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TRANSLÚCIDO INVISÍVEL

                                                                                        P/  Esmeraldo Lopes


 


O mar. O revolto das águas na luta eterna contra o arrecife, sem repetição de movimento. No inalcançável da visão, o infinito. Perto, perto, a areia em bilhões e bilhões incontáveis de grãos fazendo piso para a multidão: a praia.


Todos os dias sempre a mesma multidão, formada na variação das pessoas. A multidão eternamente conservando a mesma cara, vestindo as mesmas cores, se movendo no mesmo passo. Passo de passos diferentes, que o movimento feliz das crianças, que a arrogância dos turistas, que o deslumbramento dos farofeiros, que o andar ligeiro dos garçons, que o ir e vir frenético dos ambulantes, que os barraqueiros botando cuidado atento no trabalho de enchimento do caixa. E, perdidos neste emaranhado, o olhar distante da bela moça de feição triste, a solidão de um homem portado em um corpo maltratado, dando pouso ao cansaço, mergulhando a alma em um copo de cerveja, talvez, fugindo das lembranças. E, no atiçado sobre o seu ser, ele:


- Tive dois filhos (filhos), minha esposa morreu, agora estou só. Meus filhos estão por aí, têm a vida deles. A vida é assim, é a lei. Sou aposentado, mas o salário mínimo não dá, por isso vendo bilhete de loteria correndo as praias. Saiu oferecendo os bilhetes. Algumas pessoas compram, outras não dão atenção e há as que soltam piadas.


Até aí, o comum, mas veio que, futucado, ele começou a soltar:


- A vida é instinto. O mais sofredor dos seres, ainda que desenganado, quer viver, sonha se alimentando com esperança.


- A poesia é o sentimento da alma do momento. Presta para o sentimento da vida. Deus criou o mundo em um ato de poesia, por isso ele criou a vida.


- A Caatinga é uma das praias de minha imaginação.


E, no aproximado da conversa:


- Sou poeta.


 


De sua lavra, entre inúmeras:


 


Quantas vezes passamos pela vida,


Sonhando coisas que jamais teremos,


Tão-somente aos outros parecendo


Uma imagem que nunca foi sentida.


 


Quantas vezes em nós há só poente,


 Mas fingimos divina madrugada


Ou sorrindo, ou em plena gargalhada,


Ocultamos a dor inutilmente.


 


Quantas vezes fazemos carnaval,


Festejamos a Noite de Natal


E falamos dos mundos encantados.


Mas... por dentro de nós choram degredos,


Decepções e traumas em segredo


E as tristezas do Dia de Finados


 


***


 


Finalmente cheguei ao fim desta jornada.


Tão cheia de agonias, de decepções.


E cada passo percorrido,


As frustrações deixaram para sempre a marca registrada.


E tão cedo perdi meus entes queridos.


Só ficou no meu peito a saudade fincada.


Saudade... A saudade é a dor perfumada.


Vegeto desde então no Vale dos vencidos.


Nunca! Jamais passou por mim a deusa sorte.


Então sejas bem-vinda, oh desejada morte.


Dancemos uma valsa,


Depois serei teu.


Se alguém conhecido perguntar por mim,


Certamente ouvirá uma resposta assim:


- “Não sei, ouvi dizer que Mirabeu morreu.”


 


***


 


SONHANDO


 


Havia no sorriso algo de rainha.


Se pegava na flor,


Esta se comovia.


Se a noite era escura,


Se tornava em dia.


Do ventre as estrelas,


Uma prece vinha.


Quando entrava na igreja,


Os sinos badalavam.


E pairava no mundo,


Suave alegria.


Tudo em volta de tudo,


Era só poesia.


No embalo da brisa,


Os bambus dançavam.


Os seios tão durinhos,


Boca sensual...


Que mistura de santa


E de mulher fatal!


Beleza igual,


Jamais existirá, suponho.


Oh efêmera noite de felicidade!


Dela, só me ficou o rastro de saudade.


Por que despertei de tão bonito sonho!?


 


 


***


 


 


Fugiu desse meu ser,


Um pavoroso grito


Que vivia escondido,


Tenso e acorrentado.


Ainda escuto o seu eco


Rumo ao infinito,


Pairando em cada estrela,


E jamais consolado.


Bem sei que a maldição da múmia me persegue,


Junto às pragas de mãe, que ao filho mal rogou.


Ou quem sabe? Macumba,


Embora sempre a negue


A minha crença em Deus,


Que sempre vacilou.


Passam por mim zombando,


Mais de cem mendigos.


Prostitutas banguelas me fazem caretas.


E os fetos abortados


Me culpam por tudo.


E o meu grito regressa


Sem resposta, amigo.


Um relincho terrível


Num curral de bestas,


Me transforma num monge


Surdo, cego e mudo.


 


Abrahão Mirabeu Cavalcanti, 1931, nasceu em Quebrangulo, na casa e no quarto onde nasceu Graciliano Ramos. Estudou até 1950, quando foi forçado a abandonar a escola no 3º ano ginasial, por falta de condição do pai (Artur de Lima Cavalcanti), que era professor autodidata.


-  “Tenho o nome Mirabeau porque meu pai admirava muito da Revolução Francesa e havia um herói com esse nome”.


- Meu futuro sempre foi... Nunca me preocupei com 24 horas. Se eu estou de dia, me preocupo com o dia; se estou de noite, me preocupo com a noite, nunca com o amanhecer. Aconteça o que acontecer o futuro, o passado e o presente estão dentro das 24 horas. Nunca me preocupei em ganhar dinheiro, toda a minha preocupação foi sempre ler, ler, ler... Ler é compulsão.


Mirabeu, foi jornaleiro, morou em Brasília, onde participou da Diretoria do Sindicato dos Jornaleiros e, nesta cidade, discursou no último comício havido, antes do Golpe de 1964, antecedendo a participação de Leonel Brizola. Com relação aos percalços da vida, invoca uma expressão árabe, que, traduzida, diz: “Estava escrito”.

DIVINDADE SEM PARAÍSO

Esmeraldo Lopes


O paraíso é o túmulo dos fracos e dos idiotas. Em qualquer que seja o paraíso, sempre haverá um deus, não importa se do bem, ou se do mal. Sim, do mal, pois que o inferno é o lugar da felicidade dos diabos. Por quantos tormentos passaria um diabo no céu?  Por tantos quantos passaria um anjo no inferno. Em qualquer que seja o paraíso, sempre haverá um deus a guiar os passos, a ordenar o pastejar do rebanho. E o rebanho em seu seguir, temeroso, amedrontado pelo som das dobradas da chibata cortando o vento, se queda diante da ordenação do deus entronado, entoando o canto morto: “Eu aceito o meu destino. Eu mereço o castigo, meu bom deus”. Triste céu, triste inferno! Tristes todos os paraísos, túmulos da demência, túmulos da covardia.


Esqueçam-se os paraísos, que quero falar da vida.


Todos os homens sem paraíso são deuses, porque obreiros de si e se lançam na tormenta das agonias do mundo, rindo, chorando, suportando, se indignando, tropeçando, levantando, se julgando, proferindo as próprias sentenças. Silêncio, ação, solidão, angústia, silêncio.... Divindades sem paraíso, habitantes do vácuo universal.

APARIÇÃO

Esmeraldo Lopes


A noite. Os mesmos acontecimentos de sempre de toda noite: a chegança de um, a chegança de outro... Cada quem se ajeitando no improviso de agasalho de algum encosto para o corpo. As conversas anunciando os ocorridos do dia, mas os ocorridos sem variação para atenção curiosa. E no logo, logo dos ditos dos acontecidos no de ontem para o hoje, os contados sabidos, sabidos, sabidos, repetidos, repetidos... mas sem atração de cansaço, prendendo a atenção, puxando imaginação. Desejo: que sempre fosse assim que notícia nova, notícia de morte por morte, de morte por assassinato. Notícia de morte por morte, choro, tristeza; notícia de morte por assassinato, o correr no daqui a pouco de poucos dias, de outros assassinatos por vingança. Melhor o ali. Naquele ali, a variação das noites pelo truvo clareado pelo pouco alumiar da fogueira, pelo clareado despejado pela brancura da luz da lua. Esse assim, esse assim... Mas em uma noite... Nessa noite o avistar ia até o longe do alcance das vistas. O céu estava nu, as estrelas se mostravam serenas no firmamento, a lua esparramava branquidão. E foi que um chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii..., abafado, assoprou no mundo. Era um chiiiiiiiiiiii... sem subir e sem descer de tom, sem ir e sem vir, manso, assoprando sem sinal de rumo. E uma cabeça voltou os olhos em outra direção: “O que é aquilo?” A gente foi com as vistas na posição da cabeça dos olhos que viam. Vimos a aquilo que vinha. Vinha do lado do Sul. E aquilo vinha carregado com cores de todas as cores, derramando claridade colorida sobre as árvores, sobre o chão, desfazendo o clarear da lua. E lá vem, e lá vem, serenando no rumo, mantendo a altura que estava do chão, sem subir e sem descer, navegando na linha de prumo reto. O Chiiiiiiiiiii... manso, contínuo. Nós: o silêncio, a contemplação, o enfeitiçamento sem piscado de vistas, e não nos víamos. Todo o nosso olhar era para o que víamos. A coisa se mostrando. Era grande-grande, em vôo baixo, rasante. Ainda no longe de nosso avistar, o que se via era um misturado de cores piscando, um misturado de cores em linha reta, que logo se embaraçavam, formando cauda, correndo atrás. No aproximado da passagem dela, fileiras de luzes coloridas piscando do lado, em baixo, em ritmo de cadência, no correr de todo o seu tamanho. No aproximado bem próximo, a claridade da mistura das luzes se batendo sobre nós, o chiiiiiiiiiii... sem pausa, continuado. Na cauda não havia piscar de luzes. Havia misturado de cores alinhadas, e que depois se enleavam. Eram muitas cores luminosas. Ficamos vendo o seu ir escorregando suave para o Norte. E a coisa foi, foi... até o desaparecimento do alcance de nosso enxergar. E não sabíamos o que a coisa era, mas não houve medo. Contemplávamos serenando, no sereno, calados. No quebra do silêncio, uma voz: “É sinal do fim dos tempos”. Depois soubemos: outros viram o mesmo ver, e todos ficaram no mesmo sem saber.


 


Aparição na Caatinga de Curaçá – BA, em meados da década de 1960

Funeral

Esmeraldo Lopes


O único sujeito que não faz cara de sem graça em um velório é o morto. A face dele é sempre plácida, porque ultrapassou o mistério da vida e da morte, mas não sabe disso. Mergulhado na profundidade do espaço vazio e eterno da inexistência, ele é pura paz. E a placidez do rosto do morto faz contraste com a angústia e a cara sem graça dos presentes ali. Entre os presentes, os que sofrem, os que imitam sentir, os apenas por consideração. Mas não importa a diferença. O que importa é que o morto deverá estar lá, palpável, exibindo seu rosto de paz, para a certificação da morte. E na certificação da morte deita toda dor, todo disfarce e a impotência conformada. Conformada no selo do sepulto. “Ainda deu para eu pegar nele assim... antes de fecharem o caixão”. Fim. Saudade. A borracha do tempo.


Ausência de certificação da morte: o desaparecido. A espera desesperada, sem fim. As horas, os dias, os anos. Esperança que se enche, esperança que se esvazia. A procura, o olhar de busca, a imensidão do mundo, o que pode ter sido, o que não poderá ter sido. A dúvida naufragada na dúvida, sem trégua, sem terreno para pouso de conformação.


Todos os dias, uma mãe no mesmo proceder. Tomar banho às três horas. Às quatro, dirigir-se à esquina de passagem concorrida de transeuntes. Os transeuntes passando no ir de uns e vir de outros. Ela lá, plantada no recoste de um poste, olhos atentos, esticados ao longe, ao perto, à direita, à esquerda, e, de repente, o espaço vazio do sem gente na rua. Um vulto solitário em movimento. Ela espera. Ele se aproxima. Uma voz abandonada salta de dentro dela sem motivo de razão: “Não, não é ele. Ele não voltará mais...” Leva as mãos à cabeça de cabelos desbotados, circula os olhos por todo o espaço e volta para casa, sem força, sem esperança, e fala alto para si: “Um dia ele vai voltar”.

ESTRANGULAÇÃO

Esmeraldo Lopes


Escrevo durante o dia. Se dou essa informação é para que se distancie a idéia de que estou embalado pelos tormentos e  fantasmas da noite. Todo mundo sabe que as imagens noturnas deixam a gente mais sensível, e os monstros da memória ganham terreno. Ganham terreno no agasalho do latido longínquo de um cachorro, no vento redobrando nas folhas, na sonoridade rouca do assoprar de um ventilador, no abrigo do som do silêncio total. Na noite, os sentidos desprezam as formas, penetram os íntimos, mergulham com lucidez no profundo dos esconderijos e atingem as essências.     Fiquem, portanto, sabendo que escrevo durante o dia, o horário mais pobre para o correr da imaginação, pois nesse horário o espírito se encontra envolvido pelos chamamentos imediatos, oprimido pela chibata das regras de tolerância, atarantado por invariáveis estímulos que cobram atenção. Durante o dia, a luz espanta as visagens para longe, encandeia a visão e dá resistência às formas. Formas que se harmonizam e encontram proporção em arrumados de disfarces. Mas vem que vem a noite, e as imagens do dia são filtradas. Os fantasmas se apóiam no encosto da memória, fazem revelações. E a nitidez translúcida. A disputa entre razão e vontade, a aliança entre vontade e desejo. “O desejo é triste”, a vontade é bruta, a razão é navalha. E volta o dia. Ao oprimido, a decisão: liberdade ou atrofia da alma, do corpo, da vida.


A vontade não pode ser suprimida por decreto, mas pode ser estrangulada por ação. Quando não se dispõe de tempo suficiente para esperar que uma folha caia naturalmente, urge que ela seja arrancada a golpe de instrumento qualquer, ou mesmo da mão. Assim ela seca e se perde espatifada nos bagaços do mundo. Seus vestígios também acabam por se decompor, pelo pisado dos bichos na terra seca, ou na podridão das lagoas, dos brejos, dos pântanos, no intestino dos insetos. É a natureza.

A vingança

                                                                            Esmeraldo Lopes


Amores profundos sempre terminam em tragédia; amores superficiais em desastre. Que cada um encontre a medida de avaliação da intensidade de um amor. Em verdade, amor profundo só tem vigência de nascimento no tremor de grandes desgraças. Aliás, não é só o amor, tudo o que é sólido, só é sólido porque teve a capacidade de se fazer na desgraça. Não é nela que surgem os grandes amores, nascem e morrem os heróis? Fora das situações penosas, a imitação, o disfarce. E todo mundo procura ser o que idealiza, sem a necessidade de se pôr à prova.


Margarita... Margarita sentava-se à minha mesa à espera do noivo. O seu comportamento era a verdadeira coroação de santificação da virtude feminina. Diante dela, a impressão que eu tinha, é que todos nos transformávamos em paisagem morta, como as cadeiras, a mesa e as garrafas. E assim, até que chegava a chave do seu sonho de amor: o noivo. Ele fazia aquele aceno de benção para todos, e se devotava em atenção plena e exclusiva a ela. Éramos pura paisagem. Quando eles se davam a licença de alguma atenção aos circunstantes, era com tanta solenidade nas palavras e gestos, que ficávamos com um certo ar de sem-graça. Muito antes de anunciarem a data do casamento, ficava clara a sua preparação. Escapava aos nossos ouvidos nomes de padres, referência a igrejas, preparativo da festa... A gente ia juntando as coisas e fazendo a conclusão no sair deles. Entretanto, algo chamou à minha atenção, acho que só à minha: Margarita passara a conduzir junto com os cadernos, livros de iniciação à relação conjugal. Não sei se Felipe fazia atenção naquele tipo de preparação, mas observava-se que a cada dia ele se apresentava em enquadramento maior. A todo convite da gente ele vinha com um “Não posso”, “Minha noiva marcou”...  Vou encurtar a história. O casamento aconteceu logo após a formatura de Margarita. Festa supimpa, em uma chácara, com padre e juiz na certificação do ato, e o prefeito como padrinho.... Nós, os do bar, lá no afastado da elegância dos demais convidados. Recebemos a graça da presença deles por uns dois minutos. Não sei se foi presença ou despedida, que depois dali só ausência.


Outro dia eu estava no bar onde Margarita costumava esperar Felipe. Das pessoas do tempo da presença deles, só eu, que a turma de encontro se desfez. Senti um puxado no pescoço acompanhado pela expressão de uma voz feminina: “Olá, meu brother”. Levantei a cabeça desconhecendo a imagem de cabelo vermelho-paixão, trajando calça santropê e expondo um decote sensualizante. Levantei-me desentendido. Margarita  com um par de dedos esticados nos braços levantados para meu abraço: “Tô no reggae, meu brother”. Perguntei por Felipe. “Aquele filho de uma puta me traiu. Agora sou livre! Ele tá pagando, apaixonado. Tô nem aí”. Eu nunca tinha visto uma situação assim: virar periguete para se vingar do marido, ou do ex. Depois pensei: de qualquer modo há uma coerência nisso: a continuidade da representação.


Emendo aqui a história de Margarita com a de um sujeito que veio em minha direção dizendo: “Não me conhece mais? Eu fui o esposo de... Ela virou sapatão”. Pensei: “Será que ele virou veado para se vingar de...” Mas, logo em seguida o festejo: “Pra mim foi melhor. Ela tinha 35 e eu casei com outra de 19”.

Glória triste

Esmeraldo Lopes


Não se trata de história de alguma mulher de nome Glória que se entristeceu. Quero me referir ao um povo que escolheu se fazer na vanglória de vaidade apodrecida. É verdade que a história agiu fazendo-o, mas, quem faz a história? Parta-se do princípio que a vida é feita de escolhas e de suas conseqüências, que se não se age sobre as conseqüências é porque elas expressam o efeito desejado.


O escrito acima é preâmbulo, que o assunto aqui é Bahia. Bahia, não, baiano. Faça-se a distinção: Bahia é um estado, baiano é postura, estado de espírito. Estado de espírito plantado e cultivado em Salvador - Bahia.


Lá nos longe da história, Gregório de Mattos berrava no vazio, o clima de bestialidade do corpo e da alma da gente vivente em Salvador:


“A nossa Sé da Bahia,          
com ser um mapa de festas, 
é um presépio de bestas,       
se não for estrebaria:” (...)


Duzentos anos depois, Luiz dos Santos Vilhena grita nas letras, proclamando a desgraça do assentamento Salvador: fétido, promíscuo, degenerado. Gregório imortalizou-se, envolto na irreverência da alcunha “Boca do Inferno”; Vilhena mofou na escuridão das estantes esquecidas. Nas algazarras das ruas, nos fungados das alcovas, nas esculhambações nos palácios, continuava desfilando a Bahia. Salvador era toda a Bahia. E nesse desfilar, um político, em uma mistura de ira, frustração e gozação, soltou: “Imagine um absurdo... E na Bahia já aconteceu!”. Aconteceu na Bahia da Bahia.


No ir de jeito assim, as coisas nascendo e se afogando no suceder do dia-a-dia. Foi que veio o brado da exaltação da degeneração Bahia. A preguiça, o rebolado das baianas, o gingado dos malandros, descuido, relaxidão e pobreza subindo ao trono nos escritos de Jorge Amado, nos cantos de Caymmi... O mundo entrou a se bestificar na adoração do paraíso da escrotidão. Bahia cartão postal, a população exagerando para se enquadrar nas louvações anunciadas. Novos anunciadores: Caetano, Gil... O desbunde, a turma do arraso fazendo glória, se ampliando. Hotéis, restaurantes... E a Bahia virou arapuca pega-turista. Baiano produto: gentil, subserviente, desafeito a trabalho, “anfitrião”... um ser despersonificado para corresponder à imagem do tipo anunciado. E, de repente, tudo se consagrou no requebrado mirabolante de bundas embaladas nos batuques de timbaus. Timbaus no chão, timbaus nos trio-elétricos. E as músicas... na medida certa para bandas chama-merda. Lavagem, lavagem... Lavagem e merda.


Baiano, “povo que sabe viver”. “Povo feliz”, “irreverente, que mostra a rebeldia mijando e defecando no chão das ruas”; não paga, não cumpre, festeja. Bahia: liberdade, paz, alegria e felicidade. No esquecimento disso, um professor da Bahia, questionado pelo insucesso dos alunos do curso que coordenava, revelou uma constatação: “Baiano só toca berimbau porque o instrumento só tem uma corda”. Os inteleca mamãe áfrica se enfezaram, aturdidos pela queda da máscara. Não resta dúvida, foi um dizer de certeza de ciência, pena que falhou na argumentação. Evocou neurônios como causa. Não, caro professor. O problema não é de neurônio, é de subnutrição cultural, causada pela abundância de ingredientes da baianidade.


“Ó Paí, ó”, homenagem a uma glória triste.


Baiano, eu? Não! Sou da Bahia.   

ALUNOS

                                 Esmeraldo Lopes


Uma árvore de beira de rio fica no seu lugar, assistindo a corrente das águas, o batuque dos peixes, o descer das moitas, dos galhos soltos, das folhas, o movimento dos barcos. Ora a água se abarrenta, ora fica translúcida. Os peixes, as piabas se entrecruzando, as pedras comandando os remansos.  O tempo vai e vai, e ela lá, vendo o rio se aproximar quebrando o barranco, provocando o afloramento de suas raízes. Mas o rio é o mesmo, com os mesmos batuques de peixes, com as mesmas aves voando e moitas descendo.


Na escola, eu ali, os alunos chegando, os alunos saindo. As mesmas vozes, os mesmos gritos, os mesmos passos, gestos e inquietações, os mesmos aborrecimentos, aquele monte de corpos adolescentes carregados de energia. Os alunos como as águas do rio: a permanência do que passa. A multiplicidade de seus rostos formando uma cara eterna: a cara de alunos. Os nomes? Minha memória não os guarda. Sempre conheci meus alunos pela cara. Um ou outro é mais saído, tem nome, que logo a ferrugem do tempo corrói, e ele volta ao anonimato, diluído na composição da face geral.


Os alunos sempre passantes em multidão, ano a ano, pelo mesmo lugar. Eu ficando, ficando. Acabei me assumindo como se assumiria uma árvore de beira de rio. Mas de um rio tormentoso, devastador das árvores das margens, em degeneração.

O SUPERFICIAL


                                                                        Esmeraldo Lopes


Há gente de todo tipo, mas o tipo de gente que quero ver cada vez mais distante de mim é aquele que é incapaz da contemplação, da introspecção. Esse tipo está sempre ávido pelo presente e nele se detém e adota permanecer todo o tempo. É incapaz do espanto, de uma parada diante de algo que não seja a dor imediata causada por algum transtorno.


O superficial é reles. Não passa de um corpo animado. A mais estreita aproximação de que é capaz, deixa a vaga de um oceano. Seus sentimentos não vão além da pele, e dele pode-se dizer que é pura pele. É incapaz da gratidão e da compreensão. Vive pela sensação de emoções rasas, passadiças. Por isso detesto todo tipo de gente que se orienta pelo hedonismo.


O superficial é dado à moda, e esse pessoal que gosta a rolar ao sabor do vento, não tem nem passado e nem futuro. Como puro animal, só dispõe do presente. Por isso se dá à liberdade da efemeridade e do ridículo. Só não pode ser igualado a um copo descartável porque um dia poderá remexer no seu próprio monturo.


O homem que se põe um projeto que transcenda a si, que busque algo amplo como a solução ou a compreensão de algum problema da humanidade, pode, aí, encontrar algum resquício de felicidade, exatamente porque nisso se esquece. Mas isso está longe do superficial.


Tédio e felicidade, felicidade e tédio: eis o percorrer incessante do superficial. Assim, porque não consegue sair de si. Mas o que chama de felicidade, o que assim classifica, é pura idiotia.


Outro dia, em uma fila de caixa de mercado, ouvi um mugido genuíno, autêntico, sincero, explodir da boca de um superficial, no anunciar do valor da compra que teria que pagar: “Tudo isso!? A gente só trabalha para fazer bosta”. Uma frase certeira e bestial, que se acompanhou do prazer de poder comprar.

MISÉRIA ACAMADA

Esmeraldo Lopes


Um dia me perguntaram se a miséria era genética. Saltei de espanto, mas o perguntador, sem me deixar suspirar, foi ilustrando o fundamento de sua indagação: “O avô daquele camarada ali na frente, era um miserável que se aninhava com sua família em um rancho feito de palha, levantado em terreno alheio e vivia das migalhas que o mundo lhes oferecia, conforme o dito dos mais velhos. O pai dele vivia das graças de Deus, se protegendo da chuva em uma casa-de-taipa, escutando o roncar que vinha dos buchos quebrados da esposa e da filharada mal-amanhada. Foi assim até que veio a aposentadoria para silenciar aquele barulho de fome. Agora, ele, o filho dessa sucessão de desafortunados, veio me pedir uma ajuda ligeira para acudir a fome dos filhos”. Eis aí a miséria, mas nisso não está toda a sua cara. Ela tem disfarces, e é neles que o Brasil está a tropeçar.


O caso está no seguinte caso: considera-se, pelo comum do ver, dizer e ouvir, como miserável, aquele sujeito que está na agonia da fome, na proteção de cobertura esfarrapada. Faz essa consideração o Analfabeto Sem Dedo e sua corte de oportunistas com auréola de intelectual. No suave do dizer, diga-se: oportunistas ao quadrado elevado ao cubo. Mas, por que oportunistas nesse grau? Simples, porque sabendo que o chefe é um idiota que se quer na onipotência de Deus, cabisbaixos, buscam se beneficiar caminhando sobre o rabo de sua estupidez. E na estupidez de seu vesgo mental, o Analfabeto Sem Dedo decretou o fim da miséria e da pobreza com penadas: cartão-cidadão, cota isso, cota aquilo... e mais alguns garranchos com cara de assistencialismo que chama de cidadania. Seria demais esperar dele a compreensão do que viria a ser um cidadão. Os oportunistas sabem, mas preferem o silêncio benfazejo que protege suas posições.


Perguntar-me-ão: “Onde está o erro, é certo deixar as pessoas morrer de fome, trepidar na pobreza?” A resposta é não. Mas é não, seguida do complemento: é preciso fazer com que o miserável, com que o pobre, busque deixar de sê-lo. Ao contrário disso, o que se vê é o Analfa Sem Dedo se vangloriar do ato esmolé, diante de uma massa esmolé que por todo o país se vangloria em sê-lo e esturra nos comícios, nas ruas, nas praças: “Ele é o melhor presidente, porque é o presidente dos fracos”. Gente que se auto-proclama como fraco, assume posição de covarde, e a covardia é o pasto da desgraça. Outro dia, alguém assoprou alto em meus ouvidos: “Ele pode roubar, fazer o que quiser que eu ainda apóio”. Mas esse que me fez esse falar não conta, o que conta é o mesmo ato repetido no campo do engrandecimento da pobreza humana. E nesse campo vêm até os estatísticos e “sociólogos” com tabelas rebuscadas demonstrando que a pobreza, que a miséria no país está diminuindo, que a classe média está crescendo. É que para fundamento desse babar, transformam um sujeito pelo simples ganhar R$ 600,00 em um eminente integrante da classe média: coisa de estarrecer qualquer pessoa de inteligência pouco acima da idiotia. Simples ver: retire-se a esmola, e a miseropobreza mostrará sua cara sem estampa de disfarce, só que com rebeldia. Pois a situação de miseropobreza virou condição orgulhosa, ornada pelo “tenho direito!”


O Analfa Sem Dedo se alimenta da miseropobreza, na esperança de ser um deus, e quando alguém cai nessa esperança, acabou de virar semente de cão, e acabará cão. Cão como Hitler, Mussolini, Stálin. Todos eles se fizeram poder montados nas asas do fracasso social, depois degringolaram no purismo redentorista e massacrador.


Não carrego na lembrança o nome, mas foi um filósofo que escreveu: “Quem se apóia na miséria está fadado à desgraça”. Tudo o que se apóia na miséria só tem como resultado a miséria. Ela é gerada por aqueles que se elevam acima dela, como redentores, ganham autonomia e depois passam a viver dela e nela mesma. Vem-me agora o pensar de Heráclito, filósofo grego: “Só os melhores, que constantemente provam ser os melhores e que ‘preferem a fama imortal às coisas mortais’, são realmente humanos; os outros, satisfeitos com os prazeres que a natureza lhes oferece, vivem e morrem como animais”.

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