelos não-feitos e carregam dívida de tamanho sem fim com os que ficaram para que eles pudessem seguir. Desconfio de todo aquele que acende o olhar e enche a voz com um: “Eu sou um sobrevivente”... No ouvir da frase: “Os covardes nem tentaram, os fracos ficaram no caminho, só os fortes conseguiram”, feita para o enaltecimento dos sobreviventes, provavelmente por eles, meu juízo, indignado e procurando justiça, interroga: “não teriam sido os fracos, aqueles que efetivamente abriram o caminho com sua intrepidez, e a maioria dos que conseguiram, aqueles que se escondiam, negociavam ou se omitiam na hora do perigo?” Não, quase sempre a história não faz bom julgamento. Ela é escrita pelas letras e cores escolhidas pelos que sobreviveram, em rasgo de vaidade. O sobrevivente quer-se afirmar no tempo, mas o tempo é esteira do esquecimento. Nele, o último agasalho, os cemitérios, também morrem.


PURIFICAÇÃO

Esmeraldo Lopes


Não canso de dizer: Nelson Rodrigues é o maior filósofo parido no solo brasileiro: um gênio. É dele o falado que segue:Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina (...) Os idiotas querem ser professores, ministros, presidente. O nosso mundo é dominado pelos idiotas”. O que ele diria hoje? O calariam. Enfiar-lhe-iam muitos processos, nenhum jornal o empregaria e o proclamariam, não mais como tarado, mas como um ser de alta periculosidade pelo seu caráter anti-social. A ele, como consolo, restaria recitar o que recitou o protagonista do filme Lugares Comuns: “Há um país que nos arrasa e um mundo que nos expulsa, um assassino difuso que nos mata todos os dias... sem percebermos”.


Cá no meu silêncio exaltado, ou indignado, chego a uma conclusão: “Estamos vivendo em tempo de purificação”. Há uma ação com propósito higienizador, santificador. Todos devem ser higienizados, santificados. Todos devem efetuar uma limpeza drástica, no corpo e na alma, afastar todo o tipo de mal. Foi decretado o fim de todos os preconceitos, de todas as impurezas, a caça aos pecadores. Inaugurou-se a religião Fundamentalismo das Bestas. De seus cruzados não escapa nada. Cada palavra é examinada nos mínimos detalhes. O termo aluno, diz a idiotia pedagógica, deve ser banido, porque, etimologicamente, aluno “quer dizer sem luz”; a palavra homossexualismo, também está condenada, que o prefixo “ismo” indica doença; menor, pequeno, “que barbaridade!”, são termos que denotam inferioridade; negro, não!, afrodescendente. Assim vai o burrajol. Levado a efeito o que querem os fanáticos dessa religião, essa gente que se faz rebanho de complexados por ser o que diz ter orgulho em ser, instituir-se-á o império do silêncio. Os cruzados... combate às palavras, olho inquisidor nas atitudes. Um sorriso, um olhar curioso, um gesto, a aplicação de um critério... tudo recebe a pecha de discriminação. Nenhuma ação pode se basear em sentimento ou critério que revele a inconveniência, a inconseqüência ou a fraqueza daqueles que a ela estão afetos, para não machucar os coitadinhos. É que os coitadinhos são muito frágeis, sensíveis, afinal, são “civilizados”. Então, mais que tolerar, calar, aceitar, reprimir o sentimento interior de repulsa. Em outras palavras, entrar na ordem da auto-repressão. Mas não combatem apenas uso de palavras e atitudes que consideram degeneradoras. Avançam sobre o nosso corpo. De repente, o fumante foi transformado em um ser abominável que deve ser perseguido a pauladas. A ele é negado, inclusive, o direito de abrir um estabelecimento onde esteja escrito: é permitido fumar. Agora, deram um golpe fulminante na cultura nacional: “Álcool zero para quem dirige”. Onde ficam os encontros de colegas no final de expediente? Quem regará as alegrias nos encontros, nas festas? Saibam esses imbecis que cerveja é uma das maiores instituições de nossa nação, um grande ingrediente de nossa cultural. Com ela, a gente cura raiva, mata o tédio, sela amizades, conhecimentos e solta o verbo alegria em ato. Mas o que querem os adeptos da religião Fundamentalismo das Bestas? Querem tornar saudáveis os corpos matando as almas.


Escrevo para dizer: vivemos uma modalidade de fascismo. O fascismo se vangloria de implantar uma vida sem vida, determinada pelo isolamento, retidão e tédio. Um tipo de regime de pocilga. Todos os seus defensores esturram: “Vida pura! Vida saudável!”


Nunca ouvi falar em conflitos ou acidentes entre os habitantes dos cemitérios. Lá, há sempre de reinar a paz. Aliás, é o único lugar onde a palavra paz encontra acolhida no profundo de sua expressão. Em vida, mesmo que com pouca vida, os viventes humanos sempre estarão ao dispor de riscos e contrariedades. É isto: o assassino difuso está a empreender a obra de nos transformar em estátuas.

"Civismo" esmolé

                       Esmeraldo Lopes


Que não se olhe para trás, para que assim se possa deixar de lado ares de saudosismo. Olhe-se no presente e ver-se-á que por todos os campos campeia um novo tipo de civismo: o “civismo” esmolé, filho bastardo dos Diretos Humanos. Filho bastardo. Isso mesmo, que os Direitos Humanos foram alimentados para resguardo dos direitos políticos dos cidadãos, contra a violência das ditaduras. Depois perdeu o foco e passou a englobar tudo, e tudo virou uma questão de cidadania. O político se diluiu no social, entrou em anemia, se espatifou.


Direitos Humanos... atendimento das necessidades dos indivíduos, reconhecimento dessas necessidades. O Estado a serviço disso. Um tipo de Estado filantrópico, clemente, culpado, paternalista. Todo mundo com direitos. Com direitos sem a necessidade de cumprimento de deveres. Dever? O que é isso? Alguém está mijando na rua, assaltou, estuprou, agrediu? Culpa da sociedade, do Estado que não educou, que não conscientizou. Enfim chegou-se a uma sociedade de vítimas, de coitadinhos, mas “cidadãos” com direitos a serem observados. Afinal, os direitos são uma conquista da humanidade, da civilização. Aos indivíduos compete apenas o benefício do benefício. Benefício sem ônus, é claro. Uma síntese disso: “cidadania” sem cidadão. Até aqueles indivíduos que se estampam pelo garbo da renda, pelo grau elevado de instrução, pelo consumo ostensivo, pelo empoleiramento em cargos e posições de destaque, não podem ter o merecimento do nome cidadão. Não têm ação, têm comportamento. Só os interesses estritamente individuais os movem. No mais não se distinguem da massa de coitadinhos, sendo também coitadinhos, pelo menos naquilo que concerne à postura diante das questões de definição política. Nesse assunto, não entender, não se incompatibilizar, se omitir, silenciar, afinal, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.


“Civilizados”, uma gente sem energia, “compreensiva”, fraca, botam os olhos no mundo com ar de salvadores. Verdadeiros cruzados dos “direitos”. A cada três palavras que emigram de suas bocas, uma, pelo menos uma, é: “direitos”. A palavra dever só lhes vêm quando se trata de exigência para com o Estado, para com a sociedade.


Certa vez, me botei a criar porcos. Alimentava-os, cuidava da limpeza dos chiqueiros, não lhes deixava faltar água e recomendava cuidados especiais com a higiene. Eu acho que “os porcos também têm direitos”. O que isso tem a ver com esta conversa? Simples: quando eles estavam no grau que eu julgava adequando, os abatia. Eis tudo aí. Os “Direitos Humanos” são uma grande ceva. Os agentes do Estado sabem disso. Traduziu-os em um nome: “cidadania”. Macaqueou direito para todos. Não é preciso ninguém conquistar nada, basta chorar, clamar nos rádios, denunciar, pedir, inchar o peito e dizer: “Eu tenho direito!” Não sei mesmo para que ainda existe nos dicionários as palavras reivindicar, conquistar. É que foi aberta a era de um novo tipo de civismo: o “civismo” Esmolé, instituidor de uma sociedade de párias.


Falei mas não cheguei no lugar que eu quero. Chego agora. Os alunos gastavam o juízo querendo alinhavar idéias para despejá-las na resolução de uma prova. A sala de aula parecia um deserto de roído. De repente, uma gritaria em vozes infantis do lado de fora: “Queremos justiça! Queremos justiça!”. Imaginei que a meninada, da escola que funciona no prédio visinho ao local onde eu aplicava aprova, estivesse em pau com a diretora, ou com alguma professora. Desloquei-me até a balaustrada e avistei tudo. Os meninos brincavam de “políça e bandido”. Os que soltavam o refrão eram os que estavam presos. Enquanto os presos cobriam os rostos com camisas e inflamavam as mãos, os “poliças” – gritos isolados saíam: “poliça filho da puta” -, circulavam nervosos empunhando armas fictícias. Com pouco, a cadeia foi rompida. Os bandidos saíram em perseguição aos “poliça”. Esses correram esbaforidos, mas logo foram alcançados e mortos. O alarido da comemoração da vitória dos bandidos. Vendo aquilo, pensei: “Meus porcos, se lhes faltava comida, também arrombavam as cercas, mas não sabiam se vangloriar”. Eles não eram aprendizes de “cidadão”, não podiam ter orgulho desse “civismo” esmolé, que comemora a glória de  pária.


A professora - podia ser a diretora - aparceu: “Meninos, o recreio acabou”.

PEDAGOGIA DA AGONIA

OBS.:    O texto abaixo é um fragmento da obra em fazimento Caatingueiros e Caatinga e se reporta


à forma como os caatingueiros se faziam na primeira metade do século XX. Não confundir este texto com o rosário de sentimentos de culpa desfilado em Pedagogia do Oprimido de Paulo freire.


 


PEDAGOGIA DA AGONIA


                                              Esmeraldo Lopes


 


“Chicote pode não ser professor, mas que ensina, ensina!”. Os caatingueiros foram feitos, se fizeram na toada desse dizer e do fazer na mesma direção. Afinal, o que é era ser homem, senão suportar todas as agonias? Suportá-las cumprindo o dever. Tanto fazia que fosse o dever da ordem mandada, o dever da ordem da necessidade, o dever de ser no acordo do comando do costume Necessidade de obedecer, de agüentar, de ser o que todos esperassem que fosse. O ter que fazer, que suportar, para corresponder. E quem falhava no cumprimento desse esperar, entrava no nada, sem consideração de respeito. A síntese disso em duas faces: valentia e brutalidade, de um lado, do outro, acanhamento, vida humilhada.


Ser homem: não se intimidar diante de tarefa a ser realizada; não temer perigo; não refugar diante de requerimento de esforço; não aquietar-se na desfeita acontecida entre iguais; castigar afronta, ato desmantelado de inferior, sem piedade; observar cegamente a norma: “cada qual em seu cada qual”. E cada qual na correspondência de sua posição na hierarquia. A conformação ao social pela força desnuda de fineza, de mimo.


Aprender a trilhar no caminho da vida sem conforto, se defrontando sem proporção de medida com as dificuldades aparecidas, sem busca de arrodeio, de suavidade, seguindo o mesmo jeito do fazer de sempre. Para os caatingueiros, assim: contra a dureza da natureza, a bruteza do homem.


Os meninos se fazendo gente na batida da obediência, do cumprimento de determinação, aprendendo, com medo, a desafiar o medo. Nisso uma escolha: chicote, castigo ou aspiração. Ser homem: a aspiração dos meninos. Então lançar-se, ainda menino, no entrar no embrenho da labuta crua dos homens, pelo prazer da conquista de reconhecimento. Não tendo essa aspiração, grito, chicote, castigo, como recurso de superação do medo, da fraqueza do corpo, do vacilo da alma. Ou se fazer homem, ou ser feito homem, no atendimento do requerimento da necessidade. O mal-trato como guia de orientação.


A dureza do trato com o criatório como guia de doma. Bezerro levado ao mourão em relho curto, exposto à chuva, ao sol, submetido à sede e à fome durante o correr do dia, para o quebramento das forças; animais de montaria: quebrar-lhes o pescoço pela força de puxões das mãos nas rédeas, castigar-lhes com chicotadas inclementes; neles, ainda, chicotadas por cima de esporadas rasgantes nos vazios para imprimir-lhe força, velocidade, para a feitura do que tinha que ser feito. Se o animal de montaria se mostrasse indomável, exaurir suas forças pelo requerimento de esforço grande. Para gado bravo, botada com carreira de cavalo, corda forte, cambão, pancada nos focinhos, nos chifres, ferrão enfincado no pescoço, nas ancas, para aprender a respeitar.  Criação miunça no traquejo curto de gritos, de afronta de latidos de cachorro, de espancamentos, do aturdido das patas dos cavalos.


Imagem de temor dos bichos: vaqueiro. Em tudo por tudo, a doma dos bichos de criação pela ação de traquejo bruto, sem agrado de trato de fineza. O enquadro dos bichos pela bruta, na ordem bruta dos caatingueiros, e os caatingueiros, se enquadrando na ordem bruta do jeito dos bichos, se desdobrando com todas as forças para vencê-los. Ser homem: vencer e vencer os bichos, agüentar os sopapos da natureza do meio, do jeito que ele se apresentasse, agir sem temor na guarda do respeito, gastar-se na lida sem resguardo de esforço.

Identidade e absurdos de identidade

                                                                Esmeraldo Lopes


Sou nordestino e como tal, comedor de farinha. Meus ancestrais, até onde alcança a memória dos que já há algum tempo se foram, estavam na ordem dos deserdados, humilhados, maltratados pela arrogância dos donos do poder. Tanto quanto nordestino, sou brasileiro. Um brasileiro que se fez do “resto que sobrou da rapa do taxo de fazer rapadura”, como disse Darcy Ribeiro, e forjado no bico do ferrão, nas plagas da Caatinga. Olho-me e vejo inscrito no meu corpo restos de negro, de índio, de branco, resultante de tantas misturas que se foram processando no suceder da história, que não me permito classificação de cafuso, de mameluco, de caboclo, de mulato. Por isso, se quiserem saber minha raça, direi: Sou brasileiro. Nos tempos de afirmação de identidades compartidas, repudio a quem me classifica como branco, como índio ou como negro, que isso agride, elimina o índio, o branco, o negro que se estampam em mim. Minha árvore genealógica... Como eu poderia saber, se os que me fizeram pelo desejo da carne se postavam no último lugar da fila, sem reconhecimento de registro de nome em cartório? Por outro lado, qual é mesmo a importância do conhecimento dos longe de uma genealogia? Basta-me saber que sou síntese do tempo, dos prazeres e das amarguras. Costumo dizer a meus alunos: “Não há escapatória. No atrás de nós, ou há um homem submisso, desaparecido em seu ser, uma mulher estuprada por um senhor, ou há um castrador, um estuprador, um espancador”. A história que deu em mim, que deu em nós, é síntese disso. Não tenho, não posso ter ressentimento, por isso, abaixo todos aqueles que renunciam a brasilidade e reivindicam para si a condição de minoria. Os que fazem isso são coitados, se postam como fracassados, declaram-se derrotados, por isso rosnam no desejo de privilégio. Eu sou maioria, que eu sou brasileiro feito no seguir do percurso de uma longa estrada. Se eu fosse africano, europeu, asiático... estaria me afirmando com outra identidade, mas isso não me faria nem mais e nem menos humano. 


Olho na história recente e percorro as imagens do horror do holocausto: carne humana torrando nos fornos, gente mutilada pelas privações, morte em vida, vida em morte. O embalo disso, o discurso racial. Foi racial, mas podia ter sido religioso - lembremos da Santa Inquisição, das Cruzadas. Podia também ter sido nacionalista, étnico - como também o foi -, de gênero ou de gay.  Todo discurso de enaltecimento de identidade é perigoso, falso e carregado de preconceito rúim. Não é analfabetismo dizer preconceito rúim, que existe preconceito bom, que nós precisamos de preconceito para viver, para nos sedimentar no que somos. O problema é o enaltecimento, o orgulho que reduz os outros a nada, que fecha um povo no seu ser, negando o ser dos outros povos. Cheguei aonde queria. Sou nordestino, brasileiro, poderia ser judeu, árabe, mas antes disso tudo, a condição para ser o que sou, para que cada um seja o que é, é ser humano. Se cada um é humano, tem a propriedade do pensar, de guiar-se sob a orientação da própria cabeça e andar no equilíbrio dos próprios pés, e o dever de renunciar à identidade, e até de combatê-la, quando a condição para a sua afirmação for a eliminação física ou moral do outro. Não tomar essa posição é renunciar à própria humanidade, é tornar-se objeto de um grupo, é tornar-se besta-fera, é mergulhar no sono cego de um orgulho imbecil.


Os nazistas, os alemães que se quedaram diante deles, seus admiradores no mundo, eram bestas-fera, como bestas-fera foram todos os que aniquilaram grupos étnicos ou religiosos para se firmarem em suas identidades. Mas veja-se que ironia. Até aonde a besta humana é capaz de chegar. Os judeus foram massacrados nos campos nazistas, foram humilhados nas ruas, foram privados de si. Mas, o que vemos hoje? Vemos os judeus repetirem com os palestinos as mesmas atrocidades de que foram vítimas, agindo contra eles em grau pior de desproporção. Vê-se, entre os judeus, se repetir o mesmo comportamento dos alemães diante do nazismo: o silêncio, a cumplicidade, a colaboração nessa empreitada de besta-fera. Como então, alguém pode ter orgulho de ser judeu!? Se eu fosse judeu, repugnaria minha identidade, sentiria vergonha de mim enquanto não me desnudasse dela, e preferiria ser só humano.


 


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Não precisa saber inglês, nem falar a língua dos palestinos para compreender tanta indignação. A indignação de uma criança.


 


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